Abertura da Década Internacional dos Povos Afrodescendentes

“Sob a proteção de Deus, de todos os Orixás, voduns e inkisis”. Com estas palavras, o presidente em exercício da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), deputado André Ceciliano, abriu a sessão solene em homenagem à Década Internacional dos Povos Afrodescendentes, instituída em 2013 pela ONU. Na noite desta quarta-feira 05 de dezembro, o parlamentar entregou no plenário da Casa o Prêmio Dandara, que leva o nome da líder negra do Quilombo dos Palmares e esposa do herói Zumbi, à Maria do Nascimento, Mãe Meninazinha de Oxum; e à Rute Patrício Chagas da Oxum, Ekedi Ruth de Oxum, consideradas duas das mais importantes representantes religiosas do candomblé no Brasil. Criado em 2015, o Prêmio Dandara, de autoria da deputada Tia Ju, destina-se anualmente a pessoas físicas e jurídicas que contribuíram com valorização da mulher afrodescendente, latino-americana e caribenha.

Foram entregues, ainda, moções de congratulações e aplausos a instituições e personalidades que contribuem para a garantia da promoção da igualdade racial, do respeito às diferenças e da proteção aos direitos humanos. Receberam as homenagens o coreógrafo e dançarino Jimmy de Oliveira; a maestrina Tânia Amorim; Nilce Maria, presidente da Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde (Renafro); e Edson Marinho, presidente da Associação das Escolas de Samba Mirins do Rio de Janeiro

De acordo com Ceciliano, o objetivo da homenagem é trabalhar a integração das pessoas de descendência africana e aumentar a conscientização da sociedade, no que diz respeito à contribuição dos povos africanos na construção da sociedade e da cultura brasileiras. “Contribuir para a garantia da promoção do respeito e da proteção dos direitos humanos, assim como a participação igualitária em todos os aspectos da sociedade”, afirmou ele na abertura da homenagem. “Não há forma alguma de negar a dívida histórica que o Brasil tem com os seus cidadãos de ascendência africana. Esta dívida existe, é grande e imensa. Esta sessão é uma singela oportunidade de reconhecimento disto” declarou Ceciliano.

Mãe Meninazinha

Um dos momentos marcantes foi a chegada da Mãe Meninazinha, no plenário lotado. A plateia aplaudiu e saudou a ialorixá de pé, que entrou ao som das palmas e da percussão dos atabaques, do timbal, surdo e agogôs. Nestes e em outros momentos foram entoados cânticos de Oxum pelos afinados integrantes da Companhia Musical Awuré, sob a regência da maestrina Tânia Amorim.

Ao agradecer o Prêmio, Mãe Meninazinha falou do Quilombo dos Palmares. “Pela luta de Dandara, tão importante como ela foi e continua sendo . Agradeço aos cariocas, Ogum e a todos vocês que estão lutando pela nossa cultura”, disse a ialorixá. “Agradeço a todos. Foi uma homenagem como nunca imaginei na vida inteira”, afirmou após a cerimônia Rute Patrício Chagas da Oxum, Ekedi Ruth de Oxum, 90 anos, nascida em Nova Friburgo.

O Frei Tatá, pároco em São João do Meriti, disse que o dia era histórico e saudar Meninazinha é saudar pessoas lutadoras. “Hoje os tambores começaram na Alerj”, declarou no microfone. Como os antepassados, iriam resistir aos desafios e à injustiça social”. No final gritou “Marielle presente”, numa reverência à vereadora assassinada em março deste ano.

População negra

Luís Eduardo Negro Ogum, presidente do Conselho dos Direitos dos Negros, falou sobre racismo e a violência. “A cada 23 minutos morre um jovem negro. O extermínio desta juventude é o extermínio deste país. Precisamos de carinho, acolhimento, para que os jovens tenham felicidade”, disse Luís Eduardo apontando para o grupo de crianças e adolescentes aprendizes das escolas de sambas mirins que esperavam para se apresentar.

“O samba vai continuar porque o futuro é nosso. Viva o samba”, afirmou em seguida Luís Pimenta, presidente das Associações das Escolas de Samba, ao falar sobre o gênero que tem origem africana e hoje é um dos maiores símbolos do país.

Uma parte da bateria do Grêmio Recreativo Escola de Samba Estácio de Sá também marcou presença em uma das galerias da Assembleia. O som dos ritmistas tomou conta do plenário da Casa, acompanhados de mestres-salas e porta-bandeiras mirins que fizeram uma apresentação para os presentes. Ao final, a Companhia Musical Awuré cantou a música “Raça”, de Milton Nascimento, ao som dos tambores.

Quem é Dandara

De acordo com a justificativa que criou o Prêmio, Dandara foi uma das grandes lideranças femininas negras que lutou, junto com Zumbi dos Palmares, contra o sistema escravocrata do século XVII.Não há registro do local do seu nascimento, nem da sua ascendência africana. Relatos levam a crer que nasceu no Brasil e estabeleceu-se ainda menina no Quilombo dos Palmares, na Serra da Barriga, em Alagoas. É a primeira e única mulher de Zumbi reconhecida, princesa de Palmares e mãe dos três filhos do líder.

Dandara era guerreira e auxiliou Zumbi nas estratégias de ataque e defesa de Palmares. Para não voltar à condição de escrava, matou-se jogando-se da pedreira mais alta de Palmares, durante a queda do Quilombo, em 06 de fevereiro de 1694.

Homenagens na Década Internacional da Afrodescendência na #Alerj #ComCausa
Solenidade de lançamento da Década Internacional dos Povos Afrodescendentes da ONU #ComCausa

Emanoelle Cavalcanti

Jornalista social e acadêmica de psicologia.

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