Em 27 de setembro de 2011, a música brasileira perdeu um de seus nomes mais emblemáticos. Edson Lopes Pozzi, o Redson, vocalista, guitarrista e principal compositor da banda Cólera, morreu aos 49 anos, em São Paulo, vítima de uma hemorragia interna provocada por uma úlcera estomacal.
Sua morte inesperada provocou uma comoção imediata. Jornais, rádios independentes, blogs e redes sociais — ainda em seu início — repercutiram o falecimento de um dos fundadores do punk nacional, lembrando que sua trajetória ajudou a dar identidade própria ao movimento no Brasil.
O impacto imediato
A notícia se espalhou rapidamente. Em fóruns de fãs, nas redes que começavam a se popularizar, a palavra de ordem era incredulidade. Como podia Redson, sempre cheio de energia nos palcos e conhecido por sua postura firme, ter partido tão cedo?
O sepultamento no Cemitério da Vila Alpina, em São Paulo, no dia 29 de setembro de 2011, transformou-se em um verdadeiro ato político-cultural. Não havia apenas lágrimas: havia camisetas com estampas de álbuns, bandeiras com mensagens de paz e liberdade, cartazes improvisados com trechos de letras. O adeus a Redson foi mais do que uma cerimônia fúnebre — foi a reafirmação de um legado.
Um punk diferente: construtivo, militante e esperançoso
Redson havia fundado o Cólera em 1979, ao lado do irmão Pierre (bateria) e de Val Pinheiro (baixo). Logo se tornaram referência em pontos de encontro da juventude punk paulistana, como a São Bento e a zona leste da cidade, e integraram marcos da história musical como a coletânea “Grito Suburbano” (1982) e o festival “O Começo do Fim do Mundo” (Sesc Pompeia, 1982).
Diferente de outros grupos que abraçavam o niilismo, Redson defendia que o punk brasileiro precisava ter conteúdo político e humanista. Admirador do The Clash, repetia que não queria apenas “barulho”: queria canções que transmitissem uma mensagem.
Em entrevista publicada pela ComCausa em 2006, Redson dizia:
“Queremos ser porta-voz desta vontade de liberdade. Esta é a nossa missão: passar a semente adiante, para que cada um faça sua parte.”
O disco “Pela Paz em Todo Mundo”: um manifesto em vinil
Em 1986, o Cólera lançou o álbum “Pela Paz em Todo Mundo”, um dos discos mais importantes da história do punk nacional. Lançado pelo Ataque Frontal, selo criado por Redson, o trabalho vendeu quase 100 mil cópias de forma independente — um feito impressionante para uma cena que vivia à margem do mercado fonográfico.
O disco não era apenas música: era manifesto. No encarte, a banda estampou a Declaração Universal dos Direitos Humanos, sinalizando que seu compromisso ia além da estética. Décadas depois, a Rolling Stone Brasil elegeria o álbum como o 2º melhor disco punk brasileiro de todos os tempos, atestando sua relevância atemporal.
Na mesma entrevista à ComCausa, Redson contou:
“Na época, muita gente gritava ‘Foda-se o sistema’, mas não sabia exatamente o que queria mudar. Eu tinha lido a Declaração Universal dos Direitos Humanos e pensei: é isso aqui que precisamos dizer, é disso que estamos falando.”*
Ativismo, ética e resistência
Redson não era apenas um músico, mas um articulador da cena. Com o Ataque Frontal, trouxe para o Brasil discos de bandas estrangeiras e viabilizou lançamentos de grupos nacionais, fortalecendo o circuito independente. Sua postura era também ética: em meio a um cenário muitas vezes atravessado por violência interna e disputas, defendia que o punk deveria ser radical na proposta, mas construtivo na ação.
Ele próprio resumiu:
“Queríamos ser porta-voz desta vontade de liberdade. Isso nos deixava felizes de fazer.”
Homenagens e continuidade
Após sua morte, tributos se multiplicaram. Shows reuniram figuras históricas do punk rock; veículos da imprensa alternativa e mainstream revisitaram sua trajetória, reconhecendo a importância de um artista que transformou inconformismo em ação.
O Cólera, após um período de luto, decidiu seguir. Wendel Barros assumiu os vocais, Fabinho a guitarra, ao lado de Pierre e Val. O primeiro passo foi concluir as músicas deixadas por Redson. O resultado foi o disco “Acorde! Acorde! Acorde!”, lançado em 2018, que soou como despedida e celebração.
Em 2022, no dia em que Redson completaria 60 anos, a banda lançou sua primeira música totalmente composta pela nova formação. A escolha da data foi simbólica: era a prova de que Redson continuava presente, não apenas na memória, mas no DNA criativo do grupo.
Um legado que floresce
Dez anos após sua morte, em 2021, documentários, matérias e depoimentos reforçavam o tamanho de seu impacto. Redson passou a ser lembrado como um dos grandes arquitetos do punk brasileiro — um artista que ousou sonhar com paz dentro de um gênero marcado pela fúria.
O reconhecimento ultrapassou o universo musical. Em Cordeirópolis, a Área de Proteção Ambiental na entrada do Jardim do Bosque recebeu seu nome como homenagem. A iniciativa do Projeto Pedal Verde, apoiada pela Prefeitura e Câmara Municipal, promoveu um evento com plantio de árvores, descerramento de placa e shows, culminando com a apresentação do Cólera — um tributo vivo ao legado de Redson.
Sua morte pode ser comparada à ausência de uma estrela-guia: apagada do horizonte, mas cuja luz continua iluminando os caminhos de quem ficou.
E ele mesmo deixou o recado:
“A causa do Cólera é falar de paz e fazer um som que todo mundo possa participar. A música é a chave que abre essa porta. Por isso não paramos: temos consciência de que é isso, e não tem porque não fazer.”
Hoje, cada refrão gritado em um show, cada vinil reeditado e cada jovem que descobre o Cólera é prova de que Redson não partiu por completo. Sua chama permanece acesa, lembrando que, no Brasil, o punk foi também sinônimo de esperança.
Veja também a vídeo do tributo à Redson no StudioB:
Entrevista com Redson e os imigrantes do Cólera:
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