Depois de anos cercado por tapumes e incertezas, o Palácio Gustavo Capanema, ícone da arquitetura modernista brasileira e patrimônio cultural da humanidade, reabre suas portas ao público no Centro do Rio de Janeiro. O prédio, que permaneceu fechado para reformas desde 2021, foi oficialmente reinaugurado nesta terça-feira (20), com 60% de seus espaços destinados à cultura, arte e atividades públicas gratuitas.
A reabertura não simboliza apenas a restauração física do prédio, mas também marca o triunfo da mobilização popular, de entidades culturais, movimentos sociais e de representantes do poder público contra uma tentativa de privatização que quase apagou parte da história do país.
A ameaça de venda e o início da resistência
Em 2021, durante o governo de Jair Bolsonaro, o Palácio Gustavo Capanema foi incluído no pacote de imóveis federais previstos para privatização, sob a justificativa de enxugar os gastos públicos. O anúncio gerou ampla repercussão negativa, especialmente no meio cultural e acadêmico.
A proposta de venda do edifício, que é símbolo da arquitetura modernista e da cultura brasileira, acendeu o alerta vermelho em instituições e movimentos de preservação do patrimônio. O prédio foi projetado na década de 1930 pelos arquitetos Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Affonso Eduardo Reidy, Carlos Leão, Jorge Moreira e Ernani Vasconcellos, com jardins de Burle Marx, azulejos de Cândido Portinari e obras de mestres como Bruno Giorgi e Alfredo Ceschiatti.
Na época, o então presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), deputado André Ceciliano, se posicionou firmemente contra a venda e articulou, junto a outros parlamentares, entidades culturais e a sociedade civil, um movimento de resistência. “A cultura do Rio de Janeiro não está à venda”, declarou Ceciliano em 2021, durante uma reunião que contou com representantes do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), Clube de Engenharia, CAU-RJ, CREA-RJ, IFLA, ICOMOS, além dos sindicatos dos arquitetos, engenheiros e o coletivo Ocupa MinC.
Protestos e mobilização popular
O movimento rapidamente tomou as ruas. No dia 20 de agosto de 2021, uma grande manifestação foi organizada em frente ao Palácio Gustavo Capanema, reunindo artistas, músicos, arquitetos, estudantes, militantes culturais e cidadãos comuns. Performances artísticas, apresentações musicais e intervenções urbanas denunciaram a tentativa de transformar o patrimônio público em mercadoria.
Apesar da pandemia, os organizadores conseguiram realizar um ato que respeitava os protocolos sanitários, mas que foi contundente em seu recado: “O Capanema é do povo, não está à venda!”.
O episódio também repercutiu internacionalmente. Organismos como o ICOMOS Internacional e entidades de preservação da arquitetura modernista em vários países manifestaram preocupação e apoio à resistência brasileira.
Caminho da preservação: articulações políticas
Fruto da pressão social, o debate chegou ao Congresso Nacional e à esfera estadual. André Ceciliano liderou uma proposta de aquisição conjunta do prédio pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro em parceria com o governo estadual, proposta que foi debatida amplamente, mas que esbarrou em entraves burocráticos e resistência do governo federal.
No entanto, com a mudança do governo em 2023 e a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (governo federal), houve uma mudança significativa na condução da política patrimonial. A nova gestão, por meio do Ministério da Cultura, retomou os investimentos e os processos de restauração e valorização do Palácio Gustavo Capanema, cancelando definitivamente sua inclusão no programa de desestatização.
Restauração e reabertura: um novo capítulo
As obras de restauro, que começaram ainda em meio às discussões de venda, foram concluídas ao longo de 2024, com financiamento do governo federal e apoio de entidades como o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A requalificação do prédio recuperou suas características originais, desde a fachada de brises, os painéis de azulejos de Portinari, até os jardins suspensos projetados por Burle Marx.
A partir desta terça-feira, 60% dos espaços do Palácio estão dedicados a exposições, mostras, atividades culturais, oficinas, apresentações e espaços de visitação pública gratuita, consolidando sua vocação como espaço de cultura, educação e cidadania.
Uma vitória da cultura
O Palácio Gustavo Capanema, mais uma vez, prova ser mais do que concreto, vidro e aço. É símbolo de resistência, memória e identidade cultural. Sua reabertura representa não só a preservação do patrimônio arquitetônico brasileiro, mas também a reafirmação do compromisso com a cultura, a democracia e os direitos coletivos.
Serviço – Visitação ao Palácio Gustavo Capanema
- Local: Rua da Imprensa, Centro – Rio de Janeiro (RJ)
- Horário: De terça a domingo, das 10h às 17h
- Entrada: Gratuita
- Programação: Exposições, visitas guiadas, oficinas e apresentações culturais permanentes.
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