O Chile, marcado por décadas de mobilizações sociais e disputas de memória no espaço público, viu emergir no início da década de 2010 um personagem improvável, mas que rapidamente atravessou fronteiras simbólicas e culturais: Negro Matapacos, um cão sem raça definida, de pelagem negra e lenço vermelho no pescoço. Muito mais que mascote de estudantes, ele se transformou em ícone popular de resistência. Entre 2011 e 2013, acompanhou marchas estudantis em Santiago, latiu contra os Carabineros, driblou jatos d’água e bombas de efeito moral. Mesmo após morrer em 26 de agosto de 2017, continua a ser lembrado como exemplo de lealdade, coragem e desafio à violência de Estado.
Embora fosse visto como “de rua”, o Negro Matapacos tinha lar e cuidados regulares. Em 2009, foi acolhido por María Campos, que vivia a poucas quadras da Universidade de Santiago (USACH). Era ela quem lhe oferecia abrigo, alimentação e os célebres lenços no pescoço. O vermelho se tornou a marca registrada, mas também usou azul e branco, adaptados conforme as marchas e o humor do dia.
Seu circuito cotidiano incluía não apenas a USACH, mas também a UTEM e a UCEN, universidades que serviam de epicentro para as mobilizações estudantis da época. A rotina fazia do Negro uma figura conhecida nos corredores, nas praças e nos confrontos — alguém capaz de transitar entre o espaço doméstico e o espaço público, entre a segurança de uma cama e o risco da linha de frente.
Em 2012, a revista The Clinic publicou um perfil que narrava suas manias — o gosto pelos lenços, a implicância com determinados carros e o instinto de se colocar ao lado dos manifestantes. Ali consolidou-se a imagem híbrida do cão: acolhido em casa, mas reconhecido nas ruas.
O nome e sua força simbólica
O apelido “Matapacos” resulta da junção de matar com paco — gíria chilena para policial. Não descrevia ataques letais, mas sim uma ironia popular diante de sua postura desafiadora. O cão rosnava, avançava e escoltava manifestantes frente às tropas, tornando-se presença simbólica nos confrontos com a polícia.
Essa atitude lhe garantiu uma aura imediata de carisma. Logo, sua imagem foi reproduzida em adesivos, cartazes, estênceis e pichações em muros, construindo um repertório visual que se tornaria recorrente em protestos de toda uma década.
Companheiro das marchas estudantis
Entre 2011 e 2013, durante a onda de mobilizações estudantis por educação gratuita e de qualidade, Matapacos se tornou símbolo de coragem na linha de frente. Relatos indicam que não raro enfrentou riscos concretos: foi atropelado por uma viatura, brigou com outro cão durante uma marcha na UTEM e precisou de cuidados veterinários. Essas experiências reforçaram ainda mais sua imagem de “companheiro de luta”, sempre pronto a regressar às ruas ao lado dos estudantes.
Documentário e mito popular
O curta “Matapaco”, exibido em dezembro de 2013, ajudou a consolidar sua figura como herói laico das mobilizações. Disponibilizado online, o filme correu o mundo e fortaleceu a imagem do cão de lenço como arquétipo de resistência. Nas redes sociais, fanpages e galerias digitais se multiplicaram, mantendo viva a memória do animal mesmo após o fim da onda estudantil.
A morte e o luto coletivo
Negro Matapacos morreu em 26 de agosto de 2017, em Santiago, de causas naturais. Estava cercado por seus cuidadores e acompanhado por veterinários. A comoção foi imediata: muros amanheceram grafitados, redes sociais foram inundadas de homenagens e até páginas internacionais compartilharam tributos. Circulou a versão de que teria deixado 32 filhotes, mas a informação jamais foi confirmada. O fato é que, ao morrer, Matapacos já havia transcendido a condição de cão e se tornado memória coletiva.
O retorno no estallido social de 2019
Dois anos depois, nas grandes manifestações de outubro e novembro de 2019, Matapacos renasceu como ícone. Sua imagem estampou cartazes, estênceis, memes e até altares improvisados nas ruas de Santiago.
Em 15 de novembro de 2019, o artista Marcel Solá ergueu uma escultura gigante do cão na Plaza de la Aviación. Feita com materiais reciclados recolhidos nos protestos, a obra foi atacada, queimada e, em seguida, transformada em jardim popular — coberta por flores e plantas. Longe de se extinguir, a intervenção foi reforçada com chapas de metal e acabou integrando o acervo do Museo del Estallido Social.
A disputa por memória: Plaza Dignidad
Em 18 de outubro de 2021, quando se completavam dois anos do estallido, manifestantes ocuparam o plinto vazio da estátua do general Baquedano, na Plaza Dignidad, com uma escultura de Matapacos. O gesto simbolizou a reversão de símbolos de poder: no lugar de um general do Exército, um cão mestiço, ícone de lealdade popular.
Reconhecimento internacional
A força de Matapacos não ficou restrita ao Chile. Em novembro de 2019, a estátua de Hachikō, em Tóquio, e a de Balto, no Central Park em Nova York, amanheceram com lenços vermelhos, em homenagem ao cão chileno. Na mesma época, adesivos de Matapacos saltando catracas foram colados em estações do metrô nova-iorquino, em protestos por tarifa zero. Era a tradução imediata de um repertório latino-americano para outras geografias urbanas.
Skorno: Do Chile para a Baixada Fluminense
A história do cão também atravessou a Cordilheira dos Andes e chegou à Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro. Em 2022, a banda Skorno, de Belford Roxo, lançou a música “Matapacos”. Cantada em espanhol e em primeira pessoa, a letra encarna a voz do cão e reafirma sua ética de luta: “por mi gente, por mi vida” e “por futuro, por justicia”. A música rapidamente entrou para o setlist fixo da banda.
Assim, o mito de Matapacos ganhou um novo registro cultural, aproximando o repertório chileno da realidade da periferia fluminense e mostrando como símbolos de resistência transbordam fronteiras.
Quiltro: identidade mestiça e popular
No Chile, “quiltro” é a palavra para designar cães sem raça definida. Mas o termo carrega mais do que classificação: é metáfora da mestiçagem, do povo comum e da resistência cotidiana. Por isso, a imagem de Matapacos não é apenas canina, mas também política e identitária — um reflexo de uma sociedade que vê no mestiço a força de sua história.
Linha do tempo essencial
- 2009 — María Campos acolhe o Negro; os lenços tornam-se marca.
- 2011–2013 — Presença constante nas marchas estudantis (USACH/UTEM/UCEN).
- Dez/2013 — Lançamento do documentário Matapaco.
- 26/08/2017 — Morte por causas naturais em Santiago.
- 15–27/11/2019 — Escultura de Marcel Solá é instalada, atacada, queimada, “jardinada” e posteriormente musealizada.
- 18/10/2021 — Estátua de Matapacos ocupa o plinto da Plaza Dignidad.
- 2022 — Skorno lança o álbum Nascido e Criado, com a faixa “Matapacos”.
- Serviço — para ouvir e aprofundar
- Skorno — “Matapacos” (streaming).
- Skorno — “Nascido e Criado” (álbum completo).
- Documentário Matapaco (2013) — registro audiovisual do cão das marchas.
- Museo del Estallido Social — acervo sobre escultura e memória popular.
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