O estado do Rio de Janeiro registrou 6.331 pessoas desaparecidas em 2025, segundo dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp). A taxa foi de 36,76 desaparecimentos a cada 100 mil habitantes, acima da média nacional, que ficou em 39 por 100 mil.
O número reforça uma tendência nacional de alta nos desaparecimentos, que atingiram um recorde de 84.802 casos no Brasil no último ano — o maior já registrado desde o início da série histórica, em 2015.
Crianças e jovens estão entre os mais afetados
Dos mais de 84 mil casos no país, 23.919 envolveram crianças e adolescentes. Isso representa uma média de 66 menores desaparecidos por dia. O Rio também segue essa tendência, com registros crescentes de desaparecimentos de jovens nas regiões periféricas da capital e em municípios da Baixada Fluminense.
Segundo especialistas, a vulnerabilidade social, a violência doméstica e a falta de acesso a políticas públicas são fatores que contribuem para esse cenário. Além disso, muitas famílias enfrentam dificuldades para registrar os casos e obter apoio efetivo das autoridades.
Falta de estrutura e integração prejudica buscas
Embora o Brasil tenha instituído a Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas pela Lei 13.812/2019, a aplicação da norma no Rio de Janeiro ainda é parcial. O estado não conta com um banco de dados atualizado e unificado, o que dificulta o cruzamento de informações e a localização de pessoas desaparecidas.
A coordenadora de Políticas sobre Pessoas Desaparecidas do Ministério da Justiça, Iara Buoro Sennes, destaca que muitos registros de localização não são atualizados pelas famílias ou pelas delegacias, o que gera distorções nas estatísticas.
“Temos dificuldade em obter clareza sobre os motivos dos desaparecimentos, justamente porque o sistema ainda não é padronizado nem totalmente integrado”, explica Iara.
Casos que mobilizam a sociedade
Recentemente, o desaparecimento dos irmãos Ágatha Isabelly (6 anos) e Allan Michael (4 anos), no Maranhão, reacendeu o debate nacional. O caso, embora fora do Rio, evidencia a importância de ações emergenciais como o protocolo Alerta Amber — ainda pouco acionado no estado fluminense.
Segundo levantamento da ONG Instituto Fênix, especializada no apoio a famílias de desaparecidos, a maioria dos casos no Rio envolve jovens negros, moradores de favelas ou comunidades com forte presença de forças de segurança.
A ausência de protocolos específicos para buscas imediatas, além da escassez de recursos humanos e tecnológicos, compromete a efetividade das investigações.
O que diz a lei
A Lei 13.812/2019 define como desaparecida toda pessoa cujo paradeiro seja desconhecido, independentemente da causa. A norma prevê a criação de um cadastro nacional, busca ativa pelas forças de segurança e integração entre estados, Ministério Público e Judiciário.
Apesar disso, muitas das diretrizes seguem fora do papel. No Rio, famílias relatam que ainda enfrentam resistência ao tentar registrar ocorrências, especialmente no caso de adultos ou pessoas em situação de rua.
Caminhos para mudar o cenário
Para especialistas e movimentos sociais, é urgente investir em um sistema estadual integrado de notificações, agilizar o uso do Alerta Amber, promover campanhas públicas e capacitar as delegacias para atendimento humanizado. A sociedade civil, por sua vez, cobra do governo estadual maior transparência e dados atualizados sobre os desfechos dos casos.
Programa Acolher da ComCausa
A ComCausa realiza, de forma sistemática, duas frentes estruturantes do seu trabalho: Acolher: Desaparecidos e Acolher: Memória e Justiça — com continuidade, calendário e presença territorial.
A ação é organizada a partir de encontros periódicos com familiares, em rodas de conversa e espaços de escuta qualificada, fortalecendo vínculos, oferecendo orientação e apoio, e construindo encaminhamentos práticos junto à rede de proteção e às instituições responsáveis.
As iniciativas integram a trajetória do Programa Acolher, que reúne acolhimento, suporte e articulação institucional, além de promover a memória coletiva e a busca por verdade e justiça para famílias atingidas pela violência e pelos desaparecimentos.
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