Dia Internacional de Conscientização sobre Perdas e Desperdícios de Alimentos chama atenção para o aproveitamento dos alimentos, a redução da fome e a construção de sistemas alimentares mais sustentáveis; ComCausa, CAIS e Portal C3 promovem conteúdos e mobilização comunitária sobre o tema
Celebrado em 29 de setembro, o Dia Internacional de Conscientização sobre Perdas e Desperdícios de Alimentos chama atenção para um problema que envolve, ao mesmo tempo, alimentação, meio ambiente, economia, produção, consumo e garantia de direitos.
A data foi instituída pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 2019 e é promovida internacionalmente com participação da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA).
Em 2026, acontece a sétima celebração internacional da data. A FAO definiu como foco o “potencial transformador da redução das perdas e do desperdício de alimentos”, destacando que enfrentar o problema pode contribuir simultaneamente para melhorar a segurança alimentar e nutricional, reduzir a pressão sobre os recursos naturais e as emissões de gases de efeito estufa e ampliar produtividade e desenvolvimento econômico.
Para marcar a data, a ComCausa – Defesa da Vida, o CAIS ComCausa e o Portal C3 promovem uma mobilização de comunicação e conscientização relacionando o combate ao desperdício à segurança alimentar, ao enfrentamento da fome e às possibilidades de organização comunitária e economia solidária.
Perder e desperdiçar alimentos não são exatamente a mesma coisa
Embora os dois termos muitas vezes apareçam juntos, eles identificam etapas diferentes do problema.
A legislação brasileira considera perda de alimentos a redução da disponibilidade de alimentos destinados ao consumo humano ao longo da cadeia de abastecimento, especialmente durante produção, pós-colheita e processamento. Já o desperdício acontece principalmente nas etapas finais, como varejo, serviços de alimentação e consumo doméstico.
Essa diferenciação foi incorporada à Política Nacional de Combate à Perda e ao Desperdício de Alimentos, instituída pela Lei nº 15.224, de 30 de setembro de 2025. A política busca aumentar o aproveitamento dos alimentos disponíveis para consumo humano e relaciona diretamente essa agenda ao enfrentamento da insegurança alimentar.
O problema possui dimensão mundial. Segundo dados apresentados pelas Nações Unidas, cerca de 13,2% dos alimentos produzidos globalmente são perdidos entre a colheita e o varejo. Além disso, aproximadamente 19% da produção global de alimentos é desperdiçada em residências, serviços de alimentação e estabelecimentos varejistas.
São alimentos produzidos utilizando terra, água, energia, trabalho, transporte e recursos financeiros que deixam de cumprir sua finalidade principal: alimentar pessoas.
Segurança alimentar vai além de ter comida disponível
O combate ao desperdício se relaciona diretamente à segurança alimentar, mas a existência de alimentos disponíveis, por si só, não significa que todas as pessoas tenham acesso a eles.
No Brasil, a Lei Orgânica de Segurança Alimentar e Nutricional define segurança alimentar como a realização do direito de todas as pessoas ao acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer outras necessidades essenciais e com práticas alimentares social, econômica, cultural e ambientalmente sustentáveis.
Isso significa que enfrentar a fome também envolve renda, abastecimento, produção, distribuição, políticas públicas, acesso à alimentação adequada e redução das desigualdades.
Em 2026, o Brasil permanece fora do chamado Mapa da Fome da ONU. O relatório sobre o Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo de 2026 apontou que, no triênio 2023–2025, a prevalência de subnutrição no país permaneceu abaixo de 2,5%, limite utilizado pela FAO para inclusão no Mapa da Fome. A permanência fora do indicador, entretanto, não significa que a fome e a insegurança alimentar tenham sido eliminadas do país ou que todos os grupos sociais vivenciem a mesma realidade.
Aproveitamento de alimentos também começa no cotidiano
Parte do desperdício pode ser evitada com mudanças relativamente simples na forma de comprar, armazenar, preparar e consumir alimentos.
Planejar refeições antes das compras, observar corretamente os prazos de validade, armazenar os produtos de forma adequada, aproveitar sobras em novas preparações e evitar compras em quantidade maior do que a necessária são algumas das medidas recomendadas pela FAO para reduzir o desperdício doméstico.
A conscientização também precisa alcançar restaurantes, feiras, mercados, produtores, distribuidores e instituições públicas e privadas. Em cada etapa da cadeia alimentar existem possibilidades diferentes de prevenir perdas, ampliar o aproveitamento e melhorar a destinação dos alimentos próprios para consumo.
Doação responsável, bancos de alimentos, cozinhas solidárias, agricultura familiar, educação alimentar e ações comunitárias podem fazer parte dessa rede, desde que observadas as condições sanitárias e de segurança necessárias.
Economia solidária e desenvolvimento dos territórios
A discussão também se aproxima da economia solidária, especialmente quando o objetivo é pensar soluções construídas coletivamente nos territórios.
Desde dezembro de 2024, o Brasil conta com a Política Nacional de Economia Solidária, instituída pela Lei nº 15.068. A legislação reconhece iniciativas organizadas a partir de princípios como autogestão, cooperação, comércio justo e solidário, consumo responsável, desenvolvimento local sustentável e distribuição equitativa das riquezas produzidas coletivamente.
Cooperativas, associações, empreendimentos comunitários, agricultura familiar, redes locais de produção e comercialização e outras formas de trabalho coletivo podem contribuir para aproximar produtores e consumidores, fortalecer circuitos locais de alimentos e gerar trabalho e renda.
A Política Nacional de Economia Solidária também estabelece como um de seus eixos o fomento à comercialização, ao comércio justo e solidário e ao consumo responsável, reforçando a possibilidade de articulação dessa agenda com iniciativas de alimentação, desenvolvimento comunitário e sustentabilidade.
Uma responsabilidade compartilhada
Reduzir perdas e desperdícios não é responsabilidade apenas do consumidor.
O enfrentamento exige atuação articulada entre governos, setor produtivo, produtores rurais, redes de distribuição, estabelecimentos comerciais, restaurantes, organizações da sociedade civil, universidades, comunidades e consumidores.
No Brasil, a Política Nacional de Combate à Perda e ao Desperdício de Alimentos prevê justamente uma abordagem que envolve diferentes etapas da cadeia, além de medidas relacionadas à doação e ao aproveitamento dos alimentos.
A questão também integra os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas. A meta 12.3 do ODS 12 estabelece o compromisso internacional de, até 2030, reduzir pela metade o desperdício de alimentos per capita nos níveis de varejo e consumo e diminuir as perdas ao longo das cadeias de produção e abastecimento.
Informação, mobilização e participação comunitária
Ao longo da mobilização de 29 de setembro, a ComCausa, o CAIS ComCausa e o Portal C3 relacionam a conscientização sobre perdas e desperdício de alimentos a uma agenda mais ampla de direito à alimentação, segurança alimentar, combate à fome, sustentabilidade e economia solidária.
A proposta é transformar informação em práticas possíveis dentro das casas, comunidades e territórios, estimulando uma relação mais consciente com os alimentos e fortalecendo iniciativas que ampliem o acesso à alimentação adequada.
Combater o desperdício não substitui políticas estruturais de enfrentamento à pobreza e à fome. Mas evitar perdas, melhorar a distribuição, fortalecer redes comunitárias, incentivar formas solidárias de produção e consumo e ampliar o acesso à informação são ações que podem caminhar juntas.
O Dia Internacional de Conscientização sobre Perdas e Desperdícios de Alimentos, em 29 de setembro, reforça justamente essa responsabilidade coletiva: valorizar os alimentos significa também valorizar os recursos utilizados para produzi-los, o trabalho envolvido em toda a cadeia e o direito de todas as pessoas a uma alimentação adequada.
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