Procrastinação em jovens universitários durante a pandemia

O que é psicometria?

De acordo com Hutz et. al (2015), historicamente, a Psicometria criou suas raízes em meadosdo século XX com pesquisas realizadas nos Estados Unidos e Inglaterra com embasamentos empíricos e estudos sobre o comportamento humano, com isso, em Leipzig, na Alemanha, também havia estudos sobre o sistema sensorial. Os estudos sobre a Psicometria tiveram um grande avanço no período da Segunda Guerra Mundial, como por exemplo, estudos de Personalidade, Psicomotor e o uso metódico de testes psicológicos.

De acordo com Cunha e Martins (2016), a Psicometria é uma ciência responsável por estudar e mensurar fenômenos mentais de forma quantitativa através de testes, questionários e escalas. É uma área complexa da psicologia que realiza medidas psicométricas para avaliações de determinados constructos.

A Psicometria possui duas dimensões para o processo da aplicação dos instrumentos, a Teoria de Resposta ao Item (TRI) e Teoria Clássica dos Testes (TCT). Na Teoria Clássica dos Testes se fundamentaram a maioria dos métodos operacionais utilizados para avaliar as duas principais propriedades psicométricas dos instrumentos: a validade e a confiabilidade. A validade de um instrumento pode ser definida como sua capacidade de realmente medir aquilo a que se propõe a medir. A validade de construto, mais especificamente, se refere à capacidade do instrumento de efetivamente medir um conceito teórico específico, o construto, seja este um processo psicológico ou uma característica dos indivíduos. Tendo como objetivo fundamental o resultado total obtido por determinada pessoa em um teste. A Teoria de Resposta ao Item visa superar as limitações da teoria clássica, propondo o uso de escalas mais curtas que seriam tão confiáveis quanto as longas, se não mais. Tem como objetivo avaliar os constructos fazendo-se uso da matemática probabilística. A principal dessemelhança entre esses instrumentos é que na Teoria Clássica dos Testes, leva em consideração a soma total do instrumento de coleta de dados, logo a Teoria de Resposta ao Item analisa cada questão abordada e com isso, realiza o cálculo final.

Segundo Schlindwein-Zanini e Cruz (2019), a medida é uma linguagem matemática que tem como objetivo numerar fenômenos psicológicos. Para realizar uma medição adequada, é necessário ter base empírica e conhecimento complacente, em outras palavras, para que sua pesquisa seja de forma qualificada, será necessário possuir confiabilidade e validade. Confiabilidade determina a variação do instrumento, logo a validade seria responsável pela qualidade do material que pretende medir constructo.

Técnicas de avaliações psicológicas

De acordo com Hutz (2015, p. 3), a avaliação psicológica é um processo, geralmente complexo, que tem por objetivo produzir hipóteses, ou diagnósticos, sobre uma pessoa ou um grupo. Essas hipóteses ou diagnósticos podem ser sobre o funcionamento intelectual, sobre as características da personalidade, sobre a aptidão para desempenhar uma ou um conjunto de tarefas, entre outras possibilidades (…) Testagens em larga escala começaram a ser usadas na China, há mais de 2.200 anos, durante a dinastia Han (206 a.C.), quando se iniciou um sistema imperial de seleção (Bowman, 1989), mas foi efetivamente no fim do século XIX, na França, que a testagem psicológica moderna começou. A avaliação psicológica engloba várias interfaces – como as entrevistas, resultados dos instrumentos e a observação.

Várias técnicas foram desenvolvidas e têm sido utilizadas de forma sistemática, especialmente por psicólogos clínicos e por pesquisadores, tendo produzido váriosestudos, alguns inclusive envolvendo questões referentes a sua validade e fidedignidade. O número de técnicas disponíveis é grande e para as mais variadas finalidades. (Hutz et. al, 2015).

Interseção entre a procrastinação e a psicometria

Esse projeto visa correlacionar a psicometria e procrastinação em jovens universitários. Visto que a procrastinação no período acadêmico pode ocasionar diversas consequências negativas, tais como: dificuldades de aprendizagem, falta de motivação no meio acadêmico, dificuldades físicas e psicológicas. Com isso, iremos utilizar um instrumento de escala de procrastinação ativa (EPA), que possui bases psicométricas para realizar a medição do nível de procrastinação.

Procrastinação acadêmica

A procrastinação define-se como o ato de postergar ou atrasar algo, segundo Schouwenburg (1995), a procrastinação acadêmica é o adiamento de tarefas relacionadas à universidade que não são realizadas durante o tempo esperado ou são deixadas para o último minuto.

Na área da educação, a procrastinação remete ao ato de adiar o começo ou a concluir o curso, ações e escolhas direcionadas ao estudo (SCHOUWENBURG, 2004). Está ligado a prorrogar as tarefas, como por exemplo, entregar um trabalho ou ler um texto obrigatório. Ainda há outros hábitos que podem ser correlacionados regularmente com a procrastinação, o nãocomparecimento em eventos acadêmicos, a não-assiduidade nas aulas e/ou os atrasos frequentes (Beswick, Rothblum & Mann, 1988).

As pesquisas que entendem a procrastinação como um traço da personalidade, isto é, uma inclinação de demonstrar um padrão nos mais diversos acontecimentos (Schouwenburg, 2004), vão definir como uma predisposição em protelar o que se precisa para chegar em um propósito o traço de procrastinar (Lay & Brokenshire, 1997).

É comum que esses seguimentos de estudos façam uma ligação entre a procrastinação com o modelo teórico dos Cincos Grandes Fatores, ou Big Five, que tem como objetivo examinar a personalidade com base em cinco fatores independentes, que são: neuroticismo, extroversão, franqueza, afabilidade e consciência (Lay & Brokenshire, 1997; Schouwenburg, 2004; Steel 2007; Somers, 2008).

Considera-se que o ato de procrastinar é um erro na maneira com que se habitua a lidar com os estudos, já que o próprio aluno deveria se monitorar em sua metodologia de aprendizagem em comportamentos meta cognitivos, motivações e condutas (Zimmerman, 2001).

Considera-se que a procrastinação acadêmica ocorra com até 95% dos universitários (O’Brien, 2002), separados por uma sinuosidade na população universitário (McCown, Johnson & Petzel, 1989). No Brasil 65% dos universitários procrastinavam suas atividades acadêmicas ao menos uma vez por semana (Sampaio, 2011). Há evidências também de que cerca de 50% dos universitários procrastinam de modo problemático, gerando desconforto psicológico e prejuízos acadêmicos (Solomon & Rothblum, 1984).

Escala de procrastinação Acadêmica (EPA)

A escala citada acima foi estruturada por Busko no ano de 1998, e teve sua tradução feita por dois professores fluentes na língua portuguesa e espanhola, sendo assim seu título escala de
procrastinação (EPA).

A escala de procrastinação acadêmica possui doze perguntas e é dividida em duas partes: prorrogação das atividades contendo três indagações e autorregulação no meio acadêmico mais 9 questionamentos. Sendo assim as respostas resultará em uma sequência comportamental que são praticados em uma escala de formato de respostas psicométricas, com isso variando entre 1(nunca) e 5 (sempre) (Dominguez-Lara, 2016a; Dominguez-Lara et al., 2014). Segue as perguntas abaixo:

Escala procrastinação Acadêmica (EPA).

A Escala de procrastinação acadêmica (EPA) foi elaborada com o intuito de ponderar a procrastinação quando referido ao assunto avaliativos individuais e grupal no meio acadêmico. Todavia, esse mecanismo não é de caráter avaliativo quando se trata da percepção do ser, sobre o desconforto que causado pela sua ação nem as possíveis consequências negativas do seu comportamento de adiamento de tarefas.

Tem como ideia a construção de um mecanismo avaliatório da percepção dos estudantes universitários sobre possíveis consequências negativas da procrastinação acadêmica. Notar os efeitos negativos de uma ação é o primeiro passo para que ele possa ser modificado. Assim, o mecanismo visa não somente mensurar as consequências negativas da procrastinação, mas também levar o indivíduo a sintetizar uma reflexão sobre o seu comportamento procrastinatório.

Autorregulação

Albert Bandura (1978) definiu autorregulação como a habilidade do ser humano de autorregular seu comportamento. A autorregulação segundo Bandura é subdividida em três aspectos: processo de auto-observação, julgamento e autorreação. (Bandura, 1978, 1996; Polydoro & Azzi, 2009; Zimmerman & Schunk, 2011).

A auto-observação está relacionada à autoimagem do indivíduo com seu desempenho realizado durante a atividade, como atenção e agilidade. O procedimento de julgamento é responsável pela autocrítica do desempenho realizado em relação às metas propostas e valores do indivíduo, como normas da sociedade e comparações externas. A autorreação é referente às respostas emocionais e cognitivas, podendo ser positivas ou negativas, por exemplo, autopunição, gratificação, encorajamento, entre outros. (Bandura, 2003; Polydoro & Azzi, 2009; Zimmerman & Schunk, 2011).

Após os estudos de Bandura, outros pesquisadores se aprofundaram em pesquisas relacionadas a autorregulação, mas somente na década de 1980 as pesquisas foram meu ritmo de estudo. Eu tento me motivar a manter meu ritmo de estudo Aproveito para rever minhas atribuições antes de enviá-las. intensificas, principalmente no contexto educacional devido a intensa busca de respostas dos pesquisadores em como tornar alunos em estudiosos autônomos, capazes de controlar o próprio processo de aprendizagem (Panadero & Alonso-Tapia, 2014; Zimmerman & Schunk, 2011).

Ser autorregulado não é uma qualidade inata do indivíduo, mas, na verdade, é uma habilidade que se adquire ao longo da vida a partir de suas próprias experiências, do ensinamento de outras pessoas e da interferência do ambiente em que se está inserido (Grau & Whitebread, 2012;Volet, Vauras & Salonen, 2009).

A autorregulação é compreendida como um processo de controle e monitoramento pessoal que envolve técnicas de autorreflexão e autocontrole (Zimmerman & Schunk, 2011). Esse constructo pode ser divido em três níveis: Pré-ação, ação e pós-ação. Dessa forma, a fase de antecipação (pré-ação) está responsável em pontuar os principais objetivos e realizar a automotivação, a fase da ação é a etapa que o indivíduo irá realizar seu desempenho na atividade aplicando estratégias para melhor rendimento acadêmico, o processo de pós-ação é referente a métodos aplicados após a realização do estudo ou tarefa que induzem e regulam a motivação (Zimmerman, 2000).

De acordo com Zimmerman (2000), ressalta-se que a autorregulação não é um fenômeno estático e inalterável que precisa ser seguido em sequência, o estudante pode se organizar de acordo com a sua regulação para alcançar melhores resultados. Entretanto, mesmo aplicando autorregulação em suas ações, haverá situações que a autorregulação estará instável devido cansaço corporal ou falta de interesse.

De acordo com a literatura, pessoas que são autorreguladas adquirem melhor desempenho no trabalho e rendimento acadêmico (Panadero, Klug & Järvelä, 2015; Schunk & Zimmerman, 2008).

O uso de estratégias favoráveis ou desfavoráveis à aprendizagem está diretamente relacionado à motivação e às crenças dos alunos acerca de sua capacidade para aprender, revelando a importância da dimensão motivacional da autorregulação (Weiner, 2010; Wolters & Benzon, 2013).

Para alcançar o autorregulamento, é necessário aplicar estratégias que favorecem o desempenho, como entregar trabalhos no prazo estipulado e motivação ao realizar alguma atividade, entretanto, existem determinadas estratégias que podem ser prejudiciais (Ganda & Boruchovitch, 2015; Ferradás et al., 2017). Essas estratégias auto prejudiciais estão relacionadas às verbalizações de culpas externas por um determinado fracasso ou comportamentos desalinhados durante o processo de construção da tarefa. Esses comportamentos prejudiciais não são limitados à externalização da culpa e falta de comprometimento, entretanto, engloba as ações de abuso de álcool e drogas, desinteresse em participar das atividades – e procrastinação, sendo práticas comuns em estudantes universitários (Brown, Park & Folger, 2012; Uysal & Knee, 2012).

A autorregulação e a procrastinação acadêmica

No decorrer dos anos, o conceito de autorregulação idealizado por Zimmerman (1998) contribuiu para os estudos de Rosário (2004) que definiu esse constructo como um processo ativo que o acadêmico monitora e controla suas ações, motivações e condutas para conquistar as metas estabelecidas (ROSÁRIO, 2004b). De acordo com Rosário, a autorregulação é dividida em três aspectos: planejamento, execução e avaliação. Durante a fase de planejamento, o estudante precisa realizar a análise da atividade idealizada, recursos pessoais e o espaço. A execução refere-se a um plano de estratégias visando a conclusão da tarefa. Por fim, o acadêmico precisa realizar o automonitoramento para verificar o desempenho. Ao longo da autoavaliação, ocorre a verificação da meta proposta e seu resultado do desempenho, sendo uma tática fundamental parar corrigir possíveis erros cometidos (ROSÁRIO et al., 2005; Rosário, 2004b).

Ao realizar o planejamento, o estudante além de efetuar a atividade, também cumpre e realiza a autoavaliação ao mesmo tempo (ROSÁRIO, 2004b, 2007). Essa ação foi denominada como PLEA (Planejamento, Execução e Avaliação). De acordo com Rosário, a autorregulação não precisa ser seguida em sequência, é um constructo interativo que durante as fases realizam funções operacionais, contribuindo para todo o processo proposto (ROSÁRIO, 2004b, 2007; ROSÁRIO et al, 2007).

Entretanto, se a execução da autorregulação for realizada de maneira inadequada, poderá resultar em prejuízos nas tarefas, podendo resultar em procrastinação (ZIMMERMAN, 1998). Durante a vida acadêmica, muitos estudantes sofrem com o impacto da transição de ensino médio com o ensino superior, resultando em procrastinação acadêmica (SCHOUWENBURG, 2004). Devido ao alto nível de materiais de estudos, apresentações e projetos, muitos estudantes sentem dificuldades em apresentar as atividades dentro do prazo, prejudicando a autorregulação da aprendizagem (SCHRAW, WADKINS; OLAFSON, 2007; STEEL, 2007; SCHOUWENBURG, 2004). Com isso, podemos compreender que a procrastinação é um constructo complexo que envolve fenômenos comportamentais, pessoais e o meio, que pode ser definido como o atraso da ação ou a não realização da atividade (MONTEIRO, 2009; COSTA, 2007; SCHOUWENBURG, 2004).

De acordo a literatura, o acadêmico procrastinador possui dificuldade de realizar as estratégias reguladoras, podendo ser de origem relacionada a cognição ou metacognição (VAN EERDE, 2003; WOLTERS, 2003; FERRARI, 2001). Acadêmicos procrastinadores raramente conseguem resistir aos devaneios, é comum ocorrer a substituição da realização da tarefa por atividades de lazer, como a utilização de redes sociais, passear, assistir programas televisivos, dentre outros (KLASSEN; KUZUCU, 2009; KLASSEN, KRAWCHUK; RAJANI, 2008).

Contudo, também no âmbito internacional, as pesquisas sobre a procrastinação acadêmica começaram em torno da década de 1980, e por isso, ainda atualmente, há estudos relacionados às causas da procrastinação acadêmica, onde alguns fazem correlações com aspectos cognitivos ou pessoais, como crenças de fracasso, perfeccionismo, e outros com aspectos ambientais, como características da tarefa e a dinâmica familiar (SAMPAIO, 2011; BRITO; BAKOS, 2013; FORTES; BARBOSA, 2018).

Conclui-se que estudos indicam uma associação negativa e contáveis entre a autorregulação e a procrastinação no meio acadêmico. Entretanto, referido a dimensão psicológica em que o indivíduo autorregula sua aprendizagem com máxima eficácia, inclina-se a procrastinar menos e vice-versa (MONTEIRO, 2009; ROSÁRIO et al., 2009; COSTA, 2007). Há vestígios que o estudante que procrastina dispõe de estorvo em acerca de práticas autorregulatórias no âmbito da aprendizagem, compreendendo que podem ser de feitio cognitivo ou metacognitivo (VAN EERDE, 2003; WOLTERS, 2003; FERRARI, 2001), expondo, uma adversidade administrativa no conceito de gestão de tempo.

Ademais, universitários procrastinadores propendem a ter facilidade a distrações, sendo mais tendentes a suceder a execução atividades acadêmicas por meios mais atraentes e que oferecem retorno satisfatório imediato. (KLASSEN; KUZUCU, 2009; KLASSEN, KRAWCHUK; RAJANI, 2008).

Salienta-se que o desenvolvimento da autorregulação não ocorre por meio de uma sequência estática e imutável de quatro estágios. Assume-se que à medida que o estudante vai alcançando níveis mais complexos no que tange à sua regulação, ele irá aprender mais e de forma mais efetiva. Todavia, mesmo atingindo o nível autorregulatório, o estudante pode não agir de forma autorregulada por questões contextuais, como cansaço, desinteresse ou falta de comprometimento (Zimmerman, 2000).

Por fim, não é hegemônico que todos os acadêmicos que recebem o mesmo material irão obter o desenvolvimento regulatório igualitário.

Por exemplo, na comparação entre novatos e veteranos na prática esportiva, os novatos apresentam dificuldades em reforçar os aspectos motivacionais, levando-os a agirem mais de forma reativa do que proativa frente aos acontecimentos. Sendo assim, podem falhar ao estabelecer objetivos e monitorar o processo de desempenho. Por outro lado, os veteranos demonstram maiores níveis de motivação e estabelecimento de objetivos, com o encadeamento de objetivos proximais e distais, monitoram o alcance das metas e ajustam o andamento das atividades, caso necessário (Cleary & Zimmerman, 2001).

Prorrogação das atividades

A prática de prorrogar atividades está presente no cotidiano de diversas pessoas mundialmente. De acordo com Potts (1987), a prática de adiar compromissos está presente em cerca de 90% da população mundial, sendo 20% adultos e 40% são estudantes universitários.

O comportamento de adiar tarefas está presente no nosso cotidiano e por diversas vezes protelamos alguma atividade em detrimento de outra mais simples e/ou mais agradável de ser executada. No que se refere às questões acadêmicas não é diferente, sendo também bastante comum discentes procrastinarem leitura de textos e entrega de trabalhos. (SAMPAIO & BARIANI, 2011).

De acordo com Schouwenburg (2005), a ação de prorrogar tarefas é distinto de procrastinação. A prorrogação não representa um efeito negativo se for realizado de maneira planejada, entretanto, se é realizado posteriormente, podendo resultando em atrasos, essa ação é classificada como procrastinação.

É comum no âmbito acadêmico a prática de adiamento de atividades, os estudantes ao ingressarem na universidade passam por um processo de autorreconhecimento e adaptação dentro desse meio. Durante esse processo muitos estudantes se sentem pressionados em relação aos materiais de estudos e trabalhos extensos. Em uma pesquisa de campo realizada no Rio Grande do Sul em 2018 foi realizado uma coleta de dados em relação a procrastinação dos estudantes de uma universidade local. De acordo com a coleta, foi comprovado que o a maioria dos estudantes optavam por adiar estudar e realizar os trabalhos porque se sentiam desmotivados devido ao excesso de conteúdo. De acordo com Enumo e Kerbauy (1999), a prática de acumulação e adiamento de atividades é uma das causas mais frequentes que conduzem para a procrastinação. No decorrer dessa prática, é comum ocorrer sentimentos de nervosismo e culpa.

De acordo com a literatura, é comum os indivíduos que adiam as tarefas usarem uma padronização de pretextos, como não ter disponibilidade para efetuar a atividade, desgosto com a atividade e desânimo (Bariani e Sampaio, 2011).

Segundo Hamazaki e Kerbauy (2001), nas pesquisas com estudantes sobre vida cotidiana são comuns relatos de sentimentos aversivos diante do atraso dessas atividades. Não é simplesmente o adiamento de uma atividade em detrimento de outra com menor custo de resposta e mais reforçadora, acontece também que o indivíduo sofre diante do fato de não conseguir identificar as contingências que o ajudariam a mudar esse repertório comportamental e o fato da classe comportamental procrastinar assumir função aversiva (KERBAUY e COLS., 1993/1997; STRONGMAN e BURT, 2000).

É necessário compreender a adiamento de atividades para evitar que se torne uma procrastinação. De acordo com as pesquisas, podemos afirmar que o acúmulo de exercícios acadêmicos representa um dos principais fatores para a prorrogação da atividade. Fatores como demandas pessoais e acadêmicas configuram esse comportamento resultando em baixa produtividade, podendo gerar uma procrastinação (SELIGMAN, 1975; SMILEY; DWECK, 1994; COVINGTON, 2003; SCHWARTZ, 2013).

Procrastinação e o adiamento de atividades

A procrastinação é o fenômeno de adiar atividades pessoais e acadêmicas resultando na perda do prazo. Existe uma diferença entre procrastinação e adiar tarefas, o comportamento de procrastinação está relacionado a desorganização e falta de motivações para realizar a entrega no prazo estipulado, logo a ação de adiar tarefas não necessariamente é procrastinar, o sujeito pode determinar atrasar alguns dias para realizar a atividade sem necessariamente perder o prazo, em outras palavras, ocorreu a organização de tempo (Schouwenburg 2005).

Segundo Wolters (2003), o universitário define realizar as atribuições por virtude de afinidade, pois tem a convicção que vão realizar um trabalho acadêmico com mais precisão. Sendo assim, quando o aluno estiver realizando estudos sobre assuntos relacionados a disciplina que ele tem afeição, ficará aguçado a estudar e a aprendera mais do que se fosse em outra matéria. A fim de ajudar o aluno a progredir sem dificuldades e agindo naturalmente, pois quando ele rompe a primeira e mais longa etapa, a continuação do desenvolvimento acontece de forma contínua. Sendo assim o adiamento das tarefas presume o interesse do aluno para cada assunto que for estudado.

Em uma pesquisa que aborda a procrastinação acadêmica, possuindo como base as principais fontes de artigos científicos (SCIELO, LILACS, Biblioteca Virtual de Saúde, PePSIC, IndexPSI, MedLine Banco de Teses da CAPES e Portal de Periódicos da CAPES), foram coletadas 19 publicações de artigos em português. Essas pesquisas correlacionavam a procrastinação em distintas áreas, como psicologia, economia, ciências contáveis, educação e entre outros. Ao analisar a pesquisa realizada em inglês com o tema “academic procrastination” no site PsycInfo, foram concluídas 626 pesquisas. A procrastinação faz com que os acadêmicos prorroguem suas tarefas acadêmicas, negligenciando suas tarefas e compromissos. Contudo, pesquisas realizadas sobre esse constructo ainda são escassas no Brasil com o objetivo de aferir níveis de procrastinação. (Solomon & Rothblum, 1984), Tuckman Procrastination Scale (Tuckman, 1991) e Pure Procrastination Scale (Steel, 2010).

Implementação da escala de procrastinação acadêmica (EPA) nas universidades Participantes

Foram selecionados 400 estudantes universitários do Estado do Rio de Janeiro, sendo 60%estudantes de universidades privadas e 40% de universidades públicas que cursavam psicologia (67%), estudantes de pedagogia (10%) e foi convocado (13%) de estudantes de outras áreas de ciências humanas. Podemos afirmar que 70% dessa amostra eram mulheres e 30% eram homens, sendo 60% dos entrevistados eram solteiros, 40% residiam com cônjuge (27%) e relatavam possuir alguma religiosidade (28%).

Instrumento

Será aplicado a Escala de Procrastinação Acadêmica (EPA), instrumento de coleta de medidas psicométricas que foi estruturada por Busko em 1998, e desenvolvida pelo teórico McCloskey (2011). A escala possui como finalidade analisar as práticas do estudante universitário utilizando um questionário de 12 perguntas para avaliar os níveis de autorregulação e adiamento de atividades. A implementação da escala será realizada em universidades públicas e privadas do Rio de Janeiro em estudantes de diferentes períodos da faculdade, como 1°, 2°,5°, 7° e 10° períodos.

Procedimento

Antes de iniciar o estudo, iremos obter o documento de consentimento da instituição, dos professores e coordenadores. Após a autorização da instituição, iremos solicitar que os alunos participantes assinem o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), de acordo com o código de ética para pesquisas (Resolução 466/12 e a 510/16). Os participantes irão responder as perguntas da Escala de procrastinação acadêmica de forma individual, o tempo para responder o questionário será de 5 a 15 minutos. Se o participante se sentir desconfortável, ele poderá abandonar a pesquisa.

Discussão

As pesquisas relacionadas a procrastinação acadêmica no Brasil são escassas. Por mais que pesquisas sobre Procrastinação acadêmica na América latina resultaram em bons resultados, no Brasil esse constructo não é tão explorado. A escala não realiza diferença entre os sexos, podendo resultar em inconstância da análise em relação aos gêneros dos participantes. Até então, a pesquisa só foi aplicada em dois estados brasileiros, dessa forma, será necessário novas pesquisas com a aplicação da escala em outros estados brasileiros. A escala de procrastinação acadêmica não foi utilizada em testes que já foram validados, representando uma limitação da escala, sendo necessário futuras pesquisas para preencher essa limitação utilizando mais de uma escala de procrastinação.

Benefícios dos aspectos psicológicos com a Escala de Procrastinação Acadêmica (EPA)

No Brasil, em torno de 4 de cada 5 estudantes universitários procrastinam as atividades (Geara, 2012). A escala de procrastinação acadêmica (EPA) pode ser utilizada para medir o desempenho de estudantes de ensino fundamental, médio e superior, também pode ser utilizado como método para medir a motivação escolar, aprendizagem, entre outros.

Compreende-se que a EPA apresentou boas propriedades psicométricas necessárias para o processo de adaptação e validação para o contexto brasileiro, identificando que o melhor modelo para nossa cultura também é o modelo bidimensional. Ademais, existem aspectos que são muitos parecidos entre as culturas quando se trata da procrastinação. (Dominguez-Lara, 2016b; Kline, 2015).

O conhecimento sobre a procrastinação irá contribuir para o psicólogo durante o atendimento, utilizando técnicas para incentivar o paciente/cliente a diminuir a prática de procrastinação. Além dos psicólogos, os professores também precisam ter conhecimento sobre as consequências da procrastinação, visto que em caso ocorra um evento de procrastinação escolar/acadêmica, ele saiba orientar o aluno a enfrentar esse problema.

De acordo com as pesquisas realizadas no México, Peru e Equador, a escala de procrastinação acadêmica possui estrutura fatorial confirmativa (Barraza-Macías & Barraza-Nevárez, 2018; Dominguez-Lara et al., 2014; Moreta-Herrera, & Durán-Rodríguez, 2018)

Salienta-se que o pesquisador não fique desatento a desejabilidade social em relação as respostas padronizadas, apontando que o acadêmico respondeu o questionário com respostas socialmente aceitas. Dessa forma, são necessárias outras pesquisas a fim de diminuir essa padronização (Dominguez-Lara, 2016).

Estudantes: 

Amanda Siqueira Dutra
Bianca de Souza Ferraz
Carolina Lima de Brito
Emanoelle Cavalcanti dos Santos
Marcos Vinicius Gibson Alves
Thales Vieira de Souza

 

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Emanoelle Cavalcanti

Jornalista social e acadêmica de psicologia.