O assassinato do padre Paulo Henrique Keler Machado, de apenas 36 anos, ocorrido na madrugada de 25 de junho de 2005, marcou profundamente a história recente da Baixada Fluminense e o trabalho de defesa dos direitos humanos na região. Conhecido por seu compromisso social e por sua forte atuação junto às comunidades mais vulneráveis, padre Paulo foi encontrado morto dentro de um carro estacionado sob o Viaduto Dom Adriano, no final da Via Light, em Nova Iguaçu. Ele havia sido executado com cinco disparos, em circunstâncias que revelam a brutalidade do crime e a possibilidade de motivação ligada ao seu trabalho pastoral e social.
De acordo com os laudos periciais, o homicídio aconteceu entre 3h e 4h da manhã. A investigação apontou que o primeiro tiro teria sido disparado de dentro do carro por um passageiro, atingindo a perna do padre Paulo e impossibilitando uma fuga imediata. Mesmo ferido, ele teria tentado escapar, mas foi novamente alvejado com um tiro no tronco, dois disparos nas costas — sugerindo uma tentativa desesperada de correr — e, por fim, um tiro fatal na nuca, caracterizando execução. A forma como o crime foi cometido, a frieza do agressor e o contexto no qual ocorreu levantaram questionamentos sobre a relação direta entre o assassinato e o trabalho desenvolvido pelo sacerdote na Diocese.
Padre Paulo Henrique exercia as funções de vice-coordenador de pastoral da Diocese de Nova Iguaçu e capelão do Hospital da Posse, onde colaborava com ações de humanização e reestruturação do atendimento. Porém, sua atuação mais marcante estava voltada para as famílias atingidas pela chamada Chacina da Baixada, ocorrida em 31 de março de 2005 nos municípios de Queimados e Nova Iguaçu. Naquele episódio, policiais civis e militares, em uma ação criminosa, executaram 29 pessoas — um massacre que chocou o país e revelou a face mais cruel da violência de Estado. Após a tragédia, padre Paulo tornou-se uma das principais vozes de acolhimento e resistência, oferecendo suporte espiritual e logístico às famílias das vítimas.
A Diocese de Nova Iguaçu, por meio de seu Centro de Direitos Humanos, foi uma das principais instituições a se mobilizar para garantir apoio às famílias, exigir justiça e denunciar as violações cometidas. Foi nesse contexto que a ComCausa passou a colaborar, transportando parentes das vítimas para reuniões, audiências e encontros de articulação em defesa de seus direitos. O clima de desconfiança e medo era intenso, uma vez que a violência partira justamente de agentes do Estado, o que tornava o diálogo com autoridades um desafio. Padre Paulo desempenhou um papel de mediador fundamental nesse processo: com sua postura firme, compassiva e conciliadora, ele conseguia aproximar familiares e representantes da justiça, contribuindo para que as demandas fossem ouvidas e as denúncias devidamente registradas.
A atuação do sacerdote ia além da religião; era uma expressão concreta de solidariedade e compromisso com a vida. Sua presença ao lado das famílias das vítimas não era apenas simbólica, mas também estratégica, pois buscava evitar que a chacina caísse no esquecimento. Essa postura firme e incansável possivelmente o tornou alvo de ameaças, dado que sua voz ecoava contra os interesses de grupos envolvidos em graves violações de direitos.
O assassinato do padre Paulo Henrique não apenas interrompeu uma trajetória de serviço e humanidade, como também acendeu um alerta sobre os riscos enfrentados por lideranças religiosas, comunitárias e defensores de direitos humanos na Baixada Fluminense. Seu legado, no entanto, permanece vivo na memória de todos aqueles que, como ele, acreditam na necessidade de lutar por justiça, dignidade e verdade.
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