Tiro para o alto durante enterro de Herus Guimarães

2025 - Herus Guimarães ComCausa - comunidade Santo Amaro

Um novo momento de violência marcou o já doloroso processo de luto da família e da comunidade de Herus Guimarães Mendes da Conceição, jovem de 24 anos morto durante uma operação do Bope no Morro Santo Amaro. Na tarde deste domingo (8), durante o protesto que acompanhava o cortejo do enterro, um homem disparou tiros para o alto, causando pânico entre os presentes.

O ato acontecia de forma pacífica desde as primeiras horas da tarde, reunindo moradores, familiares, amigos e ativistas em um clamor coletivo por justiça. Com cartazes, faixas e gritos de protesto, a manifestação seguia da comunidade até as imediações do Cemitério São João Batista, onde Herus foi sepultado pela manhã. O clima, embora marcado pela dor, era de união e respeito. Por volta das 15h30, testemunhas relataram que um homem em um carro prata, acompanhado de uma mulher, disparou ao menos dois tiros para o alto, tentando atravessar a multidão e avançar com o veículo em meio aos manifestantes. Houve correria, gritos e medo de que se tratasse de uma tentativa de atentado contra os presentes.

“A gente estava gritando por justiça, com criança e família no meio, e ele sai atirando. Quase atropelou todo mundo. Foi um desrespeito com a dor da gente”, relatou uma testemunha.

 Vídeos divulgados por coletivos de mídia independente mostram o carro cercado por moradores revoltados. Um dos retrovisores do veículo chegou a ser quebrado. O autor dos disparos tentou fugir, mas foi alcançado por manifestantes e abordado por policiais militares, que o conduziram para prestar esclarecimentos na delegacia. Sua identidade não foi revelada até o momento, e a motivação do ato ainda está sob investigação. A polícia confirmou que ele foi encaminhado para a 9ª DP (Catete), e que o caso está sendo apurado.

O episódio, que se soma ao trauma vivido pela comunidade com a morte de Herus, intensificou ainda mais a revolta contra a banalização da violência em territórios periféricos. “É simbólico e revoltante: em um ato por justiça, onde choramos a morte de um jovem inocente, alguém tem a audácia de atirar para o alto. Isso mostra o quanto ainda nos tentam silenciar pelo medo”, declarou uma moradora.

A Defensoria Pública, a Comissão de Direitos Humanos da Alerj e a Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial da Câmsra dos Deputados (CDHMIER) foram acionadas por organizações da sociedade civil, que acompanham o caso. A ComCausa e outros coletivos também denunciaram o ocorrido como uma tentativa de intimidação da mobilização popular para a imprensa. O protesto, apesar do susto, foi retomado logo após a contenção do atirador, e seguiu com discursos de familiares, artistas e lideranças comunitárias. O nome de Herus foi entoado em coro, com a promessa de que sua morte não será esquecida nem silenciada.

Enquanto isso, a dor permanece entre os moradores do Santo Amaro, que viram uma noite de alegria se transformar em luto. Para muitos, a morte de Herus é mais um triste capítulo de uma rotina marcada por operações letais em comunidades do Rio de Janeiro, onde o direito à vida e à segurança ainda parece distante da realidade cotidiana.

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