Três jovens passaram quase dois meses presos por um crime que não cometeram. Carlos Gabriel e Carlos Daniel Alves de Oliveira Borges, irmãos, e o amigo Nuno Alexandre da Silva Machado foram detidos no dia 27 de abril, após uma briga com um taxista no Largo do Pedregulho, zona norte do Rio de Janeiro. O taxista os acusou falsamente de roubo, alegando que o trio teria apontado um objeto simulando uma arma para ameaçá-lo e levá-lo a entregar bens pessoais. A acusação, no entanto, era mentira.
Na última semana, o próprio taxista retornou à delegacia e confessou que inventou a história. Em seu novo depoimento, ele admitiu que não foi assaltado, que não houve arma ou ameaça, e que sua versão foi motivada pela raiva após a agressão sofrida e pela percepção de que havia perdido um relógio. “Mentiu ao dizer que foi roubado, mentiu ao dizer que foi ameaçado com uma arma. Tudo foi uma invenção, e três inocentes pagaram com a liberdade”, explicou uma fonte próxima ao caso.
Famílias buscaram provar a inocência desde o início
Desde a prisão, familiares dos jovens se mobilizaram para provar a inocência deles. Em entrevista ao jornalismo do SBT, relataram que os três não tiveram chance de falar durante a audiência de custódia e que seus depoimentos iniciais foram negligenciados. “Eles foram acusados com base em uma mentira e nem puderam se defender de forma adequada”, disse Carlos Alexandre o pai dos jovens.
Câmeras de segurança da região foram essenciais para desmontar a narrativa inicial. As imagens mostram os jovens caminhando pacificamente, acompanhados de duas meninas, momentos antes da briga. Em outra filmagem, já sem as garotas, o trio retorna pela mesma rua. É então que começa a confusão com o taxista. As imagens registram a agressão mútua e mostram o momento em que o motorista volta ao carro e sai do local. Depois, as câmeras flagraram os jovens parados em um posto de gasolina até serem abordados por uma viatura policial. O taxista retornou à cena e todos foram levados à delegacia.
Apesar de a briga ter sido registrada, não havia indícios de roubo. Ainda assim, com base no falso testemunho, os três foram presos em flagrante.
Reportagem motivou confissão
A virada no caso aconteceu após uma reportagem exibida pelo SBT. Ao ver a matéria e descobrir que os jovens continuavam presos por conta de sua versão mentirosa, o taxista procurou novamente a polícia para contar a verdade. “Sim, estou arrependido. Quando vi que ainda estavam presos pela minha mentira, me senti mal. Tenho duas filhas e uma esposa grávida. Não podia carregar isso”, disse o taxista. O caso foi investigado pela 21ª DP (Bonsucesso), e agora o taxista vai responder por denunciação caluniosa e falsa comunicação de crime, crimes previstos no Código Penal e que podem resultar em pena de reclusão.
Justiça ainda não reconheceu oficialmente a inocência
Embora estejam em liberdade desde a última sexta-feira (14), os jovens ainda não foram oficialmente absolvidos. Seus nomes continuam atrelados a um inquérito criminal, e o processo segue tramitando. A defesa tenta agora acelerar a tramitação para arquivar o caso definitivamente e limpar os antecedentes dos três. Carlos Daniel, um dos acusados, desabafou: “Passamos quase dois meses como criminosos. Fomos humilhados, tratados como monstros. Tudo por uma mentira. A gente só quer justiça.”
Racismo institucional, seletividade penal e desigualdade judicial: uma denúncia urgente
A OSC ComCausa vê com gravidade casos de falsas acusações, como o que resultou na prisão injusta de três jovens por quase dois meses. “Acusações falsas destroem vidas. Três jovens, com famílias e planos, passaram quase dois meses presos sem qualquer prova concreta. É inadmissível que o sistema de Justiça valide versões frágeis sem a devida verificação. Quem acusa injustamente deve responder, mas é o Judiciário que precisa prestar contas por esse tipo de erro”, afirmou Adriano Dias, fundador da ComCausa, que acompanhou as famílias na audiência que resultou na libertação dos rapazes. Que também alerta para a dimensão estrutural do problema: “O racismo no sistema de justiça brasileiro não é exceção — é regra. A seletividade penal atinge com força desproporcional a juventude negra das periferias.”
Segundo o Instituto de Segurança Pública (ISP-RJ), 63% das abordagens policiais no estado do Rio de Janeiro recaem sobre pessoas negras, que representam apenas 48% da população, segundo o IBGE. Mais grave: 80% das prisões em flagrante também são de pessoas negras. “O flagrante virou um mecanismo de encarceramento automático da população negra. Basta existir para ser suspeito”, afirma Adriano.
Estudos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que réus negros recebem penas mais longas e têm menos acesso à defesa técnica qualificada. Além disso, dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) mostram que apenas 17% da magistratura brasileira é composta por pessoas pretas ou pardas.
“A justiça brasileira não é cega — ela condena com base em estigmas raciais. A formação jurídica ignora o racismo estrutural, e isso mantém o Judiciário como parte do problema”, aponta Adriano. “Enquanto a cor da pele for critério de suspeição e condenação, não teremos justiça real neste país. A luta contra o racismo institucional exige vigilância, presença e ação concreta.”
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