De Belford Roxo às universidades: a história viva do Preparatório Comunitário Paulo Freire

De Belford Roxo às universidades a história viva do Preparatório Comunitário Paulo Freire

A trajetória desta iniciativa é também a trajetória da comunidade que a sustenta. Nos anos 1970 e 1980, as comunidades eclesiais de base, as pastorais sociais e as lutas territoriais plantaram a semente. Culminando na década de 1990, a Romaria da Fé consolidou a pedagogia do chão, enquanto o movimento negro ganhava força e ampliava o horizonte de direitos.

Foi nesse caminho que, em 2009, nasceu oficialmente o Pré-Vestibular Comunitário Paulo Freire — hoje conhecido como Preparatório Comunitário Paulo Freire. Sua criação foi fruto da rua, da fé com pés no chão e da política feita em mutirão, desdobramento de uma longa caminhada de formação popular no Lote 15, em Belford Roxo, Baixada Fluminense, território marcado por lutas por moradia, água, terra e dignidade.

Desde então, o cursinho se tornou uma porta de entrada para a universidade e para a cidadania como forma de resistência. Sua origem possui versões múltiplas, como é comum nos processos comunitários, mas todas convergem em um mesmo eixo: a força formadora de uma igreja-povo, da Teologia da Libertação e das redes de movimentos sociais que, década após década, costuraram esperança onde o Estado falhava.

Um território que educa

“Eu cresci entendendo que o Lote 15 é mais que CEP: é uma escola viva. Foi a lama da rua que me ensinou política antes do livro, a solidariedade do vizinho que me ensinou economia antes do salário, a catequese que me ensinou ética antes do código. O bairro me educou”, relembra George Ferreira Lau, uma das lideranças que ajudou a estruturar o curso.

A paróquia, aberta ao diálogo com quem quisesse somar — fosse ou não católico —, acolheu iniciativas que uniam espiritualidade e ação social. Padres como Luigi Costanzo Bruno (Padre Bruno) e Geraldo de Lima se tornaram referências, ao lado de bispos como Dom Adriano, Dom Valdir e Dom Mauro.

“Padre Bruno sempre dizia: ‘a porta é para quem quiser trabalhar’. E Padre Geraldo completava: ‘trabalhar com o povo, para o povo e do povo’. Foi assim que eu aprendi Teologia da Libertação na prática: pé na lama, ouvido aberto e Evangelho concreto”, acrescenta George.

Fé, política e educação: a costura de uma época

Dos “tempos de chumbo” à abertura democrática, a comunidade amadureceu a convicção de que fé e política não podiam andar separadas. “A ditadura formal pode ter acabado, mas a ditadura econômica segue expulsando gente da escola e da dignidade todos os dias. Foi isso que aprendi ouvindo Dom Adriano”, lembra George.

As assembleias paroquiais, as pastorais sociais, o movimento negro e as juventudes costuraram, ao longo dos anos 1980 e 1990, uma consciência comum: estudar é um ato de emancipação e de cura coletiva.

A Romaria da Fé como pedagogia do território

Antes do cursinho, veio a catequese das ruas. A Romaria da Fé transformava a Via-Sacra em leitura crítica do território.

“Eu lembro de caminhar com os pés na lama até o tornozelo, rezar e, ao mesmo tempo, ouvir: ‘aqui falta luz, aqui a água não chega, aqui roubaram ontem’. Cada esquina era uma lição. Não houve sala de aula mais forte do que essa. A rua me ensinou que educação não é decorar resposta, é ler o mundo para poder reescrevê-lo”, relata George.

Essa pedagogia popular alimentou a visão de que a comunidade precisava também abrir trilhas para o ensino superior.

Como nasce o Pré-Vestibular Paulo Freire

Não houve um “marco zero”, mas sim uma soma de vontades. Educadores populares, jovens, lideranças pastorais e militantes de direitos humanos decidiram organizar um preparatório gratuito e solidário.

“A gente se perguntava: como a juventude do Lote 15 chega à universidade? Como a trabalhadora que volta a estudar compete numa prova que ignora sua vida? A resposta foi criar um cursinho nosso, com nosso método, com nossa cara”, explica George.

Inspirado em Paulo Freire, o cursinho partiu da escuta e da problematização: círculos de estudo, aulões, mutirões de material, revezamento de professores voluntários, partilha de lanche e vaquinhas para transporte.

Princípios pedagógicos e organização

Os princípios pedagógicos e a organização do Preparatório Comunitário Paulo Freire sempre estiveram alicerçados na realidade do território e na partilha coletiva. As aulas partiam do diálogo e da relevância local, conectando os conteúdos às experiências vividas: a redação discutia direitos sociais, racismo e saneamento; a matemática se ligava ao orçamento doméstico e às contas do mês; e as ciências serviam como lupa para compreender o próprio território. O projeto se sustentava em um voluntariado estruturado, formado por docentes da rede pública, universitários e ex-alunos que se revezavam nas disciplinas. O cuidado ia além do conteúdo: havia apoio integral, com rodas para falar de ansiedade, plantões de dúvida e oficinas de escrita.

A equidade era norte, com atenção especial a mulheres, população negra e trabalhadores, oferecendo turmas noturnas e de fim de semana. E, para garantir o funcionamento, a comunidade recorria à economia solidária, realizando rifas, bazares e campanhas de doação de livros e materiais, assegurando que nada faltasse no mínimo essencial.

Impacto que transborda a sala de aula

As primeiras aprovações vieram — e viraram celebração de bairro. “Nunca vou esquecer o dia em que saiu o nome da Adriana (nome fictício) na lista. Padre Bruno abraçou como quem segura uma ponte. Foi ali que eu entendi: aprovação, para nós, é ato político”, conta George. Muito antes, porém, já havia transformação: jovens retomando o gosto pela leitura, mães solo encontrando acolhimento, trabalhadores se organizando em conselhos de saúde e cultura. A universidade foi destino, mas a caminhada já era formação.

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Por que “Paulo Freire”

Assumir o nome é assumir compromisso. “Freire nos ensinou que ninguém educa ninguém sozinho. Acertar questão é importante, mas ampliar horizonte é o que dá sentido. Eu dizia nas rodas: se chegamos até aqui com pé na lama e livro na mão, não tem edital que nos impeça de atravessar a ponte”, afirma George.

O que vem pela frente

Como toda iniciativa popular, a continuidade depende de espaço, voluntariado e parcerias. Quando há equipe e condições, novas turmas são abertas e divulgadas pelos canais comunitários e paroquiais. A comunidade defende também manter viva a memória de Padre Bruno e Padre Geraldo, com arquivos comunitários, romarias formativas e ações anuais que reafirmem o compromisso com os empobrecidos.

Como colaborar

A colaboração com o Pré-Vestibular Comunitário Paulo Freire pode acontecer de diferentes formas, todas fundamentais para a continuidade do projeto. É possível dar aula ou oferecer mentoria, especialmente nas áreas de Matemática, Redação, Ciências da Natureza e Humanas. Também é importante doar materiais, como livros, cadernos, cartolinas ou mesmo o acesso a uma impressora. Outra frente essencial é apoiar a logística, ajudando com o lanche coletivo, o transporte dos estudantes ou os custos dos simulados. E, por fim, divulgar a iniciativa é vital para alcançar mais jovens e adultos que sonham com a universidade.

O ciclo que segue vivo: ponte e farol da comunidade

Hoje, o ciclo permanece vivo e fiel às suas raízes: território, fé comprometida, política do comum e educação como direito inegociável. Cada turma é uma vitória coletiva, cada aprovação um ato de resistência, e cada estudante que atravessa o portão da universidade carrega consigo a marca de uma comunidade que se recusa a aceitar o destino imposto.

“Eu vi a catequese virar método, a romaria virar currículo, a partilha virar orçamento. Vi que a gente não está condenado ao lugar que nos deram. Cada turma é uma ressurreição concreta: do desalento para a esperança organizada, da ausência de política pública para a política do comum, da fila do ônibus para a fila da matrícula.” — George Ferreira Lau.

O Preparatório Comunitário Paulo Freire continua sendo ponte e farol: da lama ao livro, do mutirão ao diploma, da luta cotidiana à conquista coletiva. Atualmente, o Pré-Freire oferece cursos de Pré-Vestibular, Preparatório Militar, Cursos Técnicos e Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja)  /Indígena, ampliando suas frentes de atuação para acolher diferentes trajetórias e sonhos de estudantes da Baixada Fluminense.

Localizado na Rua Padre Egídio Carmelinck, 78, Lote XV, Belford Roxo – CEP 26183-380, o projeto mantém viva a esperança de que a educação é um direito de todos. Para saber mais ou participar, basta entrar em contato pelo telefone (21) 99248-9612.

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