Na segunda metade do século XIX, a região da Pedra do Sal, na Zona Portuária do Rio de Janeiro, se consolidava como um dos principais territórios de presença africana e afro-brasileira na cidade. Entre cargas de sal, cortiços, terreiros e vielas íngremes, nascia uma trama de cultura, fé, trabalho e resistência que ajudaria a formar o que, mais tarde, ficaria conhecido como Pequena África.
É nesse cenário que surge a figura de João Bernardo, descendente de um casal Bantu que se instala na região após o período escravocrata. Recontada hoje em narrativas artísticas e performáticas, sua história se transforma em símbolo de inteligência coletiva negra e das redes de comunicação que atravessavam aquele território.
João Bernardo e a sociedade secreta que ecoa da Pedra do Sal
O espetáculo Sociedade Secreta dos Tambores Bantus mergulha na trajetória de João Bernardo, menino negro Bantu que cresce na Pedra do Sal em meio a portos, terreiros, festas, reuniões, cochichos e toques de tambor. Em um período marcado por tensões políticas, disputas em torno da escravidão e da República, ele é apresentado como um observador atento de seu tempo, capaz de ler os sinais da rua, das casas e dos portos.
A partir dessa escuta sensível, João Bernardo cria a Sociedade Secreta dos Tambores Bantus, rede formada por trabalhadores negros que atuavam em casas de figuras de grande influência — de escravagistas a abolicionistas, passando por políticos, militares e integrantes da elite. Invisíveis para quem detinha o poder, mas presentes em seus espaços privados, essas pessoas observavam, escutavam, cruzavam informações e construíam uma verdadeira inteligência preta sobre o que se tramava nos bastidores do país.
Esses agentes eram conhecidos como Indaca de Afofô (“Boca de Fofoca”), expressão que ressignifica a ideia de “fofoca”: não como conversa vazia, mas como circulação estratégica de informações, capaz de proteger a comunidade, antecipar riscos, fortalecer alianças e alimentar movimentos políticos e populares do século XIX. Essas histórias teriam sobrevivido por meio da tradição oral, atravessando gerações como parte importante da memória do povo negro e das narrativas que acompanham as lutas da diáspora africana no Brasil.
Pedra do Sal, Pequena África e a força Bantu
Muito antes de se tornar cartão-postal e ponto de rodas de samba, a Pedra do Sal já era território de dor, resistência e organização comunitária negra. Ligada ao antigo cais, a região abrigou africanos escravizados, libertos e seus descendentes, que ali construíram moradia, trabalho, terreiros, festas e redes de solidariedade, ajudando a formar a chamada Pequena África na Zona Portuária do Rio de Janeiro.
Entre as diversas matrizes africanas presentes, os povos Bantu — oriundos principalmente de regiões como Congo e Angola — tiveram papel central. Sua língua, seus rituais, ritmos e visões de mundo deixaram marcas profundas na formação da cultura brasileira, da religiosidade às expressões populares, passando pela musicalidade que daria origem ao samba e a outras manifestações que hoje integram a identidade nacional.
Ao situar João Bernardo como filho de um casal Bantu na Pedra do Sal, o espetáculo conduzido por Macedo Griot reforça esse vínculo histórico e simbólico: o garoto se torna um fio narrativo que conecta a presença Bantu, a Pequena África e as formas de resistência negra urbana no século XIX.
Tambores como código, memória e comunicação política
No universo de Sociedade Secreta dos Tambores Bantus, os tambores não são apenas instrumentos musicais: são código, mensagem, memória e convocação.
Por meio de toques específicos, ritmos combinados e sinais compartilhados, circulam informações que atravessam portos, terreiros, cortiços, casas de família e espaços de sociabilidade negra. A música funciona como linguagem política, como uma espécie de “telegrafia preta” que opera paralelamente às vias oficiais de comunicação, muitas vezes negadas à população negra.
Assim, os tambores:
- convocam festas, celebrações e rituais;
- avisam sobre riscos, chegadas e movimentações suspeitas;
- marcam tempos de encontro, trabalho e descanso;
- guardam histórias e memórias de povos que tiveram famílias e idiomas rompidos pela escravidão.
O espetáculo transforma essa dimensão simbólica em cena, fazendo com que o público sinta — no corpo e na escuta — como o som pode ser também estratégia de sobrevivência, organização e liberdade.
Entre mito histórico e memória política
Do ponto de vista documental, não há registros consolidados que confirmem João Bernardo, tal como apresentado nessas histórias, como personagem histórico nos moldes da biografia tradicional. Ele aparece hoje principalmente como figura literária e teatral, criada para condensar experiências vividas por milhares de pessoas negras naquele período.
Isso, no entanto, não reduz a importância da narrativa – pelo contrário. João Bernardo funciona como um mito histórico, um personagem-síntese que ajuda a iluminar aquilo que a história oficial costuma apagar ou tratar de forma marginal.
A ideia de uma “sociedade secreta” de pessoas negras que articulam informações por meio de tambores e redes de confiança dialoga com uma verdade mais ampla: a população negra jamais foi apenas objeto da história; sempre atuou como sujeito político, criando estratégias de sobrevivência, proteção e resistência no meio de estruturas violentas e racistas.
Ao situar essa história na Pedra do Sal, a narrativa reforça o papel da Pequena África como centro de produção de cultura, pensamento e organização comunitária – não só como berço do samba, mas também como espaço de inteligência coletiva e disputa simbólica.
Macedo Griot em cena: oralidade, ancestralidade e protagonismo negro
No palco, Macedo Griot utiliza música, dança, poesia e narrativa para reconectar o público a esse legado de resistência, ancestralidade e protagonismo negro. O formato une contação de histórias, performance e elementos rituais, criando uma experiência que é ao mesmo tempo sensorial, educativa e política. Destinado a jovens e adultos a partir de 12 anos, o espetáculo propõe uma travessia pela memória da diáspora africana no Brasil, valorizando identidades, honrando memórias e reafirmando a força da oralidade africana como tecnologia de transmissão de saberes e de preservação da história.
Mais do que revisitar o passado, a narrativa de João Bernardo e da Sociedade Secreta dos Tambores Bantus convida a olhar o presente: em um país que ainda naturaliza a desigualdade racial e o apagamento das contribuições negras, lembrar dessas histórias é afirmar que a comunidade negra sempre foi sujeito da história, inventando caminhos próprios para defender a vida, a dignidade e a liberdade.
Macedo Griot leva “Sociedade Secreta dos Tambores Bantus” ao Festival Raízes no Rio
Festival Raízes e o compromisso com a cultura de matriz africana
Nos dias 11 e 12 de dezembro, o Festival Raízes recebe o espetáculo Sociedade Secreta dos Tambores Bantus, conduzido por Macedo Griot, referência na preservação da memória oral e das tradições afro-brasileiras. A apresentação, gratuita e ao ar livre, acontece na Rua Pedro Lessa, ao lado do Centro Cultural Justiça Federal (CCJF), junto à Banca do André, reunindo o público para uma experiência que mistura arte, história e ancestralidade negra em plena região central do Rio.
Ao ocupar o espaço público com tambores, histórias e corpos negros em cena, o Festival Raízes não apenas oferece programação cultural: afirma um projeto de país em que a memória da Pequena África, da Pedra do Sal e da inteligência Bantu não seja tratada como rodapé da história, e sim como parte central da construção da nossa sociedade.
Serviço – Sociedade Secreta dos Tambores Bantus no Festival Raízes
– Datas: 11 e 12 de dezembro
– Local: Rua Pedro Lessa, ao lado do Centro Cultural Justiça Federal (CCJF), junto à Banca do André – Centro, Rio de Janeiro
– Classificação: 12 anos
– Entrada: gratuita
Veja também
| Projeto Comunicando ComCausa
| Portal C3 | Instagram C3 Oficial
______________________
______________________
Colabore com nosso projeto pix.comcausa@gmail.com

______________________
Compartilhe:

