Mesmo quando vivem em condições sociais semelhantes às de brancos, pessoas negras têm 49% mais chances de serem vítimas de homicídio no Brasil. O dado alarmante foi divulgado nesta sexta-feira (23) em um estudo publicado na revista Ciência & Saúde Coletiva, realizado por pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP.
A pesquisa aponta que, mesmo controlando fatores como idade, escolaridade, sexo e localização, o risco de morte violenta continua significativamente maior para a população negra. “Trata-se de uma seletividade de homicídio por cor”, destaca o levantamento.
Perfil das vítimas e desigualdade racial
O estudo reforça um padrão já conhecido: as principais vítimas da violência letal no Brasil são homens jovens, solteiros e com baixa escolaridade. No entanto, a novidade é a metodologia utilizada. Por meio de dados do Censo Demográfico de 2022 e do Sistema de Informação sobre Mortalidade do Ministério da Saúde, os cientistas compararam brancos e negros com perfis sociais equivalentes, usando técnicas de geoestatística.
A conclusão é que a cor da pele, isoladamente, continua sendo um fator determinante na letalidade. Ou seja, mesmo em igualdade de condições, negros morrem mais.
O professor Rildo Pinto da Silva, líder do estudo, afirma que a pesquisa pode orientar políticas públicas mais eficazes. “Essa visão multidisciplinar visa aprimorar as ações do Estado, permitindo que os recursos sejam direcionados de forma mais precisa às regiões e populações mais afetadas pela seletividade racial e violência”, explicou.
Nordeste concentra maior taxa de homicídios
Geograficamente, o estudo mostra que o Nordeste brasileiro é a região mais afetada por altas taxas de homicídio. Em contraste, municípios do Sul e Sudeste apresentam os menores índices.
Esses dados reforçam a importância de considerar o recorte territorial e racial na formulação de políticas de segurança pública e prevenção à violência.
Dados do Atlas da Violência
O levantamento da USP confirma tendências apontadas em outras pesquisas. O Atlas da Violência 2025, por exemplo, mostrou que 76% dos homicídios registrados em 2023 foram contra pessoas pretas e pardas. A probabilidade de um negro ser assassinado foi 2,7 vezes maior do que a de um não negro naquele ano.
No caso das mulheres, os números também são preocupantes: 68,2% dos feminicídios registrados em 2023 foram de mulheres negras, segundo o mesmo relatório. Houve ainda um aumento de 2,5% nos assassinatos de mulheres no período, contrariando a tendência geral de queda.
Desigualdade estrutural e responsabilidade do Estado
Especialistas apontam que os dados refletem um racismo estrutural ainda presente no país. A persistência dessa seletividade racial nas mortes violentas revela falhas nas políticas de segurança e inclusão social, e exige ações específicas para reduzir desigualdades.
A responsabilização do Estado na criação de políticas públicas eficazes, voltadas ao combate à violência contra a população negra, é um dos principais alertas trazidos pelo estudo.
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