Leitoras e leitores destacaram a trajetória da protagonista de Isabel Allende e discutiram machismo, perdas familiares e acontecimentos históricos que atravessam o romance.
O Clube do Livro Stelium avaliou com entusiasmo o romance Violeta, de Isabel Allende. Na discussão, leitoras e leitores destacaram a capacidade da autora de aproximar uma história pessoal das grandes transformações do século XX. As diferentes fases da protagonista também abriram espaço para reflexões sobre autonomia feminina, violência nos relacionamentos, maternidade e amadurecimento afetivo.
A avaliação geral foi muito positiva. Mesmo diante dos episódios dolorosos da narrativa, o grupo demonstrou satisfação com a leitura e com os caminhos percorridos por Violeta Del Valle, uma mulher que chega aos cem anos carregando experiências de amor, perdas e reconstrução.
Uma vida atravessada pela história
Violeta nasce em 1920, em um contexto marcado pela chegada da gripe espanhola ao seu país. Anos depois, a Grande Depressão provoca a ruína financeira da família e a mudança para uma região distante da vida urbana que ela conhecia.
Para o clube, um dos méritos do romance está na maneira como esses acontecimentos atravessam a intimidade das personagens. Crises econômicas, ditaduras, transformações sociais e a luta pelos direitos das mulheres integram uma narrativa em que a história coletiva modifica escolhas e relações pessoais.
Allende explica que deixou sem nome o país onde se passa a trama para ter liberdade narrativa. A autora também relaciona a construção do livro à experiência de viver entre duas pandemias: a gripe de 1918 e a covid-19.
Julián e Nieves despertam debate sobre controle e machismo
A relação entre Julián Bravo e sua filha Nieves esteve entre os pontos mais discutidos. Na leitura apresentada pelo grupo, o comportamento do personagem revela machismo, possessividade e dificuldade de aceitar a autonomia da filha.
Participantes também perceberam uma ambiguidade incestuosa nessa relação. Essa percepção foi apresentada como interpretação da leitura, sem tratar a existência de uma relação sexual entre pai e filha como fato confirmado.
O clube avaliou ainda que Julián usava a filha para atingir Violeta, ampliando os conflitos familiares. Para leitoras e leitores, suas atitudes mostram como o controle pode atravessar diferentes vínculos e produzir sofrimento tanto na relação amorosa quanto na relação entre pais e filhos.
O desfecho do personagem provocou insatisfação. O grupo considerou pequenas as consequências enfrentadas por Julián diante dos danos que causou, mas relacionou essa impressão à impunidade frequentemente associada a homens ricos e poderosos. Ao mesmo tempo, interpretou sua rejeição como uma das respostas mais significativas que recebeu.
Da paixão à maturidade do amor
As escolhas afetivas de Violeta foram outro eixo da conversa. O clube a considerou uma mulher à frente de seu tempo, capaz de romper um casamento para viver uma paixão inesperada, embora essa decisão também a conduzisse a uma relação marcada por agressões.
A aproximação com Roy foi lembrada pelo carinho e pelo respeito que ele oferece à protagonista. O relacionamento, mantido apesar da distância entre países, inclui viagens pelos Estados Unidos no motorhome dele e momentos de companheirismo.
A morte de Roy por câncer acrescenta outra perda à trajetória de Violeta. No relato discutido, ela descobre a gravidade da doença e consegue expressar seu amor antes da despedida.
Já a relação com Harald Fiske foi entendida pelo clube como o encontro com um amor mais maduro. Para o grupo, essa etapa representa uma forma de convivência construída com serenidade e respeito, depois de experiências intensas e dolorosas.
Torito e Nieves deixam marcas profundas
A morte de Apolonio Toro, o Torito, durante a ditadura, comoveu participantes. A proximidade do personagem com a família Del Valle e com Violeta tornou sua perda especialmente dolorosa.
O gesto de guardar sua cruz e entregá-la a Camilo foi lembrado como uma forma de preservar sua memória. Na interpretação do clube, o objeto conecta gerações e mantém presente alguém cuja vida foi atingida pela violência política.
A morte de Nieves também recebeu atenção pela mudança que provoca em Violeta. A discussão sobre a eclâmpsia levou o grupo a pensar nas mulheres que ainda morrem por complicações da gravidez e na importância de ampliar o acesso à informação e ao cuidado.
Essa preocupação encontra respaldo na Organização Mundial da Saúde, que identifica a pré-eclâmpsia e a eclâmpsia como causas relevantes de adoecimento e morte materna. A entidade destaca a importância da identificação precoce e do atendimento adequado.
Os vínculos com o neto e o filho
A relação de Violeta com o neto Camilo também foi destacada pelo clube. A protagonista desejava que ele se casasse e construísse uma família, mas, ao longo do tempo, passou a compreender sua escolha pelo sacerdócio e o sentido de sua missão junto às pessoas mais pobres.
Para leitoras e leitores, esse vínculo revela outra dimensão do amadurecimento de Violeta: aprender a respeitar um caminho diferente daquele que imaginava para alguém que amava. A atuação de Camilo em defesa da justiça social permite que ela reconheça sua vocação como uma expressão de cuidado, solidariedade e compromisso com a transformação da sociedade.
O grupo também ressaltou a relação da protagonista com seu filho Juan Martín, exilado pela ditadura. A perseguição política e a distância atravessam esse vínculo e mostram como a repressão atinge a vida familiar, separando pessoas e impondo rupturas que ultrapassam as fronteiras dos países.
Na avaliação do clube, as experiências do filho e do neto ampliam o olhar de Violeta para as injustiças sociais. Esses vínculos aproximam sua trajetória pessoal das consequências da violência política e das escolhas de quem dedica a vida à defesa de outras pessoas.
Uma leitura que mobilizou o clube
Entre elogios à escrita de Isabel Allende e críticas às atitudes de alguns personagens, o Clube do Livro Stelium encontrou em Violeta uma história capaz de provocar emoção e debate.
O entusiasmo com o romance veio acompanhado de reflexões sobre o que muda ao longo de um século e o que permanece: a violência contra as mulheres, as desigualdades, a força dos vínculos e a possibilidade de reconstruir a vida depois das perdas.
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