O Clube do Livro Stelium se reuniu no dia 2 de setembro para discutir É assim que se perde a guerra do tempo, de Amal El-Mohtar e Max Gladstone. Durante o encontro, leitores e leitoras destacaram principalmente a relação construída entre as protagonistas Red e Blue, mas também apontaram dificuldades relacionadas à compreensão do universo apresentado pela obra.
A conversa revelou percepções distintas sobre a proposta narrativa. Para parte do grupo, a ausência de explicações mais detalhadas sobre a guerra, as organizações envolvidas e as regras daquele universo tornou a leitura confusa. Outros participantes avaliaram que essa falta de respostas faz parte da experiência proposta pelo livro, abrindo espaço para interpretações e para a construção individual de sentidos.
Apesar das diferenças, houve um ponto de maior consenso: as cartas trocadas entre Red e Blue e o desenvolvimento do vínculo afetivo entre as duas.
O ano e o local do encontro não foram informados no material recebido.
Da rivalidade à aproximação
No início da narrativa, Red e Blue pertencem a lados opostos de uma guerra travada através do tempo.
A relação começa marcada pela rivalidade. Nas primeiras cartas, as protagonistas recorrem frequentemente ao sarcasmo, à provocação e à ironia. Esse tom foi lembrado durante o encontro como uma característica importante na construção das personagens.
As mensagens inicialmente funcionam como uma extensão da disputa entre as duas agentes. Aos poucos, no entanto, a curiosidade sobre a adversária passa a ocupar um espaço maior.
As provocações se tornam mais pessoais, e as cartas começam a revelar sentimentos, dúvidas e fragilidades.
Para participantes do Stelium, essa transformação está entre os aspectos mais bem desenvolvidos do livro.
As cartas como centro da narrativa
A correspondência entre Red e Blue foi um dos elementos mais elogiados durante a conversa.
É por meio das cartas que o relacionamento das protagonistas se desenvolve. A passagem da rivalidade para a intimidade ocorre gradualmente, à medida que uma passa a reconhecer na outra não apenas uma adversária, mas alguém capaz de compreender suas experiências e conflitos.
O vínculo cresce em meio a uma situação de permanente ameaça.
Red e Blue pertencem a organizações rivais e, dentro da lógica da guerra apresentada pelo livro, a aproximação entre as duas representa um risco.
Quanto mais a relação se fortalece, maior se torna a possibilidade de que sejam descobertas.
Para o grupo, essa tensão contribui para tornar o romance um dos elementos mais envolventes da obra.
Um universo pouco explicado
Se o desenvolvimento afetivo recebeu elogios, a construção do universo provocou maior divisão.
Uma crítica recorrente durante o encontro foi a sensação de não compreender plenamente o que estava acontecendo em determinados momentos da leitura.
A obra apresenta diferentes linhas temporais, missões, mudanças históricas e organizações rivais, mas explica apenas parcialmente como cada elemento funciona.
A Agência e o Jardim têm papel central na narrativa, porém suas estruturas, regras e objetivos não são detalhados da maneira encontrada em obras de ficção científica mais tradicionais.
Também há referências a fios temporais e a intervenções capazes de modificar acontecimentos e futuros possíveis.
Para uma parcela do grupo, esse conjunto de elementos exigiria maior contextualização.
A impressão, segundo a discussão, é de que o leitor entra em uma guerra que já está em andamento e precisa compreender suas regras principalmente a partir das ações e das pistas fornecidas ao longo da narrativa.
A ausência de respostas como recurso
A mesma característica recebeu uma avaliação diferente por outros participantes.
Para esse grupo, o livro não precisa explicar completamente a Agência, o Jardim ou os mecanismos da guerra.
A falta de respostas foi vista como parte da proposta narrativa.
Em vez de apresentar um universo com regras totalmente definidas, a obra permite que o leitor construa suas próprias interpretações sobre o conflito e sobre os diferentes mundos apresentados.
Essa divergência marcou parte importante do encontro.
Enquanto alguns leitores consideraram a falta de explicações um obstáculo, outros avaliaram que ela amplia as possibilidades de leitura.
O romance ocupa mais espaço que a guerra
Apesar do título, a chamada guerra do tempo não é necessariamente o aspecto mais desenvolvido da obra.
A ficção científica funciona como base para a narrativa, mas o centro emocional está na relação entre Red e Blue.
As duas realizam missões, atravessam diferentes períodos e interferem em acontecimentos históricos, mas esses elementos muitas vezes servem de contexto para o desenvolvimento da correspondência.
Essa escolha pode provocar expectativas diferentes.
Leitores que procuram uma obra com regras detalhadas sobre viagem no tempo, funcionamento das organizações e consequências de cada intervenção podem sentir falta de explicações.
Já quem se interessa principalmente pela relação entre as protagonistas tende a encontrar nas cartas o principal eixo da narrativa.
Essa diferença também apareceu de forma clara na discussão promovida pelo Stelium.
Estrutura pode parecer repetitiva
Outro aspecto levantado na recepção da obra é a estrutura.
Ao longo de boa parte do livro, as missões das protagonistas são intercaladas por cartas e respostas.
Esse formato reforça a importância da correspondência, mas pode transmitir uma sensação de repetição para leitores que esperam uma progressão narrativa mais convencional.
Em determinados momentos, o desenvolvimento da relação entre Red e Blue avança de maneira mais evidente do que a guerra propriamente dita.
Para quem está envolvido com o romance, essa estrutura pode funcionar como parte do ritmo do livro.
Para outros leitores, pode surgir a impressão de que a trama externa permanece em segundo plano.
Linguagem poética divide opiniões
A escrita também é um dos elementos que mais dividem a recepção do livro.
As cartas são construídas com uma linguagem intensamente metafórica, repleta de referências, imagens e jogos de palavras.
Essa escolha contribui para dar identidade ao romance e à comunicação entre as personagens.
Ao mesmo tempo, pode tornar a leitura mais exigente.
Leitores que preferem narrativas mais diretas podem considerar alguns trechos excessivamente elaborados.
Já para quem valoriza uma escrita poética e experimental, a linguagem pode ser justamente uma das principais qualidades da obra.
Essa diferença de percepção ajuda a explicar por que É assim que se perde a guerra do tempo desperta avaliações tão distintas.
Red e Blue nem sempre parecem tão diferentes
Apesar de pertencerem a lados opostos, as duas protagonistas compartilham um estilo de escrita marcado por metáforas e construções poéticas.
Para alguns leitores, essa proximidade pode dificultar a distinção entre as vozes das personagens em determinados momentos.
A diferença entre elas aparece principalmente em suas posições dentro da guerra, em suas trajetórias e na relação que mantêm com as organizações às quais pertencem.
Nas cartas, porém, ambas adotam uma linguagem sofisticada e emocionalmente intensa.
Essa semelhança pode ser interpretada de duas formas.
Para algumas pessoas, ela enfraquece a individualidade das personagens.
Para outras, reforça a aproximação entre as duas ao longo da narrativa.
O amor convence mais que o universo
Mesmo entre participantes que apresentaram críticas ao livro, o desenvolvimento do romance foi apontado como um dos elementos mais eficientes.
A relação de Red e Blue não é construída por meio de uma convivência cotidiana.
As duas se conhecem principalmente pelas palavras.
São as cartas que revelam o humor, a inteligência, os medos, as provocações e as vulnerabilidades das personagens.
A intimidade cresce nesse espaço de troca.
Ao longo da narrativa, o que começa como confronto passa por diferentes etapas até se transformar em afeto.
Esse processo foi destacado no encontro como uma das razões pelas quais as protagonistas conseguem conquistar quem lê.
Uma relação que também pode parecer acelerada
Apesar dos elogios ao romance, há leitores que consideram rápida a passagem da rivalidade para o amor.
Como grande parte da relação se desenvolve exclusivamente pelas cartas, algumas pessoas sentem falta de mais situações compartilhadas entre as protagonistas.
Para outras, no entanto, a própria correspondência oferece o tempo necessário para a transformação do vínculo.
Cada nova mensagem modifica a relação.
Primeiro, há provocação.
Depois, curiosidade.
Em seguida, aparece a preocupação.
Por fim, a correspondência assume um caráter claramente afetivo.
Essa evolução é uma das principais bases emocionais do livro.
Um livro considerado bom mas não necessariamente memorável
No balanço do encontro, predominou uma avaliação positiva, embora distante de uma unanimidade.
O grupo reconheceu qualidades na construção das cartas e no relacionamento entre Red e Blue.
Ainda assim, alguns participantes afirmaram que a leitura não produziu um apego forte o suficiente para que a obra fosse considerada especialmente memorável.
A avaliação pode ser resumida pela ideia de um livro considerado bom, mas que deixa lacunas.
Para alguns leitores, faltou maior desenvolvimento da guerra.
Para outros, faltaram explicações sobre o universo.
Também houve quem considerasse que a linguagem e a estrutura, embora interessantes, não sustentam sozinhas toda a experiência de leitura.
Recepção também é dividida fora do clube
A divisão observada no Stelium também aparece na recepção pública da obra.
Em consulta ao Goodreads, o livro apresentava média próxima de 3,82 estrelas em cinco, com mais de 370 mil avaliações.
A maior parte das notas está concentrada entre quatro e cinco estrelas, mas existe também uma parcela significativa de avaliações entre uma e três estrelas.
O dado mostra uma recepção predominantemente positiva, mas distante de um consenso.
Esse resultado é compatível com as principais diferenças observadas entre leitores.
Quem valoriza uma narrativa poética, experimental e centrada no romance tende a responder melhor à proposta.
Quem procura uma ficção científica com regras claras, construção detalhada de universo e maior presença de ação pode ter uma experiência menos satisfatória.
Reconhecimento internacional
É assim que se perde a guerra do tempo também recebeu reconhecimento importante no campo da ficção científica e da fantasia.
A obra venceu os prêmios Hugo, Nebula e Locus na categoria de novela.
As premiações contribuíram para ampliar a projeção do livro e consolidaram o trabalho de Amal El-Mohtar e Max Gladstone entre as obras de maior destaque do gênero naquele período.
O reconhecimento, no entanto, não elimina as diferentes formas de recepção.
Como mostrou a conversa do Stelium, uma obra premiada pode ser considerada inovadora por alguns leitores e insuficientemente desenvolvida por outros.
Uma obra que depende da expectativa de leitura
A experiência com É assim que se perde a guerra do tempo parece depender, em grande parte, da expectativa com que cada leitor se aproxima da obra.
Quem entra esperando uma ficção científica tradicional pode estranhar a ausência de explicações detalhadas.
Quem espera uma trama centrada em conflitos e acontecimentos pode considerar a narrativa pouco movimentada.
Por outro lado, leitores interessados em linguagem, intimidade, metáforas e estruturas menos convencionais podem encontrar justamente nesses aspectos os principais méritos do livro.
No encontro do Stelium, essa diferença esteve presente do início ao fim.
Houve críticas à construção do universo, à pouca explicação sobre a guerra e ao desenvolvimento de alguns elementos narrativos.
Mas também houve reconhecimento da força das cartas e do relacionamento entre Red e Blue.
Ao final, foi esse vínculo que apareceu como o ponto de maior aproximação entre as diferentes opiniões.
Em uma história marcada por viagens no tempo, futuros possíveis e uma guerra entre organizações rivais, são as cartas entre duas adversárias que acabam ocupando o centro da experiência de leitura.
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