Criado em 2016, grupo reuniu antigos moradores ligados pelo musica e a cutlura – da região da Posse, em Nova Iguaçu -, transformou lembranças dos anos 1980 em encontros, ações solidárias e agora se prepara para comemorar dez anos de história
Por Adriano Dias
Falar sobre o Posse 80 é também revisitar uma história que, para mim, não está apenas no papel de entrevistador. É uma memória compartilhada. Os anos 1980 em Nova Iguaçu foram marcados pela música, pelas festas, pelas esquinas, pelos encontros quase sempre improvisados e por amizades que atravessaram décadas. Muita gente daquela época continua presente. Outros ficaram nas lembranças, como Guto Golf, Sergio Babra, Patricia, entre tantos amigos e amigas que partiram, mas seguem fazendo parte dessa história.
Foi justamente a passagem do tempo e a distância entre antigos amigos que ajudaram a dar origem ao Posse 80. A ideia nasceu de uma pergunta ouvida por Márcio Jorge de Souza, o Marcinho, durante um sepultamento: “Será que a gente só vai se encontrar em enterro?”. A frase ficou.
Pouco depois, em 16 de março de 2016, Marcinho criou no Facebook um grupo com uma proposta inicialmente simples: descobrir onde estavam aquelas pessoas que haviam dividido a infância, a juventude, as festas, a música e a vida cotidiana na região da Posse. A resposta foi rápida. Um encontrou o outro, alguém trouxe uma fotografia antiga, outro recuperou um contato perdido havia décadas. O grupo cresceu, ganhou administradores e moderadores, virou ponto de encontro virtual e, depois, voltou para onde aquela história havia começado: o encontro presencial.
Nesta conversa, Márcio Jorge de Souza relembra os primeiros passos do Posse 80 e fala sobre uma trajetória que, dez anos depois, ultrapassa a nostalgia e se consolida como espaço de amizade, memória cultural e solidariedade.
Como nasceu o Posse 80?
Márcio Jorge de Souza: A ideia surgiu depois de um sepultamento. Encontrei o Gilmar, um amigo antigo, e ele fez uma pergunta que mexeu comigo: “Será que a gente só vai se encontrar em enterro?”. Aquilo ficou na minha cabeça. Comecei a pensar nos amigos da infância e da adolescência que eu não via havia muito tempo. Pensei: onde está essa galera? Foi aí que tive a ideia de criar um grupo no Facebook para tentar reunir essas pessoas de novo.
Por que o nome Posse 80?
Marcinho: Porque a Posse era um ponto de encontro muito forte para a nossa geração. Nem todos moravam ali, mas muita gente se conheceu na Posse, frequentava o bairro ou tinha ali sua referência de convivência. Era onde a gente encontrava os amigos, conversava, ouvia música, tocava violão, combinava festas. Então o nome apareceu de forma muito natural.
O que os anos 1980 significaram para você?
Marcinho: Foi uma década fundamental. Eu passei pela infância e pela adolescência naquele período e fui descobrindo a música, principalmente o rock nacional. Com uns 10 anos já comecei a me interessar muito por música. Depois vieram as bandas de Brasília e tantos outros grupos. Isso foi criando um círculo de amizade muito forte. A música aproximava as pessoas. Você conhecia alguém porque gostava da mesma banda, porque tinha um disco diferente ou porque alguém tocava violão.
Era uma convivência bem diferente de hoje?
Marcinho: Muito. Não tinha celular, WhatsApp, rede social. Para encontrar os amigos, você tinha que sair de casa. A rua era o nosso espaço. Tinha os pontos de encontro, as esquinas, os lugares em que todo mundo sabia que encontraria alguém. A gente ficava conversando, ouvindo rock, tocando violão e organizando festa. Também existiam aquelas festas americanas, em que cada um levava alguma coisa. Era uma convivência muito intensa.
Quando você criou o grupo, imaginava que cresceria tanto?
Marcinho: Não. No começo eu queria apenas encontrar alguns amigos. Só que uma pessoa começou a chamar outra. Alguém dizia que tinha contato com uma pessoa que ninguém via havia anos. Outro colocava uma fotografia antiga. Aí aparecia mais gente. O grupo começou a crescer muito e chegou um momento em que precisei colocar outras pessoas como administradores e moderadores.
E vocês decidiram manter o grupo focado em cultura?
Marcinho: Sim. Sempre tivemos essa preocupação. A ideia era evitar assuntos que normalmente causam muita discussão, como política, religião e futebol. O Posse 80 sempre foi pensado para falar de cultura e memória. Música, cinema, séries, desenhos, propagandas antigas, roupas, festas, lugares, histórias. Às vezes alguém coloca uma única foto e aquilo gera dezenas de lembranças. Uma pessoa reconhece alguém, outra lembra do lugar, outra conta uma história que ninguém lembrava mais.
Isso acabou criando também um arquivo afetivo da Posse e de Nova Iguaçu?
Marcinho: Com certeza. Foi acontecendo naturalmente. Quando você reúne fotografias, histórias de lugares que já fecharam, festas, ruas, pessoas e acontecimentos, começa a preservar uma parte da memória da cidade. Tem muita coisa que não está em livro ou arquivo oficial. Está na lembrança das pessoas e nas fotografias guardadas em casa. O grupo acabou reunindo muito disso.
Quando vieram as festas presenciais?
Marcinho: Depois que o grupo cresceu, surgiu a ideia de fazer uma festa. Foi por volta de 2017 ou 2018. E foi muito emocionante. Tinha gente que não se via havia 20 ou 30 anos. Você imaginava duas pessoas que conviveram na adolescência e, de repente, estavam novamente frente a frente. O grupo virtual começou a virar reencontro de verdade.
O Posse 80 também passou a realizar ações solidárias. Como isso começou?
Marcinho: Quando percebemos a quantidade de pessoas que o grupo conseguia mobilizar, vimos que dava para usar essa força para ajudar outras pessoas. Começamos a organizar campanhas. Já fizemos arrecadação de agasalhos, roupas de frio, alimentos, brinquedos e outras doações. No Natal, fizemos ações voltadas para crianças. Também tivemos campanha de arrecadação de barras de chocolate na Páscoa. Então o Posse 80 deixou de ser só lembrança. A amizade começou também a virar solidariedade.
Isso mudou o perfil do grupo?
Marcinho: Acho que ampliou. A memória sempre vai ser a base, mas a gente percebeu que podia fazer algo no presente. Não precisava ser apenas um grupo para lembrar do passado. A gente podia manter os amigos juntos, fazer eventos e ainda ajudar outras pessoas.
Muitos amigos daquela época já partiram. Isso pesa quando vocês se reencontram?
Marcinho: Pesa, porque o tempo passa. Infelizmente, perdemos muita gente. E o grupo nasceu justamente dessa reflexão, depois daquela pergunta no sepultamento. A gente percebe que não pode deixar sempre para depois. Tem gente que você pensa: “qualquer dia eu encontro”, “qualquer dia eu ligo”. E às vezes esse dia não chega. Por isso é tão importante estar junto enquanto podemos.
Depois de dez anos, o que o Posse 80 representa para você?
Marcinho: Amizade. Para mim, essa é a palavra. Quando criei o grupo, queria saber onde estavam meus amigos. Depois percebi que muita gente tinha o mesmo sentimento. As pessoas queriam reencontrar colegas, recuperar histórias e voltar a conversar. O Posse 80 conseguiu fazer isso. E mais do que recuperar histórias antigas, também criou novas.
Então não é um grupo que vive apenas do passado?
Marcinho: Não. O passado é a origem, mas o grupo está vivo hoje. A gente continua se encontrando, fazendo festa, organizando ação. Isso é o mais importante. Não é só lembrar daquilo que aconteceu. É continuar construindo história.
Dez anos celebrados com festa
Uma década depois de sua criação, o Posse 80 chega a 2026 mantendo viva justamente a proposta que deu origem ao grupo: colocar os amigos novamente frente a frente. A comemoração dos 10 anos do Posse 80 já tem data marcada. A festa acontece no sábado, 10 de outubro de 2026, a partir das 19h, no Pub Club Maxambomba, na Estrada Gonçalves Dias, nº 1042, na Posse, em Nova Iguaçu. Com entrada gratuita, a programação anuncia uma noite dedicada às décadas de 1980 e 1990, com apresentação da banda Los Andrades, participação especial do cantor Marcelo Paes e discotecagem do DJ Alan.
A festa também conta com apoio cultural do Rock ComCausa do Juventude ComCausa, e do MS Eventos. Mais do que comemorar uma data, o encontro representa a continuidade de uma história iniciada dez anos antes em uma rede social, movida pela saudade de uma geração. Agora, a proposta volta ao essencial: reunir as pessoas.
Porque, no fim, o Posse 80 nasceu para isso. Para que os amigos não precisem esperar uma despedida para se encontrar.
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