Memória: Dez anos do assassinato de Anderson Soró e José Carlos “Shaolin”

06 (Junho) 01 - Anderson Soró

No dia 1º de junho de 2026, completam-se dez anos do assassinato de Anderson Vieira Gomes, conhecido como Anderson Soró, e José Carlos da Silva, conhecido como José Carlos “Shaolin”. O crime aconteceu na manhã de quarta-feira, 1º de junho de 2016, por volta das 8h, em frente ao Centro Educacional Corumbá, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense.

Naquele dia, Anderson e Shaolin foram baleados em uma ação violenta que interrompeu duas vidas e marcou profundamente familiares, amigos, educadores, lideranças comunitárias, religiosos de matriz africana e militantes de direitos humanos da região. José Carlos da Silva, de 42 anos, morreu no local. Anderson Vieira Gomes, de 38 anos, ainda chegou a ser socorrido e levado ao Hospital Geral de Nova Iguaçu, conhecido como Hospital da Posse, mas não resistiu aos ferimentos e morreu no início da tarde do mesmo dia.

Anderson Soró era morador do bairro Monte Castelo, professor e diretor do Centro Educacional Corumbá. Era casado e deixou três filhos. Sua trajetória reunia educação, participação comunitária, diálogo com a segurança pública, defesa de direitos e compromisso com a vida nos territórios da Baixada Fluminense. Além da atuação como educador, Anderson integrava o Conselho Comunitário de Segurança de Nova Iguaçu e era pré-candidato a vereador nas eleições municipais de 2016.

Sua presença pública se dava em um contexto difícil, em que lideranças comunitárias da Baixada Fluminense frequentemente atuam entre a ausência do Estado, a violência armada, a precariedade das políticas públicas e a necessidade cotidiana de defender a dignidade das comunidades. Anderson não era apenas um nome de uma disputa eleitoral; era uma liderança territorial, alguém que transitava entre a escola, a comunidade, os espaços de participação social e os movimentos de defesa de direitos.

Anderson também tinha atuação ligada à liberdade religiosa. Era militante da ONTUC — Ordem Nacional dos Templos de Umbanda e Candomblé — e havia planejado, junto com a ComCausa, ações de enfrentamento à intolerância religiosa na Baixada Fluminense. Sua militância dialogava diretamente com uma das feridas históricas do Brasil: o racismo religioso contra religiões de matriz africana, que atinge terreiros, lideranças religiosas, praticantes, famílias e comunidades inteiras.

A morte de Anderson Soró, portanto, não pode ser lembrada apenas como mais um episódio de violência urbana. Ela precisa ser compreendida dentro de um cenário mais amplo de violação de direitos, silenciamento de lideranças populares e vulnerabilidade de pessoas que se colocam publicamente em defesa da comunidade, da educação, da segurança cidadã e da liberdade religiosa.

Segundo informações divulgadas à época, pelo menos seis suspeitos teriam participado do assassinato. Três veículos teriam sido utilizados na ação criminosa. Um dos carros, apontado como roubado, foi posteriormente localizado por agentes no bairro da Posse, próximo ao local do crime.

Nos dias seguintes, policiais civis da 56ª DP, de Comendador Soares, cumpriram mandado de prisão expedido pela 2ª Vara Criminal de Nova Iguaçu contra Daniel de Sá Lima, acusado de tráfico de drogas. Ele foi preso na Rua Luiz de Lemos, após informações recebidas pelos agentes sobre sua presença na região. De acordo com a polícia, Daniel também era suspeito de envolvimento no assassinato de Anderson Soró.

Passados dez anos, o caso segue como uma lembrança dolorosa e uma cobrança necessária. Quando uma liderança comunitária, um educador e um militante de direitos é assassinado, a violência não atinge apenas uma pessoa. Ela atinge uma família, uma escola, uma comunidade, uma rede de atuação social e todos aqueles que acreditavam na possibilidade de construir respostas coletivas para os problemas do território.

A morte de José Carlos “Shaolin” também precisa ser lembrada. Seu nome não deve aparecer apenas como dado secundário de uma ocorrência. Ele foi vítima da mesma ação criminosa e sua memória também integra este marco de dez anos. Lembrar Anderson Soró e José Carlos Shaolin é reconhecer que cada vida interrompida pela violência carrega histórias, vínculos, afetos e ausências que permanecem.

Neste contexto, a ComCausa reafirma a importância da memória como instrumento de justiça. Não se trata apenas de recordar uma data, mas de impedir que a violência apague trajetórias. A memória pública é uma forma de resistência contra o esquecimento, especialmente em territórios onde muitos casos de homicídio, desaparecimento, violência política, racismo religioso e violações de direitos acabam naturalizados ou invisibilizados.

Acolher da ComCausa

É nesse sentido que o Programa Acolher, da ComCausa, tem seu papel. O Acolher nasce da necessidade de apoiar familiares de vítimas da violência letal, de desaparecimentos e de violações históricas do Estado brasileiro. Mais do que um projeto, o Acolher representa uma metodologia de cuidado, escuta, orientação, articulação institucional, preservação da memória e luta por justiça.

Ao longo dos anos, o Acolher se consolidou como uma frente de apoio às famílias que enfrentam a dor da perda, a dificuldade de acesso à informação, a lentidão dos processos, a ausência de respostas institucionais e o abandono que muitas vezes recai sobre vítimas e familiares depois da repercussão inicial dos casos. A proposta do programa é atuar onde o Estado frequentemente falha: no cuidado com quem ficou, na organização das informações, na cobrança por providências e na construção de redes de solidariedade.

No caso de Anderson Soró e José Carlos Shaolin, o marco de dez anos também precisa ser compreendido como parte dessa missão. A ComCausa, por meio do Acolher, entende que famílias e comunidades atingidas pela violência não precisam apenas de homenagens pontuais. Precisam de acompanhamento, reconhecimento, memória, escuta qualificada, orientação e espaços de denúncia. Precisam que seus mortos não sejam reduzidos a estatísticas e que suas histórias não desapareçam dos registros públicos.

O Acolher também contribui para transformar a dor em ação coletiva. Ao apoiar famílias de vítimas da violência, a ComCausa fortalece a luta por políticas públicas de prevenção, por investigações responsáveis, por transparência, por reparação e por uma cultura de direitos humanos. Cada caso acompanhado revela a urgência de enfrentar a violência letal não como fatalidade, mas como resultado de desigualdades históricas, omissões institucionais e estruturas que tornam determinados corpos e territórios mais vulneráveis.

A lembrança de Anderson Soró dialoga diretamente com essa perspectiva. Ele atuava na educação, na comunidade, na segurança cidadã e na defesa da liberdade religiosa. Sua vida expressava o tipo de liderança que a Baixada Fluminense produz apesar das adversidades: pessoas que organizam, articulam, acolhem, denunciam e constroem caminhos de participação. Sua morte, por outro lado, revela o risco enfrentado por quem assume esse lugar público em territórios marcados por violência e disputas de poder.

Dez anos depois, é necessário perguntar: quais respostas foram dadas? O que foi esclarecido?

Que medidas foram tomadas para proteger lideranças comunitárias, educadores, religiosos de matriz africana e defensores de direitos humanos? Que políticas foram construídas para impedir que crimes semelhantes se repitam? Que memória pública Nova Iguaçu e a Baixada Fluminense têm preservado sobre suas lideranças assassinadas?

Essas perguntas precisam permanecer vivas. Elas não pertencem apenas aos familiares ou às organizações de direitos humanos. Pertencem à sociedade. Quando uma comunidade perde uma liderança como Anderson Soró, perde também parte de sua capacidade de organização, representação e esperança. Quando casos como esse caem no esquecimento, a violência ganha uma segunda vitória: além de tirar a vida, apaga a história.

Por isso, neste marco de dez anos, a ComCausa reafirma seu compromisso com a memória de Anderson Soró e José Carlos “Shaolin”, com o apoio às famílias de vítimas da violência e com a luta contra a intolerância religiosa, o racismo religioso, a violência política e a naturalização das mortes nas periferias.

Lembrar Anderson Soró é lembrar o educador, o pai, o diretor escolar, o militante, o integrante do Conselho Comunitário de Segurança, o defensor da liberdade religiosa e a liderança comunitária que buscava construir ações concretas para a Baixada Fluminense.

Lembrar José Carlos Shaolin é afirmar que sua vida também importa, que sua morte não pode ser tratada como nota lateral e que sua memória integra a luta por justiça.

A ComCausa, através do Programa Acolher, segue defendendo que nenhuma família deve enfrentar sozinha as consequências da violência. Acolher é escutar. Acolher é orientar. Acolher é preservar a memória. Acolher é cobrar justiça. Acolher é transformar luto em luta e ausência em compromisso público.

Dez anos depois, Anderson Soró e José Carlos Shaolin seguem presentes na memória daqueles que não aceitam o esquecimento como destino.

Memória é justiça.

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