A noite de violência que se transformou em resistência: 50 anos do sequestro de Dom Adriano

Dom Adriano Hypólito

Bispo de Nova Iguaçu foi sequestrado na noite de 22 de setembro de 1976, agredido, despido, pintado de vermelho e abandonado em Jacarepaguá. Seu Fusca foi levado até a sede da CNBB, no Rio, e destruído por uma explosão. Cinco décadas depois, documentos da Comissão Nacional da Verdade, arquivos da Diocese, jornais e pesquisas acadêmicas permitem reconstruir o episódio, as perseguições que vieram depois e a trajetória de uma das principais referências históricas dos direitos humanos na Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

Por volta das 19h de uma quarta-feira, 22 de setembro de 1976, Dom Adriano Mandarino Hypólito seguia de carro por Nova Iguaçu quando sua rotina foi interrompida por uma ação que ganharia repercussão nacional e internacional. O bispo tinha 58 anos e estava havia uma década à frente da Diocese de Nova Iguaçu. Naquela noite, seria sequestrado, espancado, submetido a humilhações, abandonado nu e amarrado em Jacarepaguá e teria seu automóvel destruído por uma bomba nas proximidades da sede da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a CNBB, na Glória.

Exatos 50 anos depois, a documentação disponível permite reconstruir o episódio com detalhes que vão muito além das imagens mais conhecidas dos jornais da época. O relato do próprio Dom Adriano foi incorporado ao relatório da Comissão Nacional da Verdade (CNV), enquanto o Centro de Documentação e Imagem da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro preserva um extenso conjunto de fontes produzidas pela Diocese de Nova Iguaçu, com reportagens, fotografias, cartas, manifestações de solidariedade e documentação sobre os atentados que se seguiram.

O sequestro não foi um fato isolado. Ele ocorreu em um período em que a Igreja de Nova Iguaçu havia ampliado sua atuação comunitária, a formação de lideranças e o debate sobre condições de vida da população. Documentos dos órgãos de informação demonstram que a Diocese, suas publicações e o próprio bispo eram acompanhados pelo aparato de repressão. A CNV relacionou diretamente a perseguição sofrida por Dom Adriano à sua atuação junto aos trabalhadores e movimentos de bairros.

O carro foi fechado quando chegava à Posse

A reconstrução mais detalhada do início do sequestro aparece em reportagens da época posteriormente analisadas por pesquisadores.

Dom Adriano estava acompanhado de Fernando Leal, seu sobrinho, e de Pilar, noiva de Fernando. O grupo seguia para a residência dela, na Rua Paraguaçu, no bairro da Posse. Uma reportagem de O Dia, reproduzida em pesquisa acadêmica, informou que o Fusca dirigido por Fernando foi fechado por dois veículos — um Volkswagen vermelho e um Chevrolet antigo. Homens retiraram Dom Adriano do automóvel e o colocaram em outro carro. O jornal registrou inclusive a placa do Fusca do bispo: RJ-7591.

A Diocese, ao recordar o cinquentenário neste 22 de setembro de 2026, situa o sequestro por volta das 19h e confirma que o ataque ocorreu quando eles chegavam à Rua Paraguaçu para deixar Pilar em casa.

O relato transcrito pela Comissão Nacional da Verdade acrescenta uma informação importante sobre Fernando. Durante as agressões, Dom Adriano afirmou ter ouvido sua voz e ter a impressão de que também batiam nele. O bispo chegou a pedir aos sequestradores que deixassem o rapaz em paz.

A partir daquele momento, Dom Adriano deixou de saber exatamente onde estava. Foi encapuzado e algemado.

O depoimento de Dom Adriano revela o que aconteceu durante o sequestro

O relato pessoal do bispo, preservado e reproduzido pela Comissão Nacional da Verdade, permite acompanhar parte das horas seguintes. Segundo Dom Adriano, os sequestradores retiraram completamente suas roupas. Em seguida, tentaram colocar em sua boca o gargalo de uma garrafa de cachaça. Diante de sua resistência, despejaram a bebida sobre o capuz que cobria seu rosto. O bispo contou ter sentido dificuldade para respirar e acreditado que poderia perder os sentidos.

Deitado no chão, continuou a ouvir insultos e acusações de comunismo. Em seu depoimento, Dom Adriano disse que um dos sequestradores identificou o grupo como uma organização “anticomunista brasileira”, embora o próprio bispo tenha registrado que não se recordava se o primeiro termo utilizado havia sido “Ação”, “Aliança” ou “Comando”. Essa ressalva é importante porque impede tratar a identificação verbal do grupo como uma prova conclusiva de autoria.

Durante a agressão, Dom Adriano respondeu:

“Nunca fui, não sou, nem serei comunista. O que fiz foi sempre defender o povo.”

O relato continua com pontapés e a aplicação de uma substância em spray sobre seu corpo. O bispo descreveu um cheiro forte e disse inicialmente ter imaginado que seria queimado. A Comissão Nacional da Verdade registra que ele foi coberto por mercúrio-cromo, que deixou sua pele vermelha.

Em determinado momento, ouviu dos agressores que havia uma ordem superior para que não fosse morto:

“O chefe deu ordem para não matar.”

A sessão de agressões naquele local teria durado aproximadamente 30 a 40 minutos, de acordo com o próprio Dom Adriano. Depois disso, ele foi novamente colocado no banco traseiro de um automóvel, ainda nu, encapuzado e algemado. Partes do que acreditava ser sua batina foram colocadas sobre seu corpo.

O carro voltou a circular.

“Em que bairro de Nova Iguaçu a gente está?”

Quando finalmente foi abandonado, Dom Adriano ainda não sabia até onde havia sido levado.

Seu depoimento situa esse momento por volta das 21h45. Deixado nu e amarrado em uma calçada, tentou soltar as cordas, sem conseguir. Algumas pessoas se aproximaram. Ainda desorientado, perguntou em qual bairro de Nova Iguaçu estava.

A resposta revelou a distância percorrida: Jacarepaguá, na cidade do Rio de Janeiro.

Uma reportagem preservada no acervo da UFRRJ situa o encontro na região da Rua Japurá, em Jacarepaguá, e registra a participação do fotógrafo Adyr Mera entre as pessoas que encontraram e auxiliaram o bispo.

A viagem entre Nova Iguaçu e Jacarepaguá, as agressões, as voltas de carro e o estado de desorientação ajudam a dimensionar uma ação planejada para produzir não apenas violência física, mas também medo e humilhação.

E ainda faltava uma segunda parte.

O Fusca apareceu diante da CNBB

Enquanto Dom Adriano era encontrado em Jacarepaguá, o Fusca utilizado naquela noite seguia outro caminho.

O automóvel foi levado até o Largo da Glória, na cidade do Rio de Janeiro, nas proximidades da sede da CNBB. Ali, foi destruído por uma explosão. A documentação da UFRRJ confirma tanto o destino do veículo quanto a repercussão nacional e internacional do caso.

Fotografias publicadas na época mostram o carro praticamente destruído e cercado por policiais e curiosos. A localização ampliou imediatamente a dimensão do ataque: além do bispo de Nova Iguaçu, a mensagem de intimidação chegava ao entorno da instituição representativa dos bispos católicos brasileiros. Essa interpretação também aparece na reconstrução feita pela própria Diocese em 2026.

No dia seguinte, o episódio estava nos principais jornais.

E nem toda a cobertura pôde chegar ao público.

A Memória Globo registra que um bloco inteiro do Jornal Nacional de 23 de setembro de 1976, dedicado ao sequestro e à explosão do automóvel, foi censurado e não pôde ser exibido. Na mesma madrugada, uma bomba explodiu na residência de Roberto Marinho, então presidente das Organizações Globo, no Cosme Velho.

O ataque contra Dom Adriano ocorreu, portanto, dentro de um ambiente nacional mais amplo de atentados praticados por grupos clandestinos anticomunistas. Em agosto daquele ano, a Associação Brasileira de Imprensa e a Ordem dos Advogados do Brasil também haviam sido alvos. O governo de Ernesto Geisel falava em uma “distensão lenta, gradual e segura”, mas a repressão política continuava e setores contrários à abertura realizavam ações violentas.

Quem sequestrou Dom Adriano?

A pergunta nunca recebeu uma resposta judicial definitiva.

É preciso separar as diferentes camadas documentais.

No próprio depoimento, Dom Adriano contou que os agressores se apresentaram como integrantes de uma organização anticomunista, sem que ele conseguisse recordar com segurança o nome completo. Naquele período, a Aliança Anticomunista Brasileira (AAB) assumiu a responsabilidade por diferentes atentados, mas as autoridades não identificaram judicialmente seus integrantes em relação ao sequestro de Dom Adriano.

Décadas depois, a Comissão Nacional da Verdade incluiu outro elemento.

O relatório registra depoimento do coronel reformado Paulo Malhães, que havia integrado estruturas de inteligência e admitiu participação em torturas durante a ditadura. Questionado pela Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro sobre a acusação de que o então capitão José de Ribamar Zamith teria sido responsável pelo sequestro de Dom Adriano, Malhães respondeu inicialmente que poderia ter sido e, em seguida, afirmou que teria sido ele.

Também existiram acusações anteriores. O Atlas Histórico da FGV registra que o jornal Movimento publicou uma matéria identificando Zamith como chefe da operação a partir de informações provenientes do meio militar, mas ressalta que os responsáveis permaneceram oficialmente desconhecidos.

Em 1979, uma reportagem preservada nos arquivos históricos voltou a relatar a alegação de que uma investigação interna do I Exército teria apontado militares e indicado Zamith como autor intelectual. Essa informação apareceu na imprensa, mas não resultou em processo ou condenação judicial.

Assim, passados 50 anos, a formulação historicamente mais precisa continua sendo: existem documentos, depoimentos e investigações jornalísticas que relacionaram o sequestro a setores militares e grupos anticomunistas clandestinos, mas nenhum responsável foi condenado pelo crime. A própria Diocese registra que o episódio jamais produziu responsabilização de seus autores.

Quem era Dom Adriano antes de Nova Iguaçu

A história que levou Dom Adriano àquela noite de 1976 havia começado décadas antes.

Nascido em 18 de janeiro de 1918, em Aracaju, Sergipe, recebeu no batismo o nome de Fernando Polito. Ingressou na formação franciscana e foi ordenado sacerdote em outubro de 1942, na Igreja de São Francisco, em Salvador. Trabalhou como professor de Português e Música no Colégio Seráfico de Santo Antônio, em Ipuarana, na Paraíba. Entre o final dos anos 1940 e a década seguinte, também passou um período na Europa, dedicado a estudos de Língua Portuguesa e História.

Em 1962, foi nomeado bispo auxiliar de Salvador pelo papa João XXIII. Participou das sessões do Concílio Vaticano II realizadas em 1963, 1964 e 1965, experiência que teria influência importante sobre sua posterior atuação pastoral. Em 1966, o papa Paulo VI o designou para assumir a Diocese de Nova Iguaçu.

A Diocese era nova. Havia sido criada apenas em 26 de março de 1960 e inicialmente abrangia, além de Nova Iguaçu, Itaguaí, Mangaratiba, Nilópolis, Paracambi, São João de Meriti e o distrito de Conrado, em Vassouras. Apenas posteriormente parte desse território daria origem a outras dioceses.

Dom Adriano encontrou uma região em rápido crescimento urbano e populacional, mas com grandes carências em saneamento, saúde, educação, transporte, moradia e infraestrutura. Pesquisas acadêmicas sobre a Igreja Católica na Região Metropolitana do Rio de Janeiro descrevem justamente essa combinação de expansão demográfica, desigualdades e violência como parte central do ambiente no qual a Diocese desenvolveu sua atuação.

Décadas depois, o próprio bispo resumiria o impacto daquele encontro com uma frase repetida em seus textos:

“Os pobres me converteram.”

Em texto de 1990, Dom Adriano explicou que a convivência com a população empobrecida havia lhe permitido uma leitura mais profunda do Evangelho e afirmou que preferia atualizar a frase dizendo que os pobres o mantinham em permanente processo de conversão.

Formação de lideranças passou a ocupar lugar central

Uma das marcas daquele episcopado foi o investimento na formação comunitária.

Em 1967, a Diocese adquiriu uma área no Moquetá destinada à implantação de um espaço de formação. Uma primeira etapa foi inaugurada em 1968. Depois de anos de obras, o Centro de Formação de Líderes — Cenfor foi oficialmente inaugurado em 21 de julho de 1973.

A imprensa local daquele ano descreveu a iniciativa como destinada a cursos e conferências para preparação de lideranças comunitárias de qualquer religião. O Cenfor possuía alojamentos, cozinha, refeitório e espaços de encontro.

O local viria a se tornar um dos principais espaços de formação da Diocese e, simultaneamente, um ponto de observação e tensão com os órgãos de segurança.

As Comunidades Eclesiais de Base também ganharam importância. Nelas, questões religiosas passaram a conviver com debates sobre transporte, saneamento, trabalho, desemprego, moradia, alimentação, saúde e violência. Pesquisas relacionam esse ambiente ao fortalecimento posterior das associações de moradores e de movimentos comunitários, sem reduzir esses movimentos à direção da Igreja.

A imprensa da Diocese também passou a ser monitorada

Outro componente dessa história foi a comunicação.

Entre as publicações da Diocese estava A Folha, semanário litúrgico distribuído nas igrejas. Pesquisa publicada na SciELO informa que o jornal circulou entre 1972 e 1993, partindo de uma tiragem inicial de cerca de 3 mil exemplares e chegando, em determinados momentos, a aproximadamente 60 mil cópias. Além dos textos litúrgicos, passou a abordar problemas sociais e desigualdades da região.

Os órgãos de repressão acompanharam essa produção. Pesquisadores localizaram relatórios do Serviço Nacional de Informações (SNI) e do Dops sobre A Folha e sobre a atuação da Diocese.

Um episódio especialmente revelador ocorreu em 29 de maio de 1977, quando fiéis chegaram às igrejas e encontraram duas versões visualmente semelhantes de A Folha. Uma delas era falsificada.

Segundo a pesquisa, a edição apócrifa reproduzia a diagramação, as cores e outros elementos gráficos do jornal original, mas possuía dez páginas, contra as quatro da publicação verdadeira. O material falsificado trazia um texto do arcebispo conservador Dom Geraldo de Proença Sigaud sobre suposta infiltração comunista na Igreja brasileira.

O episódio demonstra que a disputa contra a Diocese não ocorreu apenas por meio de violência física. Também envolveu vigilância, circulação de informações e estratégias destinadas a associar setores da Igreja ao comunismo.

Onze dias depois do sequestro, Dom Adriano voltou à Catedral

Em 3 de outubro de 1976, apenas onze dias depois do sequestro, Dom Adriano reapareceu publicamente numa grande concelebração de desagravo realizada na Catedral de Santo Antônio de Jacutinga.

Em vez de anunciar sua saída da região, falou em continuidade.

“Daí porque, meus irmãos, nós devemos continuar.”

No mesmo sermão, reafirmou sua ligação com Nova Iguaçu:

“Eu peço a Deus pra morrer aqui, servir sempre aqui.”

A Diocese registra que pessoas próximas chegaram a aconselhá-lo a deixar a região diante da gravidade das ameaças. Ele permaneceu.

O bispo também procurou apresentar a resposta como uma posição coletiva da comunidade, e não como reação individual ao que havia sofrido. A mensagem daquele outubro de 1976 reapareceria diversas vezes nas décadas seguintes como referência da memória diocesana.

As ameaças continuaram

O sequestro não encerrou a perseguição.

Fontes da Diocese e pesquisas históricas registram a interrupção, por homens armados, de uma atividade sobre direitos humanos no Centro de Formação de Líderes, no Moquetá. A cronologia apresentada pelas fontes não é totalmente uniforme: a matéria comemorativa publicada pela Diocese em 2026 situa o episódio em junho de 1977, enquanto outras reconstruções o relacionam ao período anterior ao sequestro. O fato documentado em diferentes fontes é que uma atividade de direitos humanos no Cenfor foi impedida em meio a forte aparato armado.

Em 12 de fevereiro de 1978, a Diocese colocou formalmente em funcionamento a Comissão Diocesana de Justiça e Paz, que passaria a atuar em denúncias de violações, conflitos relacionados à moradia e à terra e defesa de direitos.

O monitoramento também continuou. Documentação diocesana relata que, em março de 1978, Dom Adriano foi seguido em deslocamentos dentro da Diocese e em visitas a outros bispos e teria sido observado inclusive por helicóptero durante uma conferência para o clero de Volta Redonda. Em abril, recebeu novas ameaças de sequestro.

Em 1979, igrejas foram pichadas

Três anos depois do sequestro, a escalada de intimidações tornou-se novamente visível nos espaços religiosos.

Na madrugada de 8 para 9 de novembro de 1979, igrejas da Diocese amanheceram pichadas com acusações contra Dom Adriano e sua linha pastoral. Os registros mencionam a Catedral, Santo Antônio da Prata e Santa Rita. Entre as inscrições recuperadas por documentos e pesquisas estavam referências ao PCB e acusações de que o bispo seria comunista.

Telefonemas anônimos também anunciavam que Dom Adriano poderia sofrer um castigo mais grave do que o sequestro de 1976.

Pouco mais de um mês depois, a ameaça deixou de ser apenas verbal.

Uma bomba explodiu dentro da Catedral às 11h

Às 11 horas da manhã de 20 de dezembro de 1979, uma bomba explodiu na Catedral de Santo Antônio de Jacutinga, no Centro de Nova Iguaçu.

O relato contemporâneo publicado posteriormente pelo jornal diocesano A Folha informa que o explosivo foi colocado debaixo do altar provisório do Santíssimo Sacramento, em uma das naves laterais. A explosão teria sido ouvida a até dois quilômetros de distância.

O sacrário foi totalmente destruído, assim como as âmbulas que guardavam as hóstias consagradas. A explosão espalhou estilhaços e atingiu outras partes da igreja.

Um comunicado emitido pelo próprio presbitério de Nova Iguaçu naquela data acrescentou outro elemento: segundo o documento, uma carta deixada junto ao local atribuía a responsabilidade pelo atentado à Vanguarda de Caça aos Comunistas (VCC).

Fontes posteriores registram feridos leves entre trabalhadores que estavam na Catedral, embora haja divergência sobre o número exato. Não houve mortes.

A data do atentado está confirmada tanto pelo acervo da UFRRJ quanto pelo próprio periódico da Diocese: 20 de dezembro de 1979. Isso é relevante porque uma passagem do relatório da CNV apresenta uma inconsistência cronológica ao mencionar 1980 em trecho relacionado às pichações; os documentos originais da Diocese e o repositório da UFRRJ situam inequivocamente a explosão em dezembro de 1979.

Na mesma noite, outra igreja foi atingida em Mesquita

Há um detalhe menos conhecido na documentação daquele 20 de dezembro.

No mesmo comunicado em que tratou da explosão na Catedral, o presbitério registrou que, às 22h30 daquela noite, outra bomba explodiu nas dependências da Igreja Matriz Nossa Senhora das Graças, em Mesquita, então ainda integrante do município de Nova Iguaçu.

Assim, a violência daquele dia não ficou restrita à Catedral.

O documento demonstra que, em poucas horas, duas igrejas ligadas à Diocese foram atingidas por explosões.

As igrejas fecharam e 10 mil pessoas foram às ruas

A resposta da Diocese foi imediata.

O presbitério decidiu que as igrejas permaneceriam fechadas no domingo, 23 de dezembro, em sinal de protesto. Para o dia seguinte, 24 de dezembro, programou uma jornada de adoração na Catedral, das 6h às 22h. Também convocou uma grande procissão para 30 de dezembro, saindo da Catedral às 15h.

A procissão reuniu, segundo pesquisas históricas baseadas nos documentos da época, cerca de 10 mil pessoas, além de representantes de entidades como CNBB, OAB e organizações da sociedade civil.

A mobilização transformou o atentado em mais um episódio de grande repercussão para além de Nova Iguaçu.

Da Comissão de Justiça e Paz ao Centro dos Direitos Humanos

A defesa de direitos humanos ganhou, ao longo dos anos seguintes, uma estrutura cada vez mais institucionalizada.

A Comissão de Justiça e Paz continuou acompanhando conflitos, ameaças e violações. Já em 1993, Dom Adriano participou da criação do Centro dos Direitos Humanos de Nova Iguaçu, concebido como continuidade desse trabalho. A entidade permanece em funcionamento e mantém a memória do bispo também por meio da Medalha Dom Adriano Hypólito de Direitos Humanos.

Dom Adriano renunciou ao governo da Diocese em 9 de novembro de 1994, depois de cerca de 28 anos de episcopado em Nova Iguaçu. Há registros institucionais que apresentam o período como 1966-1994 e outros como 1966-1995, em razão da transição para seu sucessor; a data de sua renúncia em 1994 está registrada nas pesquisas sobre sua trajetória.

Morreu em 10 de agosto de 1996, aos 78 anos.

Por isso, 2026 reúne duas efemérides: 30 anos de sua morte, completados em agosto, e 50 anos de seu sequestro, neste 22 de setembro.

Um memorial foi inaugurado um ano após sua morte

A preservação material dessa memória começou cedo.

Em 9 de agosto de 1997, no primeiro aniversário da morte do bispo, a Diocese inaugurou o Memorial Dom Adriano, instalado na cripta da Catedral de Santo Antônio de Jacutinga. O espaço reuniu objetos pessoais, fotografias e registros de sua trajetória. Na mesma data, a antiga Rua Aimorés, no Moquetá, próxima ao Cenfor, recebeu o nome de Rua Dom Adriano Mandarino Hypólito.

A iniciativa tornou a memória do bispo parte também da paisagem urbana de Nova Iguaçu.

Um acervo com 13 pastas preserva o período

Hoje, pesquisadores não dependem apenas das memórias de quem viveu aqueles anos.

O Dossiê Dom Adriano Mandarino Hypólito, mantido no Repositório de Múltiplos Acervos da UFRRJ, é descrito pela universidade como um conjunto de 13 pastas documentais relacionadas ao período do episcopado de Dom Adriano.

O acervo inclui notícias sobre o sequestro, mensagens de solidariedade, correspondências internacionais, fotografias, documentação sobre atentados à pastoral e três grandes conjuntos relacionados às mensagens recebidas depois da explosão da bomba na Catedral.

Há ainda coleções específicas de reportagens dos jornais do Rio de Janeiro publicadas em 1976 e 1977, permitindo acompanhar como o caso foi noticiado praticamente desde as primeiras horas.

As correspondências demonstram que a repercussão ultrapassou o Brasil. O dossiê contém mensagens internacionais relacionadas ao sequestro, às pichações nas igrejas e à explosão da Catedral.

A importância do material vai além da trajetória individual do bispo. Ele permite compreender como a repressão política chegou aos bairros, às igrejas, às organizações comunitárias e às formas de comunicação existentes na Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

Cinquenta anos depois

Em 1976, a primeira preocupação era localizar Dom Adriano.

Em seguida vieram perguntas sobre quem havia organizado o sequestro, por que seu automóvel fora explodido diante da CNBB e quais setores estavam envolvidos na sequência de ataques.

Parte dessas perguntas permanece sem resposta judicial.

Mas a documentação acumulada ao longo de meio século permitiu estabelecer um quadro muito mais amplo: a vigilância sobre a Diocese, a atuação dos órgãos de informação, os ataques físicos, a falsificação de publicações, as ameaças, as pichações, o atentado contra a Catedral e a resposta comunitária a esses episódios.

Também permitiu recuperar outro aspecto daquela história: o trabalho que continuou depois da violência.

O Cenfor permaneceu formando lideranças. A Comissão de Justiça e Paz foi implantada. O Centro dos Direitos Humanos de Nova Iguaçu foi criado. Os arquivos foram preservados. O memorial foi inaugurado. Pesquisas acadêmicas passaram a utilizar esses documentos.

E as palavras pronunciadas por Dom Adriano poucos dias após o sequestro atravessaram cinco décadas:

“Nós devemos continuar.”

ComCausa mantém Dom Adriano entre suas referências de memória e direitos humanos

A trajetória também integra, há anos, as iniciativas de memória desenvolvidas pela ComCausa – Defesa da Vida.

O portfólio institucional da organização registra formalmente o Memorial Dom Adriano como projeto dedicado à preservação e ao reconhecimento da trajetória do bispo, ao lado do Circuito Direito à Memória e História, que reuniu debates, cineclubes, exposição sobre a ditadura e participação na criação do Comitê Memória e Verdade da Baixada entre 2012 e 2015.

A relação é anterior à atual efeméride. A história institucional da ComCausa registra uma edição especial do Café no Ponto dedicada a Dom Adriano, que reuniu mais de 200 pessoas, entre representantes de movimentos sociais e participantes de diferentes municípios.

Em 2017, às vésperas do centenário de nascimento do bispo, a ComCausa realizou uma moção póstuma em sua homenagem durante uma atividade de formação da Pastoral da Juventude em Japeri. Alexandre Paiva e Adriano Dias representaram a organização, e a homenagem foi recebida por João Oscar e Arthur Oliveira, então coordenadores diocesanos da Pastoral da Juventude.

No centenário, em 2018, a instituição colocou no ar um memorial digital dedicado a reunir fotografias, documentos, vídeos, depoimentos, bibliografia e registros históricos. A iniciativa foi posteriormente retomada e integrada às ações de memória da RedeDH e da Rede Virtual pela Cultura de Direitos.

Agora, nos 50 anos do sequestro, a ComCausa volta a colocar essa história no centro de sua agenda de memória. Não apenas para lembrar a violência sofrida em 22 de setembro de 1976, mas para recuperar a trajetória que veio antes e depois dela — comunidades organizadas, comunicação popular, formação de lideranças, defesa de direitos e preservação documental.

Meio século depois, a história de Dom Adriano permanece ligada à história de Nova Iguaçu e da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. E a documentação hoje disponível permite que o aniversário não seja apenas uma homenagem, mas uma oportunidade de conhecer, pesquisar e transmitir às novas gerações acontecimentos que deixaram marcas profundas na construção regional dos direitos humanos.

Leia também

Comitê da ONU defende reparação a descendentes de africanos escravizados

Fale conosco! | Nos conheça

Projeto Comunicando ComCausa

Portal C3 | Instagram C3 Oficial

______________________

Colabore com nosso projeto pix.comcausa@gmail.com

Pix ComCausa

______________________

Compartilhe: