Baixada sob cerco e metrópole em guerra

Baixada Fluminense

Na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, especialmente na Baixada Fluminense, a violência armada deixou de ser uma exceção e passou a moldar o cotidiano. De junho de 2023 a maio de 2025, os moradores da Baixada viveram sob o som recorrente de rajadas de fuzil, helicópteros blindados e operações que desrespeitam os limites entre combate ao crime e agressão à cidadania.

O Estado entra, atira e recua — mas os corpos ficam. Entre 6.496 tiroteios registrados no biênio, uma parte significativa ocorreu nos municípios da Baixada, como Duque de Caxias, Nova Iguaçu, Belford Roxo, São João de Meriti e Queimados, regiões que concentram alta densidade populacional e baixos índices de presença estatal fora da lógica militarizada.

Os números da guerra

De acordo com o Instituto Fogo Cruzado, entre 2023 e 2025, foram 6.496 tiroteios na Região Metropolitana do Rio, com pelo menos 1.300 mortos e 1.220 feridos. Somente entre janeiro e maio de 2025, foram 1.011 tiroteios, média de 6,6 por dia, com 338 mortos e 341 feridos. A participação das forças policiais segue crescendo: 36% dos confrontos em 2024 foram durante operações — número que subiu para 44% em 2025.

Na Baixada Fluminense, bairros periféricos concentram boa parte desses episódios. Essas áreas estão situadas próximas a rotas estratégicas como Via Dutra, Estrada de Madureira, Arco Metropolitano e Rodovia Washington Luiz, que facilitam o fluxo de armas, drogas e extorsão, tornando a região alvo constante de disputas entre facções e milícias.

Escolas e unidades de saúde em colapso na Baixada

A Baixada Fluminense figura entre as regiões mais atingidas pela interrupção de serviços públicos essenciais em decorrência da violência armada. Somente em 2024, mais de 500 escolas públicas da região precisaram suspender suas atividades por conta de tiroteios nas imediações, com destaque para os municípios de Belford Roxo, Nova Iguaçu e Duque de Caxias, que concentraram a maior parte das ocorrências.

A rotina escolar foi comprometida em dezenas de unidades, obrigando professores e alunos a lidar com o risco constante do fogo cruzado, atrasos no calendário letivo e o trauma de conviver com a insegurança. No mesmo período, mais de 300 unidades de saúde da Baixada também tiveram seus atendimentos interrompidos ou transferidos por motivos de segurança, afetando principalmente postos de atenção básica e clínicas da família localizadas em áreas periféricas, onde a presença do Estado é mais frágil e a atuação de grupos armados, mais frequente.

Além disso, a vitimização de crianças na região expõe de forma dramática a dimensão do problema: das 26 crianças baleadas em toda a Região Metropolitana em 2024, ao menos 10 casos ocorreram na Baixada Fluminense. A maioria das vítimas foi atingida em confrontos entre milicianos e facções rivais, muitas vezes em horários de entrada ou saída das escolas, revelando o grau de exposição da infância ao cenário de guerra urbana que se impôs sobre o território.

Vias estratégicas da Baixada: tiroteios à luz do dia

Além da violência dentro das comunidades, as principais vias que cortam a Baixada — como a Avenida Brasil, a Via Light, a Rodovia Presidente Dutra e o Arco Metropolitano — tornaram-se corredores de fogo. Desde 2024, pelo menos 30 tiroteios ocorreram em trechos da Avenida Brasil entre Coelho Neto, Pavuna e Campos Elíseos. O bloqueio da via em 31 de janeiro de 2025, na altura da Cidade Alta, paralisou o trânsito da Zona Norte ao coração da Baixada, com 2 mortos e 4 feridos em meio ao confronto.

O colapso da mobilidade tem repercussões diretas: trabalhadores perdem o expediente, ambulâncias ficam retidas e famílias não conseguem acessar hospitais de emergência como o Hospital Geral de Nova Iguaçu (HGNI), referência para casos de trauma.

Disputas territoriais e avanço das milícias

A expansão do controle armado na Baixada é um dos fenômenos mais preocupantes do período analisado. Com a retomada de áreas antes dominadas por facções e o avanço das milícias em regiões como Seropédica, Japeri, Itaguaí e Paracambi, a fragmentação do território favorece tiroteios prolongados, cobranças ilegais, execuções sumárias e o aumento da letalidade policial.

Em maio de 2025, 177 confrontos foram registrados na Região Metropolitana por conta de disputas entre TCP e CV. Destes, mais de 40 ocorreram em municípios da Baixada, sobretudo nas divisas entre Nova Iguaçu, Queimados e São João de Meriti.

O abandono que mata: corte de políticas sociais

A violência na Baixada é alimentada pela ausência histórica de políticas públicas estruturantes. Dados da Alerj mostram que, entre 2022 e 2024, o governo estadual reduziu em 42% os investimentos em programas sociais voltados à juventude em áreas de risco, atingindo duramente os municípios da Baixada. Projetos de esporte, cultura, educação e profissionalização foram encerrados ou esvaziados. A consequência direta é a ampliação do recrutamento de adolescentes por organizações criminosas.

Conclusão: a Baixada em estado de emergência permanente

O biênio 2023-2025 deixa uma mensagem clara: a Baixada Fluminense segue sendo um dos epicentros mais ignorados e violentados da crise de segurança no Rio de Janeiro. Admitimos que é repetição de discurso, mas sem “políticas públicas integradas, com inteligência, prevenção e garantia de direitos”, a Baixada continuará sendo tratada como zona de sacrifício. Enquanto isso, a população segue resistindo — sob fogo cruzado.

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