Barricada Zero: prefeituras vão fiscalizar se barreiras serão refeitas pelo tráfico

Favela do Lixão - Duque de Caxias

A Região Metropolitana do Rio de Janeiro prepara uma ação integrada de grande escala para enfrentar um fenômeno que, há mais de vinte anos, redefine a geografia social e a mobilidade de milhões de pessoas: as barricadas erguidas por facções criminosas e milícias. São estruturas improvisadas — montes de entulho, trilhos de trem, portões metálicos fixados ao chão, cimento endurecido, pedras, troncos, ferro, concreto e até “paredes” construídas com restos de obras — utilizadas para restringir o acesso a ruas, controlar rotas internas e impor fronteiras invisíveis que delimitam territórios dominados.

A diretriz Barricada Zero, anunciada por prefeituras da capital e da Baixada Fluminense, surge como a tentativa mais articulada das últimas décadas para desmontar esse sistema de controle territorial. O plano, que deve ser finalizado até esta quarta-feira, prevê ações já na próxima semana e combina mapeamento minucioso, remoção mecanizada, monitoramento digital e equipes de pronta-resposta capazes de retornar às ruas em poucas horas para impedir que os bloqueios sejam reerguidos.

Uma geografia do bloqueio: mais de 950 pontos identificados e uma expansão contínua

Levantamentos de órgãos municipais e entidades independentes indicam que, entre 2022 e 2024, a cidade do Rio identificou mais de 950 pontos com histórico de barricadas. Na Baixada, o fenômeno se intensifica, especialmente em Nova Iguaçu, São João de Meriti, Belford Roxo e Duque de Caxias, onde moradores relatam que algumas vias chegam a ter cinco ou seis reconstruções por semana. Em alguns bairros da Zona Norte, o tempo médio para que uma barricada seja refeita após a retirada oficial é de três horas — em casos extremos, menos de uma hora.

Uma pesquisa do Instituto de Segurança Pública (ISP), cruzada com dados de monitoramento independente, mostra que cerca de 32% das ocorrências policiais envolvendo confrontos acontecem em áreas com histórico de bloqueios territoriais, o que revela a forte relação entre barricadas e disputas entre grupos armados.

O mapa secreto das rotas interrompidas

O plano Barricada Zero começa antes da chegada das máquinas: ele nasce no mapa. Um mapeamento exaustivo está sendo realizado por equipes municipais, guardas, agentes de ordem pública e técnicos de georreferenciamento, que alimentam um grande mapa digital das rotas interrompidas da cidade e da região metropolitana. Nesse mapa entram as vias escolares por onde passam, todos os dias, mais de 180 mil estudantes, rotas de crianças e adolescentes que dependem de transporte regular para chegar à escola. Entram também as rotas de ambulâncias, que somam cerca de 1,2 milhão de chamados por ano, e que precisam estar desobstruídas para garantir que cada minuto conte na hora de salvar vidas.

Nesse mesmo desenho aparecem os corredores de transporte público utilizados por aproximadamente 4,3 milhões de passageiros por dia, ligando bairros periféricos a centros comerciais, hospitais, polos de serviços e oportunidades de trabalho. As camadas seguintes do mapa trazem as entradas consideradas sensíveis pela Polícia Militar e pela Guarda Municipal, pontos em que qualquer bloqueio pode significar risco imediato de confronto, aprisionamento territorial ou cerco armado.

Além das grandes vias, o Barricada Zero desce à escala do detalhe: vielas e becos usados como rotas de fuga, caminhos tortuosos que se tornam corredores exclusivos de grupos armados; e ruas em que a reincidência ultrapassa dez reconstruções de barricada por mês, segundo registros comunitários. Em alguns pontos, moradores relatam que a barricada “vai e volta” tantas vezes que a própria rotina se organiza em torno dela.

Segundo fontes técnicas, esse mapa também passará a registrar pontos de iluminação pública danificados, becos cegos que facilitam emboscadas e o chamado “grau de reconstrução” de cada barricada — uma espécie de escala de risco que mede a velocidade com que determinado grupo armado é capaz de repor o bloqueio após a remoção. Em resumo, o Barricada Zero começa cartografando não apenas ruas, mas conflitos, fluxos de vida e desigualdades.

A máquina da remoção: como será a força-tarefa

Depois do mapa, entra em cena a máquina. O modelo operacional prevê equipes mistas formadas por retroescavadeiras, caminhões basculantes, marteletes pneumáticos e garis treinados especificamente para atuar em áreas de risco. Nenhuma operação ocorre sem a presença de guardas municipais, que acompanham todo o trabalho e fazem a interface com órgãos de segurança estadual. Em situações de maior tensão territorial, ou quando há circulação de armas longas, o protocolo prevê o apoio direto de unidades policiais, com rotas de entrada e saída previamente definidas.

A experiência recente mostra a dimensão do desafio. Entre 2023 e 2024, apenas na capital, foram removidas mais de 3.500 toneladas de material utilizado como barricada — o equivalente a cerca de 300 caminhões cheios de entulho, ferro, concreto e madeira. Relatórios técnicos descrevem estruturas que extrapolam a ideia de “improviso”: muitas barricadas incluíam trilhos ferroviários com mais de 200 kg, blocos de concreto de até 1,5 tonelada, portões metálicos fixados ao solo com cimento, além de entulho despejado diariamente por mototaxistas cooptados por grupos armados.

Em outros casos, árvores inteiras foram derrubadas propositalmente para servir de barreira, complementadas por escudos de ferro semelhantes aos usados em construções industriais, formando verdadeiras paredes de contenção. Um técnico da Comlurb, ouvido sob anonimato, resume a situação de forma contundente: algumas barricadas parecem “estruturas de engenharia reversa”, planejadas para resistir a impacto, tração e até ao empurrão de veículos pesados. Não se trata apenas de “entulho na rua”, mas de uma arquitetura do controle armado.

Pronta-resposta: o elo mais sensível do processo

Quem participa do planejamento do Barricada Zero é unânime em um ponto: o grande teste não é remover, é impedir que volte. É nesse ponto que entra o componente mais sensível da operação — a pronta-resposta. O desenho prevê que equipes específicas fiquem de plantão para retornar à via em até duas horas sempre que uma nova barricada for detectada. A lógica é impedir que o bloqueio se consolide, quebrando o ciclo de “tira e põe” que tem marcado a relação entre poder público e grupos armados.

Pesquisas do laboratório de segurança da UFF e do Instituto Fogo Cruzado indicam que a manutenção de vias abertas pode reduzir em até 40% a chance de formação de “checkpoints” armados — aqueles pontos em que moradores, carros e motos são obrigados a se identificar para passar. Menos barricadas significam menos áreas de confinamento, mais circulação de serviços públicos e maior capacidade de resposta em situações de emergência. Em termos práticos, a pronta-resposta é a linha que separa uma ação pontual de uma política territorial.

Quando uma rua bloqueada vira sinônimo de vidas bloqueadas

Por trás de cada barreira de concreto há uma série de vidas atravessadas. As consequências sociais são profundas e, em vários casos, mensuráveis.

Saúde: minutos que custam vidas > Na saúde, o impacto aparece em números e histórias. Ambulâncias do SAMU e do Corpo de Bombeiros relatam atrasos de 10 a 40 minutos ao tentar contornar bloqueios, seja buscando rotas alternativas, seja aguardando liberação de passagem. Em emergências cardíacas, cada minuto perdido aumenta em 7% o risco de morte, segundo estudos apresentados ao Conselho Municipal de Saúde. Em 2023, pelo menos 218 chamados foram registrados com a observação “barreira física impedindo acesso”, uma expressão burocrática que, na prática, significa pessoas esperando socorro atrás de um muro ilegal.

Educação: escolas em constante improviso > Na educação, o efeito é um cotidiano feito de remendos. Escolas situadas em áreas com barricadas registram queda na frequência, atraso na entrada e saída de turmas e dificuldade de manter atividades regulares em dias de maior tensão. Em alguns trajetos, o transporte escolar precisa fazer desvios que acrescentam até 14 km ao percurso, o que significa mais tempo na rua, mais risco de exposição e menos previsibilidade para estudantes e famílias. Estima-se que mais de 30 mil alunos sejam diretamente afetados por interrupções de vias ao longo do ano letivo, especialmente nas periferias e na Baixada Fluminense.

Assistência social: territórios inacessíveis > No campo da assistência social, as barreiras criam zonas de invisibilidade forçada. Equipes do SUAS relatam que, em dias de intensificação do controle armado, visitas domiciliares e atendimentos do CREAS se tornam inviáveis. Idosos que dependem de acompanhamento, pessoas com deficiência que necessitam de apoio regular e mulheres em situação de violência doméstica ficam isoladas, sem que o serviço consiga chegar até elas. O mapa da barricada, nesse caso, é também o mapa de quem deixa de ser visto pelo Estado.

Mobilidade e direitos: o confinamento territorial > Na mobilidade, o que se vê é uma forma de confinamento territorial. As barricadas transformam ruas públicas em muros invisíveis, definindo onde se pode ou não circular. Trabalhadores são obrigados a descer do ônibus a centenas de metros de casa e completar o trajeto a pé por caminhos mais perigosos; mulheres passam a evitar determinados horários ou trajetos; adolescentes reorganizam suas rotas diárias de estudo, trabalho ou lazer para escapar de confrontos ou revistas armadas. Em alguns bairros da Zona Oeste e da Baixada, pesquisas apontam que um em cada quatro moradores vive em área com restrição territorial de circulação, seja por barricadas, seja por “fronteiras” informais entre grupos rivais.

Integração com serviços: o Estado precisa entrar depois da máquina

O Barricada Zero não se limita à remoção física. A diretriz oficial prevê que, atrás da retroescavadeira, entrem também os serviços públicos. A articulação envolve CRAS, CREAS, escolas, unidades de saúde, conselhos tutelares e defensorias, com a lógica de que cada rua liberada deve ser acompanhada por atendimento, proteção social e presença institucional contínua. A remoção, isoladamente, não é suficiente se a rotina do território continuar marcada pela ausência do Estado.

Especialistas alertam que, sem redes de proteção social, sem políticas de emprego e renda e sem mediação comunitária, o vácuo deixado pela máquina tende a ser rapidamente ocupado de novo pelo controle armado. Abrir a rua é só a primeira etapa; é preciso abrir, junto com ela, acesso a direitos e oportunidades.

Primeiras ações e o desafio da permanência

Com o plano sendo finalizado até quarta-feira, a previsão é que as primeiras operações simultâneas ocorram entre segunda e quinta-feira da próxima semana, priorizando vias escolares, rotas de ambulância, acessos de grande circulação e regiões com alto volume de denúncias. Em alguns trechos, técnicos já admitem que poderá ser necessária remoção diária, pelo menos nas primeiras semanas de operação.

Especialistas em segurança e urbanismo repetem um diagnóstico comum: o verdadeiro teste do Barricada Zero será a permanência. Para que o programa produza mudanças reais, três eixos são considerados indispensáveis: monitoramento diário das vias críticas, retorno imediato em caso de reconstrução e presença constante de serviços públicos nas áreas liberadas. Sem esses elementos, o risco é que a iniciativa se torne apenas episódica — um esforço grande, caro e visível, mas incapaz de alterar a lógica territorial que se consolidou ao longo dos anos.

Oportunidade e risco em uma mesma operação

O Barricada Zero surge como uma das iniciativas mais ambiciosas já anunciadas para enfrentar o controle armado de territórios e reconquistar a circulação em comunidades da Região Metropolitana. Em potencial, representa um avanço importante para a mobilidade, a saúde, a educação e os direitos básicos de milhares de moradores que hoje vivem atrás de barreiras que nunca foram votadas, regulamentadas ou autorizadas pela sociedade.

Mas o programa carrega, ao mesmo tempo, uma oportunidade e um risco. A oportunidade de reabrir ruas e, com elas, possibilidades. E o risco de, sem continuidade e integração social, tornar-se apenas um gesto momentâneo: a ruptura de concreto e entulho, sem romper as estruturas sociais que sustentam o controle armado. O que estará em jogo, nos próximos meses, não é apenas o sucesso de uma operação, mas o tipo de presença que o Estado decidirá ter — ou não ter — nas periferias e favelas que hoje convivem diariamente com barricadas, visíveis e invisíveis.

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