A Rede Saúde nas Favelas defendeu que o cuidado produzido nas favelas deve ser tratado como eixo estruturante do Sistema Único de Saúde (SUS). A rede sustenta que favelas não são apenas lugares onde “falta saúde”, mas territórios onde a saúde é construída e sustentada diariamente por redes comunitárias.
A proposta se conecta ao debate sobre a Política Nacional de Cuidados, ao afirmar que reconhecer o cuidado como direito e responsabilidade coletiva exige que a política pública aconteça no território. Para a Rede, quando a universalidade é pensada de forma abstrata, sem considerar as favelas como parte do planejamento, o risco é reforçar uma universalidade formal — que diz atender “a todos”, mas não alcança quem mais precisa.
Do serviço ao cuidado
A Rede defende ampliar o entendimento de saúde para além das unidades formais. No texto, o cuidado nas favelas aparece como prática cotidiana sustentada por mulheres, lideranças, coletivos, agentes comunitários e organizações locais, que conectam saúde com alimentação, renda, educação popular, apoio psicossocial e proteção comunitária. A pergunta que a rede devolve ao poder público é direta: como o Estado se relaciona com o cuidado que já existe, em vez de agir como se ele não existisse?
Nessa visão, fortalecer a saúde nas favelas não se resume a aumentar consultas ou fazer campanhas pontuais. A Rede aponta para o fortalecimento da Atenção Primária à Saúde e do cuidado integral em diálogo com a vida real do território, reconhecendo iniciativas comunitárias — como cozinhas comunitárias, ações de segurança alimentar, agroecologia, rodas de conversa e ações de saúde mental — como parte de um ecossistema que já produz bem-estar e pode orientar políticas mais efetivas.
Justiça territorial como condição do SUS
A Rede insiste numa tese central: não há cuidado universal sem justiça territorial. Quando serviços, equipamentos e decisões não se organizam a partir do território — e do que o território já faz —, o sistema tende a responder tarde e de forma fragmentada. A organização também rebate a leitura de que investir nas favelas seria “assistencialismo”. Para a Rede, é estratégia de saúde pública: o cuidado que se produz nas favelas impacta a cidade inteira e fortalece o SUS quando reconhecido, apoiado e integrado às redes formais.
Cartografia do Cuidado para enxergar e planejar
A Cartografia do Cuidado como ferramenta para tornar visível o que a política pública frequentemente ignora: quem cuida, onde cuida, em que condições, e quais vazios de atenção permanecem ao redor. A cartografia aparece como instrumento de incidência e planejamento, ao materializar a distância entre promessas e entregas do Estado. A proposta também trata práticas comunitárias como tecnologias sociais — conhecimento acumulado, com método e capacidade de organização — e não como “improviso”.
Organizações do território indiquem prioridades para a agenda pública, especialmente em períodos de debate eleitoral, quando a saúde pode virar promessa genérica e distante do cotidiano. Entre os temas citados, aparecem demandas como segurança e soberania alimentar, médico de família, farmácia acessível, compromisso institucional contínuo, além de saúde da mulher, primeira infância e vacinação. Para a Rede, isso mostra que a agenda de saúde nas favelas é ao mesmo tempo clínica, social e territorial — e não cabe em ações isoladas.
Falhas e responsabilidades apontadas
A Rede afirma que reconhecer a potência das redes comunitárias não significa transferir a elas a responsabilidade por garantir direitos. O texto cobra presença permanente do Estado, orçamento, integração entre áreas (saúde, assistência social, educação, segurança alimentar e mobilidade) e reconhecimento dos saberes locais na governança.
Em síntese, a Rede Saúde nas Favelas defende uma reorganização do planejamento do SUS a partir de um princípio simples: o cuidado nas favelas já existe, é coletivo e cotidiano — e precisa ser tratado como parte da estrutura do sistema, não como exceção.
ComuniSaúde e o impacto nas favelas
O ComuniSaúde é uma iniciativa que difunde o direito à saúde e valoriza o Sistema Único de Saúde (SUS) e seus profissionais, fortalecendo redes comunitárias em favelas e periferias por meio de ações formativas, comunicação cidadã e articulações locais que ampliam o acesso ao atendimento básico, à saúde mental e a campanhas educativas. O projeto atua como ponte entre moradores e serviços públicos, oferecendo também um canal telefônico para orientação, mediação de conflitos e cobrança junto aos órgãos competentes sempre que houver negativa ou omissão no atendimento.
ComCausa ComuniSaúde Baixada: 21 96942-1505 e acesse: comunisaude.org.br
Plano Integrado de Saúde nas Favelas do Rio de Janeiro
Desde 2021, mais de R$ 22 milhões foram investidos em projetos de saúde nas favelas cariocas, com apoio da Lei Nº 8.972/20 e do Fundo Especial da ALERJ. Instituições renomadas como a Fiocruz , IFF, UENF, UFRJ, UERJ, PUCRJ, SBPC, Alerj e Abrasco fazem parte do Plano Integrado de Saúde nas Favelas do Rio de Janeiro, com o objetivo de garantir que os serviços de saúde alcancem as áreas mais necessitadas.
Essa articulação interinstitucional é fundamental para reduzir desigualdades históricas e promover o acesso universal à saúde como um direito humano básico e inalienável.
Imagem de capa ilustrativa.
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