O que a Justiça confirmou agora, na noite desta terça, dia 28 de outubro, quase nove anos depois, uma mãe soube desde o primeiro dia. Não houve suicídio. Houve um crime brutal. O menino Andrei Ronaldo Goulart Gonçalves, de 12 anos, foi estuprado e assassinado dentro da própria casa, por alguém em quem todos confiavam: o tio e padrinho, Jeverson Olmiro Lopes Goulart, um oficial da reserva da Brigada Militar, que depois tentou forjar uma cena de suicídio infantil.
Durante anos, o Estado, as instituições e a opinião pública aceitaram a mentira conveniente. Apenas uma pessoa se recusou a acreditar — a mãe. E foi ela quem, sozinha, reconstruiu o que a pressa institucional desfez, quem guardou objetos, memórias e contradições, quem insistiu em repetir, até que fosse ouvida, que seu filho não se matou: tiraram-lhe a vida. Agora, após dois dias de julgamento — em 27 e 28 de outubro de 2025 —, o Conselho de Sentença da 1ª Vara do Júri do Foro Central de Porto Alegre condenou o agressor a 46 anos de prisão em regime fechado, com cumprimento imediato da pena.
A sentença não devolve Andrei. Mas devolve à mãe o direito à verdade — e à sociedade, uma lição sobre o poder do amor materno diante do descaso e da omissão.
O início da dor: quando o silêncio se disfarça de explicação
Era novembro de 2016. No apartamento da família, na zona sul de Porto Alegre, o menino foi encontrado morto. O laudo inicial, superficial e apressado, apontava para suicídio. Uma explicação rápida, quase conveniente. Um fechamento para evitar perguntas incômodas. Mas o corpo da criança falava outra língua. Havia objetos fora do lugar. Marcas incompatíveis com a hipótese de autoextermínio. E um pedido perturbador que antecedeu a tragédia: o tio pedira para ficar com as roupas íntimas do menino.
A mãe percebeu, naquela noite, algo fora do compasso. O filho estava estranho, assustado, desconfortável. As horas seguintes foram um pesadelo. E quando o “suicídio” veio como explicação oficial, ela respondeu com o instinto de quem carrega o corpo e a alma do próprio filho: “Não foi ele. Eu sei que não foi.”
A mulher que não se calou
Nos meses seguintes, ela transformou o luto em tarefa. Foi de delegacia em delegacia, do Ministério Público ao Conselho Tutelar. Repetiu o relato dezenas de vezes. Colecionou protocolos, anotações, recortes, laudos incompletos. Suportou o descrédito, a solidão e o cansaço de quem luta contra uma estrutura que prefere o silêncio à vergonha. Chamaram-na de “mãe histérica”, de “emocional”, de “inconformada”. Ela seguiu. Anotava tudo. As inconsistências dos peritos, as contradições nos depoimentos, a pressa do Estado em arquivar. E repetia, incansável, a mesma frase: “Meu filho não se matou. Ele foi morto.”
Durante quatro anos, viveu como investigadora, advogada e sobrevivente do próprio trauma. E em 2020, sua persistência atravessou as paredes da indiferença: o Ministério Público reabriu o caso.
A reviravolta: quando a verdade encontrou voz
A nova apuração desmontou a versão oficial. A promotoria, ao revisar laudos e ouvir novas testemunhas, concluiu que Andrei foi estuprado e executado com um tiro na cabeça enquanto dormia. A cena foi manipulada: a arma reposicionada, o corpo encenado, a narrativa de “suicídio” cuidadosamente montada. O Ministério Público do Rio Grande do Sul, com o apoio do Núcleo de Apoio ao Júri (NAJ), reconstruiu o crime com provas sólidas e uma narrativa coerente. O júri entendeu: o homicídio serviu para calar a vítima e apagar as evidências do estupro.
O agressor, que respondera em liberdade, ouviu a condenação de 46 anos de prisão na noite de 28 de outubro de 2025 — estuprador e assassino de um menino que ele chamava de afilhado.
A mãe como eixo moral do processo
A história de Andrei não teria mudado de rumo sem ela. Não houve perícia milagrosa, nem pistas cinematográficas. Houve apenas uma mulher que se recusou a aceitar o absurdo. Ela percebeu a mudança no comportamento do filho. Anotou os detalhes que ninguém quis ver. Guardou as roupas, as lembranças e o medo. E, quando todos desistiram, ela recomeçou.
A sua teimosia — que é também a teimosia de tantas mães brasileiras — obrigou o Estado a enxergar o que ele mesmo tentou apagar. O júri não condenou apenas um homem. Condenou também a pressa, o preconceito e o machismo institucional que desqualificam a palavra materna como emoção, e não como prova.
Lições que o Caso Andrei deixa ao país
As lições deixadas pelo Caso Andrei ultrapassam a tragédia individual e ecoam como um alerta profundo para todo o país. O episódio escancara falhas institucionais, revela o peso da omissão e reafirma o poder da persistência materna diante da injustiça. “Suicídio infantil” não pode ser tratado como explicação automática. É um atalho de conveniência que encobre responsabilidades e apaga sinais de violência. Cada morte suspeita de criança exige investigação técnica, sensível e imune à pressa de encerrar casos incômodos. O agressor íntimo — aquele que convive, que goza de confiança e autoridade — é, na maioria das vezes, o mais perigoso. E é dentro de casa, no espaço que deveria oferecer proteção, que muitos abusos se perpetuam em silêncio.
As mães que se recusam a aceitar versões prontas se tornam a própria memória da verdade. Sua voz, insistente e emocional, muitas vezes é o fio que sustenta a reabertura de investigações. Reabrir um caso, nesses contextos, não é um gesto de benevolência do Estado — é um dever moral e jurídico, um reconhecimento de que falhas precisam ser corrigidas.
O uniforme tampouco pode servir de escudo. Farda e parentesco não podem blindar ninguém de responder por crimes. Justiça verdadeira é aquela que não distingue sobrenomes nem cargos — alcança também quem, ironicamente, tem a função de garanti-la.
A vitória moral e a coragem como herança
Quando o veredito finalmente foi lido, quase nove anos depois da morte de Andrei Ronaldo Goulart Gonçalves, não houve comemoração. Apenas um choro contido, um alívio exausto, o peso de uma frase que encerrava uma era de dor: “Agora ele pode descansar.”
A mãe de Andrei não é heroína de cinema. É uma mulher comum que, movida por amor e indignação, aprendeu sozinha a decifrar o labirinto burocrático de um sistema que tantas vezes duvida das vítimas. Ela transformou o luto em instrumento de verdade, a dor em denúncia e a esperança em coragem. Sua trajetória ensina que a justiça começa — e persiste — quando uma mãe se recusa a desistir.
A linha do tempo da verdade
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Nov/2016 – Menino encontrado morto. Laudo inicial fala em “suicídio”.
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2017–2019 – A mãe denuncia irregularidades, busca novas perícias e pressiona o Ministério Público.
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2020 – Caso reaberto. Nova análise aponta indícios de estupro e execução.
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2023 – Justiça decide que o réu deve ir a júri popular.
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Out/2025 – Júri reconhece a culpa e impõe condenação de 46 anos.
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A história que a mãe escreveu com coragem: a luta por justiça no caso Andrei Goulart
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