ComCausa acompanha lançamento do 1º Censo Nacional da População em Situação de Rua no Rio

1º Censo Nacional da População em Situação de Rua

A ComCausa participou, nesta terça-feira, 28 de abril, no Rio de Janeiro, do lançamento regional do 1º Censo Nacional da População em Situação de Rua, iniciativa inédita do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) voltada à produção de dados oficiais sobre uma população historicamente invisibilizada pelas estatísticas públicas e pelas políticas de Estado.

O encontro ocorreu no Centro de Atendimento Integrado às Pessoas em Situação de Rua — CIPOP-RUA/RJ, no Centro do Rio, e reuniu representantes do IBGE, movimentos sociais, poder público, sistema de Justiça, organizações da sociedade civil e atores que atuam diretamente na defesa dos direitos da população em situação de rua.

Um marco histórico para o país

Pela primeira vez, o Brasil terá um levantamento nacional dedicado exclusivamente à população em situação de rua. A iniciativa busca enfrentar uma lacuna histórica: a ausência de dados oficiais, nacionais e padronizados sobre pessoas que vivem sem moradia fixa. A proposta do censo é identificar quantas são essas pessoas, onde estão, quais são seus perfis, suas trajetórias, suas condições de vida e suas principais necessidades. Segundo o IBGE, o levantamento será voltado à contagem e à caracterização demográfica e socioeconômica desse grupo, oferecendo uma base estatística mais robusta para orientar políticas públicas.

Durante décadas, a falta de informações consolidadas dificultou o planejamento de ações efetivas. Sem dados nacionais consistentes, a população em situação de rua permaneceu marcada pela subnotificação, pela fragmentação das respostas públicas e pela invisibilidade institucional.

Metodologia amplia conceito de ausência de moradia

A metodologia apresentada pelo IBGE amplia a compreensão sobre a ausência de moradia fixa. O levantamento não deverá considerar apenas pessoas que dormem diretamente nas ruas, mas também aquelas que vivem em abrigos, dormem em automóveis ou estão em outras formas de vulnerabilidade habitacional.

De acordo com informações divulgadas, as abordagens experimentais devem começar ainda em 2026, enquanto os primeiros resultados estão previstos para serem divulgados a partir de 2028. Essa abordagem é considerada fundamental porque a população em situação de rua não é homogênea. Existem diferentes realidades, trajetórias e formas de sobrevivência. Há pessoas que permanecem nas calçadas, praças e marquises; outras circulam entre abrigos, ocupações, equipamentos públicos, unidades de saúde, restaurantes populares e redes informais de apoio.

Participação de quem viveu a rua

Um dos diferenciais do processo será a participação de pessoas que já viveram ou ainda vivem em situação de rua nas abordagens. A estratégia busca ampliar a confiança dos entrevistados, reduzir barreiras de comunicação e qualificar a coleta das informações. A presença de pessoas com experiência concreta nessa realidade pode contribuir para que a pesquisa seja feita com mais sensibilidade, respeito e compreensão das dinâmicas das ruas. Também reforça a importância da escuta ativa e da participação social na construção de políticas públicas.

ComCausa coloca CAIS à disposição do IBGE

Durante a atividade, a ComCausa reafirmou seu compromisso com a defesa dos direitos humanos, da cidadania e da visibilidade das populações historicamente vulnerabilizadas.

A organização também colocou o CAIS ComCausa, iniciativa vinculada ao Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), por meio da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos (Senad), à disposição do IBGE como espaço de apoio, diálogo, articulação territorial e interlocução com redes que atuam junto à população em situação de rua.

A entidade já está em interlocução sobre possíveis formas de contribuição, especialmente a partir de sua experiência em escuta comunitária, proteção social, direitos humanos, cidadania, enfrentamento às violações e atuação em territórios vulnerabilizados.

CAIS ComCausa como ponto de apoio territorial

O CAIS ComCausa pode contribuir com o processo por sua capacidade de articulação com redes locais, lideranças comunitárias, organizações sociais, agentes públicos e pessoas em situação de vulnerabilidade.

A atuação do CAIS está relacionada à construção de pontes entre população, sociedade civil e instituições públicas. Nesse sentido, sua colaboração pode fortalecer a aproximação com territórios e ampliar a compreensão sobre as demandas concretas vividas por pessoas em situação de rua e por grupos em vulnerabilidade.

Ao se colocar à disposição do IBGE , a ComCausa reforça que a produção de dados precisa caminhar junto com presença territorial, escuta qualificada e compromisso com respostas públicas efetivas.

Dados mostram urgência nacional

Os números disponíveis demonstram a gravidade do cenário. Em dezembro de 2024, o Brasil registrava cerca de 327.925 pessoas em situação de rua. No primeiro trimestre de 2025, esse número ultrapassou 335 mil pessoas. Pelo Cadastro Único, a população em situação de rua passou de 21.934 pessoas em 2013 para 227.087 em agosto de 2024, crescimento superior a 1.000%.

Esses dados revelam que a situação de rua não é um fenômeno isolado ou temporário. Trata-se de uma expressão profunda das desigualdades sociais brasileiras, agravada por fatores econômicos, habitacionais, familiares, territoriais, raciais e institucionais.

Rio de Janeiro evidencia dimensão do desafio

No Rio de Janeiro, dados da Prefeitura indicam que havia 8.195 pessoas vivendo nas ruas em 2024, evidenciando a dimensão do desafio nas grandes cidades. A capital fluminense concentra diferentes situações de vulnerabilidade associadas à vida nas ruas, especialmente em regiões centrais, áreas de grande circulação, entornos de equipamentos públicos, zonas comerciais e espaços de permanência cotidiana.

O lançamento regional no CIPOP-RUA/RJ também teve forte simbolismo por ocorrer em um equipamento voltado ao atendimento integrado dessa população, em um território onde a situação de rua é visível e demanda respostas permanentes.

Uma população marcada por violações

A situação de rua está ligada a múltiplas violações de direitos. Entre os fatores frequentemente associados a essa realidade estão a pobreza extrema, o desemprego, a insegurança alimentar, a ausência de moradia, a violência, o racismo estrutural, o rompimento de vínculos familiares, o sofrimento psíquico, o uso problemático de álcool e outras drogas, a falta de documentação civil e a dificuldade de acesso a serviços públicos.

Muitas pessoas em situação de rua enfrentam barreiras para acessar saúde, assistência social, trabalho, renda, educação, justiça, segurança alimentar e políticas de moradia. A ausência de endereço fixo também dificulta o acesso a direitos básicos, benefícios sociais, oportunidades de emprego e acompanhamento continuado pelos serviços públicos.
Invisibilidade que atravessa políticas públicas

Para a ComCausa, o censo precisa ser visto como instrumento estratégico para transformar invisibilidade em reconhecimento e dados em políticas públicas concretas. A organização destaca que a falta de dados oficiais sempre contribuiu para que essa população fosse tratada de forma secundária no planejamento público. Quando não há diagnóstico preciso, torna-se mais difícil definir orçamento, planejar serviços, avaliar políticas, dimensionar equipes e construir ações permanentes.

A produção de informações nacionais pelo IBGE pode permitir que governos, instituições, pesquisadores, movimentos sociais e organizações da sociedade civil atuem com mais precisão na formulação de respostas.

Da estatística à garantia de direitos

A ComCausa defende que as informações produzidas pelo IBGE fortaleçam políticas de moradia, saúde, alimentação, documentação, proteção social, segurança cidadã, trabalho, renda, educação, acolhimento e reinserção social.

A entidade ressalta que contar pessoas é apenas o primeiro passo. O desafio maior é garantir que esses dados se transformem em políticas públicas integradas, com orçamento, continuidade, articulação entre governos e participação social.

O levantamento deve contribuir para que o poder público conheça melhor quem são essas pessoas, quais são suas necessidades reais e quais caminhos podem ser construídos para assegurar proteção, autonomia e dignidade.

Escuta e participação social

A ComCausa também destaca a importância da escuta das próprias pessoas em situação de rua e dos movimentos sociais que atuam historicamente nessa pauta. Para a organização, nenhuma política pública será plenamente eficaz se não considerar a experiência concreta de quem vive ou já viveu nas ruas.

A participação social é essencial para evitar abordagens distantes da realidade, preconceituosas ou meramente burocráticas. Ouvir a população em situação de rua significa reconhecer sua humanidade, sua capacidade de organização, suas demandas e sua condição de sujeito de direitos.

Compromisso com uma pauta urgente

A participação da ComCausa no lançamento regional reafirma o compromisso da entidade com uma pauta urgente: garantir que pessoas em situação de rua sejam reconhecidas como sujeitos de direitos, com nome, história, identidade, voz, necessidades e dignidade. Mais do que acompanhar um evento institucional, a presença da ComCausa representa a defesa de que o censo seja um ponto de partida para ações concretas, estruturadas e permanentes.

O 1º Censo Nacional da População em Situação de Rua nasce como uma oportunidade histórica para o Brasil olhar de forma mais responsável para uma realidade que sempre esteve presente nas cidades, mas que muitas vezes foi ignorada pelo poder público e pela sociedade.

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