Dia da Passeata dos Cem Mil

Passeata dos Cem Mil

A Passeata dos Cem Mil foi uma das maiores e mais emblemáticas manifestações populares realizadas durante a ditadura militar brasileira. O protesto ocorreu no dia 26 de junho de 1968, no centro do Rio de Janeiro, reunindo uma multidão estimada em cem mil pessoas — número que deu nome ao ato. A passeata foi organizada como resposta ao assassinato do estudante Edson Luís de Lima Souto, morto pela repressão policial no restaurante Calabouço, espaço frequentado por jovens e intelectuais na capital fluminense.

O assassinato de Edson Luís, ocorrido em 28 de março de 1968, desencadeou uma forte comoção nacional. O enterro do jovem transformou-se em um protesto espontâneo, e o sangue ainda visível no chão do restaurante Calabouço se tornou símbolo da brutalidade do regime. Nos meses seguintes, diversas manifestações se espalharam pelo país, culminando na mobilização que reuniu estudantes, artistas, professores, padres, operários, jornalistas, políticos e diversos setores da sociedade civil em um protesto unificado contra a repressão, a censura e a falta de liberdades democráticas.

A passeata teve início na Cinelândia, coração político e cultural do Rio de Janeiro, e percorreu as principais avenidas da cidade, com destino simbólico à Praia de Copacabana, em um trajeto de cerca de 10 quilômetros. A manifestação foi cuidadosamente planejada por entidades estudantis, com apoio da União Nacional dos Estudantes (UNE), além de organizações sindicais, intelectuais, movimentos religiosos e representantes de partidos políticos da oposição.

Apesar de seu caráter pacífico, com faixas, cartazes, discursos e palavras de ordem como “Abaixo a ditadura”, “Povo unido jamais será vencido” e “Liberdade, liberdade”, o regime militar viu a manifestação como uma afronta à sua autoridade. Embora naquele dia a repressão tenha sido mais contida, os dias seguintes registraram prisões, censura e violência policial, num claro sinal de que a escalada autoritária não cessaria.

A Passeata dos Cem Mil representou um divisor de águas na história da resistência contra a ditadura militar. Foi um momento em que a sociedade civil brasileira mostrou coragem, unidade e disposição para enfrentar o autoritarismo. A repercussão nacional e internacional foi significativa: jornais estrangeiros cobriram o protesto, e organizações de direitos humanos passaram a acompanhar com mais atenção a situação brasileira.

Menos de seis meses depois, em 13 de dezembro de 1968, o governo militar editaria o Ato Institucional nº 5 (AI-5), o mais duro instrumento de repressão da ditadura, que fechava o Congresso Nacional, suspendia direitos civis e ampliava os poderes arbitrários do regime. Aquele ato foi visto por muitos como uma tentativa do governo de sufocar, de forma definitiva, movimentos como a Passeata dos Cem Mil.

Memória: Decreto do Ato Institucional nº 5 (AI-5)

Ainda assim, o protesto de junho de 1968 permanece como símbolo da resistência democrática e da capacidade de mobilização popular em tempos de opressão. É lembrado até hoje como um momento em que a juventude e a sociedade civil brasileira ousaram sonhar e lutar por um país mais livre, justo e democrático.

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