Dossiê Mulher 2026 revela avanço da violência digital e registra quase 160 mil vítimas no Rio de Janeiro

Criança, celular - Influenciadores mirins e “sharenting”

Violência psicológica segue como a principal forma de agressão contra mulheres pelo quinto ano consecutivo; feminicídios permanecem em patamar elevado e estudo aponta crescimento da misoginia nas redes sociais

O Instituto de Segurança Pública (ISP) divulgou o Dossiê Mulher 2026, com dados referentes a 2025, revelando que 159.041 meninas e mulheres foram vítimas de algum tipo de violência no estado do Rio de Janeiro ao longo do ano. Na prática, isso significa que uma mulher sofreu violência a cada três minutos, o equivalente a cerca de 18 vítimas por hora.

A nova edição do levantamento chama atenção para um fenômeno que vem ganhando força: a violência contra mulheres no ambiente digital. Pela primeira vez, o estudo dedica um capítulo específico à disseminação de discursos misóginos nas redes sociais, incluindo análises sobre comunidades ligadas ao chamado movimento redpill e sua relação com diferentes formas de violência de gênero.

Violência psicológica lidera os registros

Pelo quinto ano consecutivo, a violência psicológica aparece como a modalidade mais recorrente no estado.

Em 2025 foram registradas:

  • 59.742 vítimas de violência psicológica;
  • média de 164 mulheres vitimadas por dia;
  • práticas como intimidação, controle, humilhação, manipulação e ameaças continuam sendo os mecanismos mais utilizados pelos agressores.

Segundo o ISP, esses crimes muitas vezes antecedem episódios de violência física e feminicídios, reforçando a importância da denúncia ainda nas primeiras manifestações de abuso.

Crimes virtuais crescem mais de 1.300% em dez anos

O dado mais alarmante do relatório está relacionado ao ambiente digital.

Em 2015, primeiro ano da série histórica, o estado registrava 239 vítimas de violência psicológica e moral praticada pela internet.

Em 2025 esse número chegou a:

  • 5.970 vítimas;
  • média de 16 mulheres atacadas por dia;
  • crescimento superior a 1.300% em uma década.

Do total de ocorrências virtuais:

  • 3.417 foram classificadas como violência psicológica;
  • esse tipo de violência representou 5,7% dos registros estaduais.

O estudo também mostra que as redes sociais, aplicativos de mensagens e até transferências via PIX passaram a ser utilizados para descumprimento de medidas protetivas, permitindo perseguição e contato indevido com vítimas mesmo após decisões judiciais.

Feminicídios permanecem elevados

O Dossiê contabilizou 105 feminicídios em 2025.

O perfil desses crimes revela um padrão recorrente:

  • 83,8% ocorreram dentro da residência da vítima;
  • 51,4% foram praticados por companheiros;
  • mais de 70% das vítimas já haviam sofrido violência doméstica anteriormente, mas não haviam registrado ocorrência;
  • 67,3% dos autores possuíam antecedentes criminais;
  • em 78,2% dos casos, a motivação esteve relacionada a ciúmes, separação, suspeita de traição ou discussões;
  • em 46,4%, o agressor estava sob efeito de álcool ou drogas.

Outro dado preocupante é o impacto social desses assassinatos: 59% das vítimas eram mães, e, entre elas, 71% deixaram filhos menores de idade.

Crianças e adolescentes seguem entre as principais vítimas de violência sexual

A violência sexual continua atingindo principalmente meninas.

Em 2025 foram registradas:

  • 8.681 vítimas;
  • 3.415 casos de estupro de vulnerável;
  • 2.723 casos de importunação sexual;
  • 1.653 estupros.

O levantamento aponta que:

  • quase metade das vítimas de estupro de vulnerável tinha até 11 anos;
  • 46,6% dos crimes ocorreram dentro da residência;
  • em mais da metade dos casos o autor era conhecido da vítima;
  • pais e padrastos responderam por 21,3% das ocorrências.

Violência física continua em patamar elevado

Mesmo com a predominância da violência psicológica, a violência física segue como a segunda modalidade mais registrada.

Foram contabilizadas:

  • 43.307 vítimas;
  • uma ocorrência aproximadamente a cada 12 minutos;
  • a maioria das lesões corporais foi praticada por companheiros ou ex-companheiros.

Perfil das vítimas

O Dossiê também traça o perfil predominante das mulheres atendidas pelo sistema de segurança pública.

As vítimas são majoritariamente:

  • 52,3% mulheres negras;
  • 47,9% solteiras;
  • 29,8% com idade entre 18 e 29 anos.

Delegacias especializadas ampliam atendimento

As 15 Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs) concentraram 28,3% de todos os registros de violência contra mulheres no estado.

Segundo o levantamento, as unidades especializadas receberam, em média, uma denúncia a cada 12 minutos, reforçando seu papel na rede de proteção às vítimas.

Dados reforçam necessidade de políticas públicas

O Dossiê Mulher é publicado anualmente pelo Instituto de Segurança Pública e serve como uma das principais bases para formulação de políticas públicas voltadas à prevenção e ao enfrentamento da violência de gênero no Estado do Rio de Janeiro. A edição de 2026 amplia esse monitoramento ao incluir, pela primeira vez, uma análise estruturada sobre a violência digital, apontando que a expansão das agressões para o ambiente virtual representa um novo desafio para os órgãos de segurança e para a rede de proteção às mulheres.

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