Era janeiro de 2005, pleno verão na Baixada Fluminense, quando a histórica Praça do Skate, em Nova Iguaçu — palco de encontros, disputas e manobras desde a década de 1970 — voltou a ganhar vida de uma forma diferente. Acostumada a receber skatistas de todas as idades e estilos, naquele início de ano a praça se transformou em uma verdadeira sala de aula a céu aberto.
Ali, o skatista e profissional de educação física André Viana conduzia um curso de férias que, à primeira vista, poderia parecer apenas mais uma atividade temporária para ocupar o tempo livre da juventude durante o recesso escolar. O espaço, impregnado de histórias e memória afetiva, se tornou o cenário de um experimento que o próprio André acreditava ser passageiro. Com materiais esportivos, uniforme, skate debaixo do braço, disposição incansável e um pequeno grupo de jovens curiosos, ele deu início a um ciclo de aulas voltadas para ensinar os fundamentos do skate — sem imaginar que estava prestes a plantar uma semente que germinaria ao longo de vinte anos.
“Eu criei aquele curso de verão sem nenhuma pretensão de que fosse virar algo fixo. Para mim, era só uma forma de aproveitar o período, compartilhar o que eu sabia e oferecer uma ocupação saudável para a garotada. Mas, quando as férias acabaram, os alunos vieram até mim e disseram: ‘Professor, a gente quer continuar’. Aquilo me tocou profundamente. Não era só sobre aprender manobras; percebi ali uma sede de pertencimento, de convivência, de encontrar um espaço seguro e inspirador. Então pensei: se existe essa vontade genuína, eu preciso levar isso a sério — criar algo mais estruturado, aprimorar a metodologia e a técnica, mas também transmitir valores, história e a verdadeira cultura do skate”, relembra André, com um brilho no olhar que mistura nostalgia e orgulho.
Os primeiros obstáculos
O cenário inicial estava longe de ser favorável. A Praça do Skate, embora carregada de simbolismo e já inserida na história do esporte no estado, apresentava pouca estrutura física e carecia de manutenção.
“Era chão rachado, falta de iluminação, sol escaldante ou chuva constante… e zero apoio público ou privado. Era na raça. A gente treinava e ensinava como dava”, recorda André.
A virada aconteceu em 2007, quando, após realizar um trabalho importante na TV Globo, André tomou a decisão de transferir as aulas para sua própria casa, onde havia construído uma pequena pista na década de 1990, então subutilizada.
“Foi um passo arriscado. Pensei: será que os alunos vão vir? No começo foi difícil, mas, quando as famílias perceberam que era um lugar seguro — com telhado, banheiro e até um sofá para assistir aos treinos —, tudo mudou. Hoje, o CDS House é sinônimo de skate, arte e família. Temos um pequeno museu, a pista e um espaço acolhedor para receber as famílias. É um espaço que respira aquilo em que acreditamos.”
Vinte anos e muitas histórias para contar
Com o tempo, a credibilidade do projeto cresceu, e seu alcance ultrapassou os limites de Nova Iguaçu.
“O skate me levou a lugares e experiências que eu nunca imaginei. Fui consultor de skate na TV Globo, em Malhação, em 2006; atuei no Sul-Americano no Chile, em 2007; ministrei um curso na Expo Surf, em Lima, em 2013. Fui diretor de Esportes da Confederação Brasileira de Skate e presidi a FASERJ por duas décadas. Tudo isso começou com aquele curso de férias na praça”, ressalta.
Hoje, André se emociona ao ver ex-alunos espalhados pelo Brasil, levando adiante o que aprenderam no CDS House.
“O Hudson Menegassi, o Matheus Ferreira e o Manu Lira são meus colaboradores aqui. O Felipe Ribeiro, que começou no curso, hoje trabalha na Zona Sul. E no alto rendimento já passaram atletas como Pedro Vitta — hoje atleta do Botafogo e atual campeão brasileiro amador pela CBSK; Carlos Nogueira — que dá nome à pista da Via Light; Alan Kardec ‘Maclerey’ e Renato Silva ‘Galin’ — campeões estaduais pelo Rio; Tony Jorge — vice-campeão brasileiro universitário; e Vitor André — comentarista do STU, a principal liga do skate profissional nacional e internacional realizada no Brasil. Essa é a maior recompensa: ver que o que a gente plantou continua dando frutos.”
Skate como inclusão e transformação
A atuação da escola vai muito além da técnica esportiva. Um marco importante foi a criação de um centro de treinamento DIY (do inglês Do It Yourself, “faça você mesmo”) na própria Praça do Skate, construído com materiais doados por skatistas e empresários.
“Parte dos obstáculos veio direto do pré-olímpico da SLS, na Barra. Isso é skate de verdade: coletivo, criativo e de superação. É unir as mãos para criar algo maior”, afirma.
Outro pilar fundamental é o projeto Skatistas de Cristo, que oferece bolsas de estudo e patrocínio a jovens da Baixada Fluminense.
“Não é só ensinar a manobra, é ajudar na vida. Durante a pandemia, por exemplo, a gente ofereceu reforço escolar e ajudou na alimentação de vários skatistas. Hoje estamos apoiando o Silmar e o Enzo, dois talentos da nova geração. Eu sempre digo: antes de serem bons skatistas, precisam ser boas pessoas.”
O poder transformador do skate
Para André, o skate é mais do que esporte: é uma ferramenta de inclusão, encontro e superação.
“Nova Iguaçu não tem praia, mas tem pista. Não é perfeita, mas a gente se vira. Se houvesse mais apoio, o impacto seria gigante. O skate já provou ser um dos esportes que mais traz medalhas para o Brasil. E o mais bonito é que ele acolhe todo mundo: rico, pobre, menino, menina. É democrático e inclusivo.”
Ele também destaca os benefícios do skate para crianças com necessidades específicas:
“Já vi melhorias incríveis em alunos com TDAH e TEA. O skate trabalha coordenação, equilíbrio e ainda ajuda na socialização. É terapia em movimento.”
O futuro em construção
O CDS House está em constante transformação.
“Todo ano a gente organiza o Skate Arte Fest, a festa de fim de ano e a colônia de férias. Temos um pequeno museu dedicado à Praça do Skate, e quero ampliar o acervo. Também sonho em expandir a pista e levar uma exposição sobre a primeira pista de skate do Brasil para outros estados — e até para fora do país. Essa história precisa circular, precisa ser contada”, projeta.
A mensagem final
A mensagem que André deixa para quem quer começar no skate ou criar um projeto social carrega a essência de sua trajetória:
“Acredite no seu potencial e no skate brasileiro. Estude, se prepare, tenha fé em Deus e faça com amor. As coisas vão acontecendo naturalmente. O skate me deu propósito, amigos e trabalho. Se você fizer com verdade, ele vai te dar muito mais do que medalhas.”
Linha do Tempo – 20 anos da Escola de Skate de Nova Iguaçu (CDS House)
2005 – O início na Praça do Skate
• Curso de férias de verão reúne crianças e adolescentes na histórica Praça do Skate, em Nova Iguaçu.
• Após o término das aulas, nasce a decisão de criar um projeto pedagógico permanente, unindo técnica, valores e a cultura do skate.
2006 – Reconhecimento nacional
• André Viana atua como consultor de skate na 13ª temporada da novela Malhação, da TV Globo, participando da produção e pré-produção: acompanhando e preparando gravações, treinando elenco, coordenando uma equipe própria de dublês e atendendo aos setores de direção, arte, cenografia, efeitos especiais e produção.
• O curso ganha visibilidade nacional e atrai novos alunos.
2007 – A mudança para a CDS House
• André transfere as aulas para escolas particulares e para sua própria casa, onde havia construído uma pista coberta na década de 1990.
• O novo espaço oferece mais conforto, segurança e estrutura para alunos e familiares, consolidando o projeto como referência na região.
2008 – Criação do projeto Skatistas de Cristo
• Iniciativa voltada à oferta de bolsas, patrocínios e apoio social a jovens da Baixada Fluminense.
• Início da construção do centro de treinamento DIY (Do It Yourself) na Praça do Skate, com materiais doados pela comunidade.
2010 – Formação de novos professores
• Ex-alunos passam a atuar como monitores e professores, ampliando a rede de multiplicadores do projeto.
2012 – Expansão do alcance
• Skatistas formados pelo curso começam a competir em eventos nacionais.
• A CDS House se consolida também como espaço de convivência, lazer e formação cidadã.
2015 – Eventos culturais e criação do museu
• Lançamento do Skate Arte Fest, evento anual que integra skate, música, exposições e cultura de rua.
• Início da criação de um acervo histórico dedicado ao skate e à memória da Praça do Skate de Nova Iguaçu.
2018 – Ampliação da estrutura de alto rendimento
• CDS House e a Praça do Skate recebem materiais vindos do Pré-Olímpico da SLS (Street League Skateboarding), fortalecendo o CT DIY e elevando o nível técnico das pistas.
2019 – Nova fase do Skatistas de Cristo
• O projeto passa a ter atividades exclusivas na House, com reuniões e sessões de skate envolvendo ex-alunos e novos talentos.
2020 – Resistência durante a pandemia
• Aulas adaptadas de iniciação ao skate, respeitando protocolos de segurança contra a COVID-19.
• Apoio às famílias com reforço escolar e auxílio alimentar.
• Manutenção do suporte técnico e emocional aos atletas.
2023 – Formatura dos alunos do projeto Skatistas de Cristo
• Realização de campeonato e festa de formatura para jovens participantes do projeto de iniciação.
2024 – Apoio avançado a talentos da pandemia
• Skatistas Silmar e Enzo, revelados durante a pandemia, retornam à House como parte de um novo programa de alto rendimento e formação de professores da próxima geração.
2025 – 20 anos de história
• A CDS House celebra duas décadas de existência com o fortalecimento do CDS Team e o acompanhamento contínuo dos talentos Silmar e Enzo.
• Projeto em andamento para ampliação da pista e itinerância da exposição sobre a primeira pista de skate do Brasil para outros estados.
• Tio André prepara a publicação de um livro com base em seu TCC de 2003, “Aspectos Psicomotores na Prática do Skate” (Universidade Candido Mendes), integrando teoria acadêmica e vivência prática acumulada nesses 20 anos — um legado para o esporte e para a educação.
ComCausa participa da Flip com livro que celebra fé cultura e resistência
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