História de João Cândido ganha versão em quadrinhos e reforça luta por memória e reparação

João Candido, líder da Revolta da Chibata, aos 73 anos — Foto ArquivoAgência O GLOBO

Publicação apresenta a trajetória do Almirante Negro e aproxima novas gerações de um dos principais episódios de resistência negra no Brasil

A história de João Cândido Felisberto, conhecido como Almirante Negro e líder da Revolta da Chibata de 1910, ganhou uma nova versão em quadrinhos. A publicação foi apresentada em uma atividade cultural registrada em vídeo pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), reunindo representantes do poder público, pesquisadores, participantes do projeto e familiares do marinheiro.

A obra transforma em narrativa ilustrada a trajetória de um dos principais símbolos brasileiros da resistência ao racismo e à violência institucional. A iniciativa busca ampliar o conhecimento sobre a participação da população negra na construção do país, especialmente entre crianças, adolescentes e jovens.

O registro audiovisual destaca a importância da literatura e da arte como instrumentos de valorização da memória histórica. Entre os participantes apresentados estão Caroline Reis, secretária-executiva do MDHC, e Adalberto Cândido, conhecido como Candinho, filho de João Cândido.

A Revolta da Chibata e a luta por dignidade

João Cândido liderou, em novembro de 1910, uma mobilização de marinheiros contra os castigos físicos, as condições degradantes de trabalho e as desigualdades existentes na Marinha brasileira. A revolta ocorreu pouco mais de duas décadas após a abolição formal da escravidão.

Embora o governo tenha anunciado o fim dos castigos corporais e concedido anistia aos participantes, muitos marinheiros sofreram perseguições e prisões. João Cândido também enfrentou a repressão e passou décadas sem o reconhecimento institucional correspondente à importância de sua trajetória.

Segundo a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), a história do marinheiro permanece fundamental para compreender o racismo e as desigualdades que marcaram as instituições brasileiras.

Memória negra também é direito

A publicação em quadrinhos integra um movimento mais amplo de recuperação da memória de João Cândido. Em maio de 2026, o documentário João Cândido: Um Herói Sem Máscara, desenvolvido a partir de pesquisas do historiador Álvaro Pereira do Nascimento, também levou sua história ao público.

A produção audiovisual faz parte do projeto de memória, justiça e reparação desenvolvido em parceria entre a UFRRJ e o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. Outra iniciativa de reconhecimento é o Projeto de Lei nº 4.046/2021, que propõe a inscrição de João Cândido no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria. Em fevereiro de 2026, o Instituto dos Advogados Brasileiros manifestou apoio à proposta.

Uma história também ligada à Baixada Fluminense

A trajetória de João Cândido mantém uma ligação especial com São João de Meriti, na Baixada Fluminense, onde o marinheiro viveu e onde permanecem seus descendentes. Essa relação também ganhou destaque no Carnaval de 2024, quando a escola de samba Paraíso do Tuiuti apresentou o enredo Glória ao Almirante Negro!, homenageando sua história e sua contribuição para a luta contra a opressão.

A ligação territorial foi registrada pelo Portal C3 em matéria sobre a homenagem do Tuiuti. Ao apresentar a história do Almirante Negro em uma linguagem visual e acessível, a nova publicação contribui para que diferentes gerações conheçam personagens e acontecimentos frequentemente pouco valorizados nos relatos tradicionais sobre a história brasileira.

Mais do que recordar o passado, preservar a memória de João Cândido significa reconhecer o protagonismo negro na defesa da dignidade, da igualdade e dos direitos humanos.

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