Justiça determina soltura de irmãos presos após denúncia infundada de taxista no Rio

Nuno Alexandre, Carlos Daniel e Carlos Gabriel presos ComCausa Portal C3 2025

Após semanas de angústia e mobilização familiar, a juíza da 21ª Vara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro determinou a liberdade dos três irmãos presos sob acusação de roubo à mão armada — denúncia considerada infundada por familiares e apoiadores. A decisão representa um importante passo na correção de uma injustiça que, segundo a família, começou com uma confusão de trânsito mal interpretada e agravada por procedimentos policiais falhos.

O caso teve início quando, após um desentendimento, um taxista supostamente tentou atropelar os jovens com seu veículo. Segundo o pai dos rapazes, que denunciou o caso à ComCausa, os filhos apenas se defenderam da agressão. No entanto, minutos depois, foram surpreendidos pela informação de que o mesmo motorista havia procurado uma viatura da Polícia Militar, alegando ter sido vítima de um roubo cometido por eles, com uso de arma de fogo — o que nunca foi comprovado.

“O taxista foi quem os atacou. Meus filhos apenas se defenderam. Não havia qualquer arma, não houve roubo, não existia ameaça. Foi uma confusão causada pelo próprio motorista, e agora meus filhos estavam pagando por algo que não fizeram”, desabafou o pai.

Ao saber da prisão, ele se dirigiu ao local onde os jovens estavam sob custódia dos PMs. Lá, soube que seriam levados à delegacia. Segundo seu relato, ao chegarem na unidade policial, foram trancados numa cela improvisada — o chamado “porquinho” — e aguardavam para serem ouvidos. No entanto, isso nunca aconteceu. Sem escuta formal, contraditório ou chance de apresentar suas versões, os três foram transferidos diretamente para a Casa de Custódia de Benfica.

Na audiência de custódia — momento previsto pela legislação brasileira para avaliar a legalidade de prisões em flagrante —, tampouco foi garantido o devido processo legal. “Foi tudo muito rápido, sem defesa, sem escuta. Eles simplesmente sumiram com meus filhos para o sistema carcerário”, afirmou o pai.

Jovens negros e sem antecedentes: a face da seletividade penal

Os três irmãos não tinham qualquer antecedente criminal e viviam com a família na zona norte do Rio. São eles:

  • Nuno Alexandre, que completa 23 anos no próximo sábado, 7 de junho;
  • Carlos Daniel, de 22 anos;
  • Carlos Gabriel, o mais novo, com apenas 21 anos.

A prisão dos jovens reacendeu o debate sobre o racismo estrutural, a seletividade penal e a violência institucional que atinge, sobretudo, a juventude negra e periférica. Organizações de direitos humanos, como a ComCausa, acompanham o caso e denunciam a prática recorrente de prisões arbitrárias motivadas por estereótipos e acusações frágeis.

A decisão da Justiça pela soltura ocorre após pressão familiar, atuação da defesa e manifestação pública de entidades civis, que apontaram a ausência de provas, as contradições do denunciante e o cerceamento do direito de defesa. Agora, a família aguarda a conclusão do inquérito e a responsabilização por eventuais abusos cometidos por parte do denunciante e das autoridades que conduziram o caso.

“Vamos seguir lutando para que esse episódio não fique impune e que outros jovens não passem pelo que meus filhos passaram. O sistema não pode continuar funcionando como uma máquina de moer vidas inocentes”, afirmou o pai, emocionado.

A mobilização de familiares, de coletivos de direitos humanos e a atuação firme do advogado Gil Santiago, que assumiu o caso com compromisso e urgência, foram fundamentais para que a juíza da 21ª Vara Criminal determinasse a soltura dos três jovens.

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