Era noite de Réveillon no Rio de Janeiro. No quintal simples de uma casa no Morro do Turano, bairro do Rio Comprido, a família de Alice Pamplona celebrava a virada do ano. Entre os sons dos fogos e gargalhadas, a menina de cinco anos corria de um lado para o outro, vestindo roupa clara, como manda a tradição.
À meia-noite, o céu se acendeu em luzes coloridas. Alice, de olhos atentos, ergueu o rosto para o espetáculo. Mas, em questão de segundos, um som seco atravessou a festa. Não era rojão. Um disparo de arma de fogo havia atravessado a noite e, com ela, o corpo frágil da criança. O tiro atingiu o pescoço. O silêncio que se seguiu só foi quebrado pelos gritos de desespero.
A corrida sem volta
A família entrou em pânico. Pegaram Alice nos braços e correram para o Hospital Casa de Portugal. Lá, médicos tentaram reverter o quadro. Mas, às 1h10 do dia 1º de janeiro de 2021, o novo ano começou com a pior notícia possível: Alice não resistiu.
No primeiro dia de um ano que deveria simbolizar renovação, a casa da família amanheceu em luto. O vestido da virada ficou manchado de sangue.
O enterro de uma menina
O velório no Cemitério do Caju foi uma mistura de dor e indignação. A mãe de Alice, inconsolável, passou mal e precisou de atendimento médico durante a despedida. Familiares carregavam o caixão pequeno sob aplausos e cânticos, como se aquele gesto fosse a última forma de abraçar a menina.
No cortejo, não havia apenas parentes. Havia vizinhos, líderes comunitários, representantes da Subsecretaria de Estado de Vitimados e ativistas de direitos humanos. Muitos carregavam cartazes com perguntas que ecoam até hoje: Quem matou Alice? E por quê?
Bala perdida, justiça perdida
No início, familiares acreditaram que o ferimento tivesse sido causado por fogos de artifício. No hospital, a constatação brutal: não foi rojão, foi bala. A Polícia Militar informou que não havia operação na região naquele momento. A Delegacia de Homicídios da Capital assumiu o caso. Mas, como em tantas outras mortes por bala perdida, a investigação enfrentou o muro invisível da falta de provas e testemunhas dispostas a falar.
Nenhum responsável foi identificado até hoje.
A estatística que cresce, a infância que diminui
Segundo dados do Instituto Fogo Cruzado e da ONG Rio de Paz, Alice foi uma das 16 crianças baleadas na Região Metropolitana do Rio em 2020 — cinco delas morreram. Para o pastor Antônio Carlos Costa, presidente do Rio de Paz, “a morte de crianças por bala perdida não é um acidente isolado. É o sintoma de um Estado que não protege a vida onde ela mais é vulnerável”.
O caso de Alice foi noticiado, lamentado, e somou-se a uma lista dolorosa que inclui Ágatha Félix, Emilly Vitória, Rebeca Beatriz, João Pedro Mattos e, mais recentemente, Eloáh da Silva dos Santos.
Entre a virada e a repetição
Quatro anos depois, o quintal onde Alice brincava naquela noite de Réveillon ainda guarda marcas invisíveis. A cada 31 de dezembro, a família enfrenta a mesma mistura amarga de lembrança e ausência. Não há justiça, não há resposta — apenas a certeza de que a virada, para eles, nunca mais será a mesma.
No Morro do Turano, o som dos fogos ainda se mistura ao medo de um disparo ao longe. Porque, ali, como em tantas comunidades do Rio, a vida pode mudar — ou acabar — na fração de um segundo.
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