Memória: Quando a Guerra do Golfo começou  

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Há acontecimentos que já nascem com disputa de memória. O início da ofensiva aérea da Guerra do Golfo é um deles: para Bagdá, a virada é 17 de janeiro de 1991, de madrugada; para outras cronologias, sobretudo as que registraram o fato a partir de centros de comando, redações e fusos ocidentais, o mesmo começo aparece como 16 de janeiro. Não é contradição: é fuso horário. Mas é também um retrato do que aquela guerra inaugurou com força total o casamento entre operação militar, comunicação em tempo real e uma batalha paralela por enquadramento público, em que “o que aconteceu” e “como foi contado” passam a caminhar colados. 

A marcação por fuso horário: o mesmo ataque, dois calendários 

A ofensiva aérea costuma ser marcada às 2h38 (horário de Bagdá) em 17/01/1991, quando ataques iniciais abriram o corredor para as ondas seguintes de bombardeio. Só que Bagdá estava no fuso UTC+3; quando você converte esse horário para outras referências internacionais (incluindo fusos dos EUA e de parte da cobertura global que “carimbou” a notícia), o relógio ainda pode estar em 16/01, no fim da tarde ou início da noite. E aí nasce a dupla marcação “16–17/01/1991”: a mesma madrugada, vista por relógios diferentes. 

Há ainda um detalhe que costuma aparecer em linhas do tempo: em muitas narrativas institucionais, 16/01 é lembrado como o momento do anúncio do início da operação ofensiva, enquanto 17/01 marca o começo efetivo da campanha aérea no horário local de Bagdá. Uma parte das fontes, portanto, registra o “começo político-comunicacional”; outra registra o “começo operacional”. Em guerras mediadas por telas, isso pesa. 

O gatilho jurídico-político: o prazo da ONU e a passagem do ultimato ao ataque 

O início da guerra aérea não foi um “dia qualquer”: ele veio depois de uma escalada internacional e de um prazo formal. A Resolução 678 do Conselho de Segurança da ONU, aprovada em 29/11/1990, deu ao Iraque até 15/01/1991 para cumprir as resoluções relativas à ocupação do Kuwait e autorizou Estados membros a usar “todos os meios necessários” após o prazo. Quando o deadline expira sem retirada, a lógica do ultimato vira lógica de ataque — e o mundo entra naquela noite em que o céu de Bagdá se torna, ao mesmo tempo, alvo militar e “imagem” planetária. 

A “guerra televisada”: quando o conflito vira transmissão contínua 

A Guerra do Golfo é frequentemente lembrada como o momento em que a guerra passa a ser consumida em cobertura 24 horas, com entradas ao vivo, mapas, “briefings” e uma sensação de presença que molda emoção pública, pressão política e até a linguagem usada para descrever destruição. Uma frase virou símbolo desse instante: “The skies over Baghdad have been illuminated”, dita em transmissão ao vivo durante os primeiros ataques. O impacto disso é profundo: a guerra deixa de ser apenas um evento narrado depois; ela vira um fluxo de imagens e interpretações enquanto acontece e, com isso, governos e militares não disputam só território e objetivos, disputam também o enquadramento: “precisão”, “alvos estratégicos”, “dano colateral”, “libertação”, “necessidade”. 

Esse modelo de “guerra ao vivo” cria uma armadilha: a estética tecnológica (noites verdes, rastros luminosos, gráficos e termos técnicos) pode sugerir limpeza e controle. Só que a vida civil com água, energia, hospitais, comida, deslocamentos e trauma, não é limpa nem controlável por narrativa. 

Escala e intensidade: o que significou, na prática, uma campanha aérea massiva 

Os números ajudam a dimensionar por que aquela noite de 16–17/01 não foi apenas “o começo”, mas a abertura de uma máquina de guerra de grande escala. Em retrospectivas oficiais, a campanha aérea foi descrita como um esforço em que a coalizão realizou mais de 116 mil surtidas de combate e lançou 88.500 toneladas de bombas ao longo de semanas que antecederam a ofensiva terrestre (que, por sua vez, durou cerca de 100 horas). Esses números não são só estatística: eles traduzem volume de impacto, intensidade de destruição e, inevitavelmente, risco ampliado para civis, inclusive quando a intenção declarada é “militar”. 

Civis e direito internacional: a guerra não termina no alvo — ela continua na infraestrutura 

Quando se fala em “guerra e civis”, a pergunta central é: o que acontece quando o alvo não é apenas uma unidade militar, mas a infraestrutura que sustenta a vida cotidiana? O próprio debate sobre Direito Internacional Humanitário — distinção, proporcionalidade, precaução, obrigação de minimizar danos ganha um teste real quando entram em jogo redes integradas como eletricidade, água e saneamento. 

Um dos pontos mais duros, documentados por organizações de direitos humanos, é o efeito dominó da destruição de energia. O relatório Needless Deaths in the Gulf War, da Human Rights Watch (à época, Middle East Watch), registra que a coalizão virtualmente destruiu o sistema elétrico do Iraque, atingindo inclusive instalações hidrelétricas, e descreve como o colapso de energia afeta diretamente refrigeração, agricultura mecanizada e, de forma crítica, purificação de água e tratamento de esgoto, criando risco sério de saúde pública. O mesmo relatório destaca que, por ser uma rede integrada, não existe “desligar só o que serve ao comando” sem desligar também o que chega ao bairro, ao hospital, à casa.

O texto vai além e registra algo ainda mais sensível: após a guerra, o próprio Pentágono reconheceu que era impossível destruir a energia de certas instalações militares e industriais sem afetar parte do fornecimento à população e a Human Rights Watch cobra transparência e responsabilização sobre a ponderação entre vantagem militar e custo civil, justamente porque os efeitos sobre civis não são pontuais: eles são prolongados, cumulativos e desiguais.  

Trauma, deslocamentos e o “depois” que não cabe no plantão 

A cobertura ao vivo costuma capturar o instante do impacto; raramente captura o cotidiano quebrado. Em guerras, esse “depois” é onde a vida civil paga a conta: famílias separadas, rotas fechadas, fuga, medo, luto sem ritual, crianças com sono interrompido por sirenes e explosões, cidades que passam a funcionar sob apagões e escassez. Um estudo publicado no New England Journal of Medicine analisou efeitos da crise e da guerra sobre crianças no Iraque, apontando como o conflito e suas consequências pressionam sistemas de saúde e condições de vida — um lembrete de que o sofrimento civil não é “colateral”: ele é parte do impacto estrutural.  

E é por isso que a expressão “guerra televisada” precisa ser tratada com cuidado: a televisão (e hoje as redes) pode aproximar a audiência do evento, mas também pode reduzir a complexidade humana a fragmentos, a clipes, a justificativas rápidas — enquanto o trauma real se estende no tempo e se espalha, sobretudo, sobre quem já tinha menos proteção antes da primeira bomba. 

Um símbolo do dilema civil: o abrigo de Amiriyah 

A Guerra do Golfo também ficou marcada por episódios que sintetizam o dilema entre “inteligência militar” e presença civil. Um dos mais citados é o bombardeio do abrigo de Amiriyah, em Bagdá, em 13/02/1991, com ao menos 408 civis mortos segundo registros recorrentes. Independentemente das disputas posteriores sobre caracterização do alvo, o episódio virou um emblema da pergunta que insiste em voltar em todas as guerras modernas: o que acontece quando “o alvo” e “a vida civil” ocupam o mesmo prédio, a mesma rua, a mesma infraestrutura, a mesma madrugada? 

O que a dupla data ensina: o relógio muda, mas a obrigação de proteger vidas não deveria mudar 

A marcação 16–17/01/1991 parece um detalhe técnico, mas ela aponta para um fato maior: guerras são eventos globais também na forma como são registrados. A data muda conforme o relógio, e o sentido muda conforme o enquadramento. Por isso, lembrar essa efeméride não é “nostalgia de cronologia”: é insistir em três compromissos básicos — 1) civis não podem virar nota de rodapé; 2) direito internacional não pode ser ornamento retórico; 3) mídia e propaganda não podem substituir contexto, responsabilidade e memória. 

ComCausa e o dever de memória 

Para a ComCausa – Defesa da Vida, revisitar 16–17 de janeiro de 1991 é um exercício de educação em direitos humanos e leitura crítica de mídia: entender como conflitos são narrados, como a propaganda opera, como a tecnologia pode “embelezar” o horror e como os impactos humanitários se prolongam muito além do primeiro plantão. E isso se conecta diretamente ao nosso ecossistema de comunicação: a ComCausa faz parte da RedeDH, e a RedeDH.org.br é um canal/portal institucional dentro do site da ComCausa – Defesa da Vida, voltado a fortalecer memória, direitos, cidadania e informação qualificada — porque, no fim, toda defesa de civis começa com uma ideia simples: nenhuma guerra deveria ser tratada como entretenimento, e nenhuma vida deveria ser tratada como dano aceitável. 

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