Em 14 de janeiro de 2022, o Brasil se despediu de Thiago de Mello (1926–2022), poeta, tradutor e uma das vozes mais reconhecidas da literatura amazonense. Ele morreu aos 95 anos, em Manaus, deixando uma obra que atravessou fronteiras, foi traduzida para mais de 30 idiomas e permanece atual por um motivo simples e profundo: Thiago escreveu com a coragem de quem compreendia a palavra como responsabilidade histórica.
Nascido em Barreirinha (AM), Thiago de Mello projetou a Amazônia para o mundo sem folclorizar o território. Fez o oposto: tratou a floresta como centro moral do país — um lugar onde a vida se reinventa, mas também onde a violência econômica e política deixa marcas profundas. Por isso, sua poesia nunca foi mera “paisagem”: foi denúncia, afeto e compromisso.
Um poema que virou lei moral: Os Estatutos do Homem (1964)
Entre seus textos mais lidos e citados, Os Estatutos do Homem ocupa um lugar singular. Escrito em abril de 1964, no ambiente de ruptura institucional e repressão imposto ao país após o golpe militar, o poema funciona como um manifesto em forma de “ato institucional permanente”. Trata-se de uma ironia consciente que vira a lógica do autoritarismo do avesso e decreta, em versos, direitos fundamentais como a verdade, a vida, a justiça e a liberdade.
O que faz esse poema permanecer não é apenas sua beleza literária, mas sua utilidade pública. Ele circula em escolas, leituras coletivas, movimentos culturais e rodas de conversa como um lembrete permanente de que nenhum país se sustenta sem dignidade — e de que o cotidiano também precisa de princípios.


