Referência nacional em educação patrimonial, memória social e preservação ambiental, o Museu Vivo do São Bento (MVSB), em Duque de Caxias, atravessa um momento de incertezas profundas. Criado em 2008, o museu surgiu de uma articulação entre professores, pesquisadores, movimentos sociais e a sociedade civil da Baixada Fluminense, consolidando-se como o primeiro museu de percurso da região — modelo em que o próprio território é o acervo vivo.
O MVSB abriga uma riqueza histórica e ambiental única: sambaquis com mais de 6 mil anos, ruínas coloniais tombadas pelo IPHAN, manguezais, fragmentos de Mata Atlântica e espaços simbólicos dedicados à cultura afro-brasileira e às comunidades tradicionais da região. Com trilhas interpretativas, circuitos de visitação, formação de professores e intensa produção científica, o museu tornou-se símbolo de identidade local e cidadania ativa.
Mas a interrupção súbita de suas atividades educativas e científicas nas últimas semanas acendeu o alerta entre acadêmicos, educadores e militantes da cultura.
Transferência de equipe sem consulta e suspensão de atividades
Nos últimos meses, todos os profissionais vinculados ao MVSB foram transferidos da Secretaria Municipal de Educação para a Secretaria de Cultura, sem consulta pública, sem justificativa formal e sem garantia de continuidade dos projetos.
Educadores com atuação de longa data no museu foram realocados para escolas, e diversos projetos em andamento — como programas de formação docente, visitas guiadas, ações de educação ambiental, e até uma nova escavação arqueológica já financiada com emenda parlamentar — foram suspensos sem previsão de retomada.
O professor e pesquisador Nielson Bezerra, fundador e ex-diretor do Museu, afirma que a equipe original está completamente afastada da gestão e que acompanha as atividades apenas pelas redes sociais. Ele confirma que há promessas de reformas na sede e retomada de ações, mas teme o esvaziamento da proposta original:
“Mais do que uma mudança administrativa, o que está em jogo é o rompimento com a ideia de gestão participativa que sempre guiou o Museu. O MVSB foi construído coletivamente, com base no envolvimento direto da comunidade, e agora está sob comando político direto da administração, sem qualquer diálogo com os que o criaram.”
Patrimônio histórico e saber comunitário ameaçados
Com um formato de ecomuseu, o MVSB tinha como missão valorizar o território como fonte de saber. Visitantes, pesquisadores e estudantes percorriam trilhas históricas e ambientais, acompanhadas por educadores e lideranças locais que associavam saberes populares e conhecimento acadêmico.
Ao longo de quase 20 anos, o Museu impulsionou uma série de pesquisas e publicações que colocaram a história da Baixada Fluminense no mapa nacional da arqueologia e das ciências humanas, atuando como laboratório vivo de ensino e pesquisa, e como ponto de resistência cultural.
O acervo e as ações do Museu foram reconhecidos por instituições como o IBRAM e a Superintendência Estadual de Museus, e a sede chegou a ser contemplada com recursos de edital público para reforma, cuja execução agora também é incerta.
Críticas à nova gestão e mobilização pela continuidade
A substituição repentina da equipe, sem debate público, foi interpretada por muitos como uma violência simbólica contra um projeto cultural coletivo. Pesquisadores e agentes culturais alertam para o risco de o Museu ser transformado em um aparelho institucional tradicional, distanciado da comunidade e da proposta original de gestão horizontal, autônoma e enraizada no território.
Entidades de defesa do patrimônio e movimentos sociais denunciam a falta de transparência, a ausência de plano de gestão, e temem que a nova direção, indicada diretamente pelo Executivo municipal, se limite a ações pontuais, esvaziando o potencial político, educacional e identitário do MVSB.
“Sem a comunidade, sem as escolas, sem os pesquisadores, não existe Museu Vivo. Ele não é apenas um prédio ou um evento. É um processo vivo de construção coletiva da memória da Baixada”, defende um ex-integrante da equipe.
Legado ameaçado, futuro indefinido
Mesmo com o anúncio de possíveis obras na sede e publicações em redes sociais da nova gestão, a ausência de planejamento estruturado, de diálogo com a sociedade e de compromissos com a educação patrimonial levanta dúvidas sobre o real destino do Museu.
Enquanto isso, mobilizações seguem em curso, com a comunidade acadêmica, professores, lideranças locais e ativistas se organizando para pressionar o poder público a garantir a preservação da essência do projeto: o protagonismo comunitário, a educação popular e a valorização do território como patrimônio vivo.
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