O município de Nilópolis encerrou, no dia 29 de setembro, a campanha Setembro Amarelo de 2025 de forma marcante, realizando o Encontro pela Vida no auditório do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ). A atividade, que reuniu gestores públicos, educadores, profissionais de saúde, estudantes e membros da comunidade, não apenas promoveu um momento de reflexão coletiva sobre os desafios da saúde mental, mas também apresentou uma medida concreta que projeta esperança para o futuro: a criação da Sala Girassol, um espaço voltado ao acolhimento psicológico imediato da população.
Com a crescente preocupação diante do aumento dos casos de suicídio em todo o país e na Baixada Fluminense, a iniciativa se insere em um esforço maior de transformar campanhas pontuais em políticas públicas de cuidado contínuo. O novo espaço, que funcionará na sede da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social, foi batizado de Sala Girassol em alusão à obra de Vincent van Gogh, artista cuja trajetória de sofrimento mental e sensibilidade criativa tornou-se símbolo de luta e reflexão sobre saúde psicológica. Assim como os girassóis buscam a luz, a proposta é que cada pessoa atendida encontre um ambiente de esperança, afeto e reconstrução.
“Foi um encontro de troca, aprendizado e conscientização, que reforça a necessidade de cuidarmos uns dos outros e lembrarmos que falar é a melhor solução e reconhecer é proteger. Que esse aprendizado se multiplique e fortaleça a nossa rede de apoio e acolhimento”, afirmou a secretária de Desenvolvimento Social, Everline Lima, durante a cerimônia, destacando o papel da coletividade no enfrentamento do estigma ainda existente em torno do tema.
Arte como instrumento de transformação
A abertura do evento contou com uma apresentação artística profundamente simbólica: cinco alunos da Escola de Teatro Celso Mosciaro encenaram a peça Sinais, dirigida pelo professor Lucas Rezende. A obra trouxe à cena o drama silencioso de quem convive com o sofrimento psíquico e, ao mesmo tempo, projetou mensagens de empatia, escuta e solidariedade.
“O teatro, nesse contexto, é mais do que entretenimento: é uma ferramenta de conscientização. Nosso intuito é oferecer apoio, transmitir palavras positivas e esperança, para evitar que essas pessoas considerem o suicídio como saída”, declarou Rezende, reforçando o papel da cultura como instrumento de educação e prevenção.
Conhecimento e prevenção
A programação também foi marcada pela palestra ministrada pelo Major BM José Carlos Alves Evangelista, do Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro, que trouxe um olhar técnico e humano sobre a importância de identificar sinais e agir preventivamente. Ao final, os bombeiros presentes receberam uma moção de congratulações, reconhecimento concedido a instituições que contribuem de forma significativa para o bem-estar social e a proteção da vida.
Participação institucional e coletiva
A mesa solene contou com a presença de diversas autoridades, incluindo o prefeito Abraãozinho, o deputado federal Ricardo Abrão, o vice-prefeito Alvinho, o vereador Armando Paiano, além dos secretários Everline Lima (Desenvolvimento Social) e Antônio Carlos (Cultura).
Em sua fala, o prefeito destacou a importância da escuta atenta no cotidiano, sobretudo dentro das famílias:
“Nos reunimos hoje com o objetivo de adquirir conhecimentos que podem ser cruciais para salvar vidas. Muitas vezes, sob o mesmo teto, ignoramos as dificuldades e os sentimentos daqueles que nos cercam. Este encontro nos oferece a oportunidade de aprender a ouvir e a identificar sinais, para assim intervir e oferecer o apoio necessário”, salientou Abraãozinho, evidenciando a necessidade de transformar sensibilidade em prática cotidiana.
A trajetória do Setembro Amarelo
Criada no Brasil há dez anos, a campanha Setembro Amarelo é uma das maiores iniciativas de prevenção ao suicídio no mundo. Seu propósito é romper silêncios, combater preconceitos e construir uma cultura de diálogo sobre saúde mental.
Sua origem remonta a 1994, nos Estados Unidos, com a história de Mike Emme, jovem de apenas 17 anos que tirou a própria vida. Mike, conhecido como Mustang Mike por ter restaurado e pintado de amarelo um automóvel Mustang 68, deixou uma marca involuntária: no dia de seu velório, familiares e amigos distribuíram cartões acompanhados de fitas amarelas com a mensagem: “Se precisar, peça ajuda”. O gesto, simples e simbólico, transformou-se em um movimento global que, décadas depois, continua ecoando.
Nilópolis e a construção de uma rede de cuidado
Ao encerrar o Setembro Amarelo com o anúncio da Sala Girassol, Nilópolis inscreve-se em um movimento maior de municípios que reconhecem que saúde mental deve ser tratada como prioridade permanente. Mais do que um espaço físico, a sala representa um compromisso político e comunitário de não deixar ninguém sozinho diante de suas dores invisíveis.
Se o amarelo da campanha nasceu de uma tragédia, em Nilópolis ele se transforma em sinal de resistência e esperança: um convite para que cada cidadão reconheça os sinais, ofereça apoio e contribua para fortalecer a rede de cuidado que protege e valoriza a vida.
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