Noite no Garage celebra punk rock, memória e encontro histórico com Alex Podrão

Noite no Garage celebra punk rock, memória e encontro histórico com Alex Podrão Detrito Federal Bsb H

A noite de domingo, 14 de junho de 2026, no Garage Grindhouse, na Rua Ceará, Praça da Bandeira, no Rio de Janeiro, não foi apenas mais uma data na agenda da cena independente. Foi uma daquelas noites em que a música deixa de ser somente som e se transforma em memória, reencontro, afeto e reconhecimento.

Em um dos espaços mais emblemáticos da cultura underground carioca, o público se reuniu para celebrar o punk rock com apresentações das bandas Mundo no Kaos, Punkeando Raul, Resmungo, Desordem S.A. e Velhos Coturnos. A noite teve ainda a presença especial de Alex Podrão, vocalista da histórica banda Detrito Federal e BSB-H, uma das referências do punk e do rock de Brasília.

O encontro carregava um peso simbólico que ultrapassava o palco. Para muitos, era uma celebração da resistência cultural. Para Adriano Dias, jornalista, fundador da ComCausa, produtor cultural e integrante da Desordem S.A., foi também um reencontro com a própria história.

“Eu conheci o punk rock no começo dos anos 80. Para mim, aquilo nunca foi apenas música. Foi descoberta, atitude, inconformismo e uma forma de entender o mundo”, afirma Adriano.

No final dos anos 1980, Adriano participou de sua primeira banda, a FDK. Naquele tempo, os ensaios, as fitas, as referências vindas de outras cidades e a vontade de tocar formavam uma espécie de escola afetiva e política. Entre as bandas que marcaram aquele período estava o BSB-H, referência da cena brasiliense que ajudou a ampliar o horizonte de muitos jovens ligados ao punk rock.

“Naquela época, tudo era muito intenso. Os ensaios, as fitas, a vontade de tocar, de gritar, de estar junto e de fazer parte de uma cena que mudava a gente por dentro”, relembra.

Entre as figuras que atravessaram essa memória estava Alexandre Veiga dos Santos, conhecido artisticamente como Alex Podrão. Vocalista do Detrito Federal, professor, pesquisador, músico, autor e personagem fundamental da história do rock de Brasília, Podrão representa uma geração que transformou inquietação juvenil em música, atitude e registro histórico.

“Entre tantas referências que me marcaram, estava o Alex Podrão. Ele faz parte de uma memória viva do punk e do rock de Brasília. A trajetória dele ajudou muita gente, inclusive eu, a acreditar que era possível fazer música com coragem, identidade e verdade”, destaca Adriano.

No Garage Grindhouse, mais de 40 anos depois das primeiras descobertas de Adriano no punk rock, esse encontro finalmente aconteceu. Não como uma lembrança distante, mas como presença concreta. Voz, abraço, palco e partilha.

“Conhecer o Podrão pessoalmente, depois de tanto tempo, não foi um encontro qualquer. Foi como encontrar uma parte da minha própria história. Uma referência que estava lá atrás, quando tudo ainda era começo, apareceu diante de mim de carne, osso, voz e generosidade”, conta.

A emoção ganhou contornos ainda mais fortes quando Alex Podrão cantou com a Desordem S.A. e Adriano pôde participar brevemente de uma música do BSB-H ao lado dele. Naquele momento, diferentes tempos se encontraram no mesmo palco: a juventude dos anos 1980, a memória da FDK, a força do BSB-H, a trajetória do Detrito Federal e a caminhada atual da Desordem S.A.

“A noite me deu mais do que eu poderia imaginar. Tive o privilégio de ver o Podrão cantando com a minha banda atual e ainda pude cantar com ele uma música do BSB-H. Para mim, aquilo foi memória, emoção e reconhecimento”, afirma Adriano.

Mais do que uma participação musical, o momento simbolizou uma ponte entre gerações. Era o jovem que descobriu o punk rock no começo dos anos 1980 encontrando o adulto que segue acreditando na cultura independente como espaço de expressão, resistência e vida coletiva.

“Eu não vivi apenas uma noite de show. Vivi um encontro com uma referência, com uma história coletiva e com um pedaço muito importante da minha própria trajetória”, resume.

Rua Ceará, Garage e resistência cultural

A noite também reafirmou a importância da Rua Ceará e do Garage Grindhouse como territórios de resistência cultural no Rio de Janeiro. Em um cenário no qual artistas, produtores, bandas e casas independentes enfrentam dificuldades constantes, encontros como esse renovam a certeza de que a cultura segue sendo abrigo e força.

No palco e fora dele, havia mais do que apresentações. Havia amizades antigas, novas conexões, lembranças, afetos, livros, conversas e a sensação de que a música ainda é capaz de juntar pessoas em torno de algo maior. “Cada um de nós tem suas pausas de refazimento. Muitas vezes, elas acontecem no meio do barulho, das responsabilidades, dos prazos atrasados, das limitações financeiras e das dificuldades que a vida coloca no caminho. Nem sempre é fácil seguir. Mas também tem fé, amizade, gente que chega junto, música, velha juventude, memória e causa”, afirma Adriano.

Essa dimensão humana foi uma das marcas da noite. O show não se resumiu ao repertório das bandas, mas ao encontro entre trajetórias. Cada apresentação trouxe sua contribuição para manter viva uma cena que, mesmo longe dos grandes circuitos comerciais, continua produzindo sentido, pertencimento e memória. “Mesmo diante das dificuldades, a cultura segue sendo abrigo, voz e esperança. E o punk rock continua vivo em todos nós”, completa Adriano.

O livro como registro de uma geração

A presença de Alex Podrão também levou ao Garage a força do livro “Crônicas e Mitos do Rock de Brasília 1982–1994”, obra em que o autor revisita um dos períodos mais criativos e marcantes da música brasiliense.

O livro recupera personagens, bandas, shows, bastidores, conflitos, afetos e mitologias que ajudaram a consolidar Brasília como uma das grandes referências do rock brasileiro. Mais do que uma reunião de fatos, a obra busca preservar atmosferas, vivências e contradições de uma cena construída por jovens que encontraram na música uma forma de expressão e enfrentamento.

Entre 1982 e 1994, Brasília viveu um período de intensa produção cultural. Bandas, fanzines, fitas demo, coletâneas, compactos independentes, espaços alternativos e redes de amizade ajudaram a dar forma a uma cena que ultrapassou os limites da cidade e passou a ocupar lugar definitivo na história do rock nacional.

No Garage, portanto, o livro não apareceu como elemento separado do show. Ele fazia parte da mesma narrativa. O palco, as bandas, os depoimentos, as lembranças e a obra de Alex Podrão apontavam para uma mesma necessidade: preservar a memória de uma cultura que segue viva porque ainda encontra quem a conte, toque e compartilhe.

Próximo encontro será em Brasília

Depois da noite no Rio de Janeiro, Adriano Dias deve reencontrar Alex Podrão em Brasília na próxima semana. O novo encontro acontecerá em meio à programação de lançamento do livro “Crônicas e Mitos do Rock de Brasília 1982–1994”, marcada para o dia 25 de junho, quinta-feira, a partir das 19h30, no Teatro dos Bancários, em Brasília.

Serviço

Evento: Noite de Livros e Rock ao Vivo
Data: 25 de junho, quinta-feira
Horário: A partir das 19h30
Local: Teatro dos Bancários — EQS 314/315, Bloco A, Asa Sul, Brasília/DF
Entrada: Franca

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