A política do Estado do Rio de Janeiro pode entrar, em 2026, num daqueles roteiros em que a regra constitucional — pouco discutida no dia a dia — vira protagonista. A hipótese que circula nos bastidores é simples de enunciar e complexa de operar: se o governador Cláudio Castro decidir renunciar para disputar uma vaga no Senado, o Rio pode ter uma sucessão extraordinária, sem vice para herdar o cargo e com a Assembleia Legislativa (Alerj) chamada a escolher, indiretamente, quem comandará o Palácio Guanabara até janeiro de 2027. Esse “mandato-tampão” é curto no calendário, mas enorme no peso político, porque acontece exatamente no período em que o estado atravessa a campanha eleitoral.
O assunto voltou a ganhar tração por um conjunto de fatores que se empilharam nos últimos meses: a vacância do cargo de vice-governador, a crise interna na própria Alerj e a necessidade de construir, em prazo apertado, uma maioria parlamentar para um processo incomum. É nesse cenário que André Ceciliano (PT) reaparece como nome lembrado por setores que buscam uma alternativa com trânsito institucional e capacidade de costura.
O gatilho: renúncia do governador e a “peça” que falta na sucessão
Em condições normais, a sucessão no Executivo estadual é direta: saiu o governador, assume o vice. O problema é que o Rio está sem vice-governador desde maio de 2025, quando Thiago Pampolha deixou o posto após ter seu nome aprovado para o Tribunal de Contas do Estado (TCE).
Sem vice, o estado passa a depender da linha sucessória prevista na Constituição estadual. E aí o enredo muda de patamar: a transição deixa de ser automática e passa a exigir uma combinação de rito legislativo, prazos e arranjos políticos.
O que a Constituição do RJ prevê quando governador e vice ficam vagos
A Constituição do Estado do Rio de Janeiro estabelece que, havendo impedimento ou vacância simultânea de governador e vice, são chamados, sucessivamente, o presidente da Alerj e o presidente do Tribunal de Justiça. Mas o ponto decisivo está no artigo seguinte. O Art. 142 fixa a regra geral (eleição após 90 dias da última vaga) e, ao mesmo tempo, cria a exceção que mais importa para 2026: se a vacância ocorrer nos últimos dois anos do período governamental, a eleição para governador e vice é feita pela Alerj, 30 dias depois da última vaga, “na forma da lei” — e os eleitos completam o mandato.
Em português claro: dependendo do momento da vacância, a escolha pode sair do voto direto e cair no plenário da Alerj. É a possibilidade institucional do “governador-tampão”.
Por que a crise na Alerj virou parte do problema
Se a Constituição empurra a Alerj para o centro do palco, a Alerj também chega a esse palco com seus próprios ruídos. No começo de dezembro de 2025, o então presidente da Casa, Rodrigo Bacellar (União), foi preso em operação da Polícia Federal sob suspeita de envolvimento em vazamento de informações sigilosas relacionadas a uma ação que mirou o deputado conhecido como TH Joias.
Com a prisão e o afastamento, o comando da Assembleia passou a ser exercido interinamente pelo 1º vice-presidente, Guilherme Delaroli (PL), movimento descrito por veículos que acompanharam a transição interna e as disputas por espaço na Mesa Diretora. Esse detalhe não é burocrático: a eleição indireta, se acontecer, será organizada e conduzida por uma Alerj sob pressão, discutindo rito, elegibilidade, prazos e, sobretudo, legitimidade política.
Chamar de “tampão” pode sugerir algo meramente administrativo — mas a política não funciona assim. Quem assume o governo no meio do ano eleitoral ganha: capacidade de definir prioridades do Executivo – agenda e ritmo de entregas -; comando sobre articulações com secretarias e órgãos estaduais; exposição pública diária, com impacto direto sobre alianças e palanques. Mesmo com tempo limitado, é um posto que reposiciona forças e pode redesenhar a campanha. Por isso, a disputa por um mandato que termina em janeiro de 2027 tende a ser tratada como disputa “de verdade”, não como solução provisória.
Por que André Ceciliano é lembrado nesse cenário
Num processo de eleição indireta, o que pesa não é a capacidade de mobilizar grandes atos, e sim a de fechar maioria no plenário em pouco tempo, com um roteiro jurídico-político sensível e sob forte escrutínio. É por isso que André Ceciliano (PT) volta a aparecer como alternativa “viável” para setores que enxergam a transição como um teste de governabilidade, e não como um ensaio de campanha.
André carrega um ativo raro nesse tipo de disputa: conhece a Alerj por dentro. Presidiu a Casa, conduziu votações difíceis, atravessou momentos de pressão sobre o estado e operou a engrenagem mais decisiva numa eleição indireta: o relacionamento com lideranças, bancadas, comissões e a Mesa Diretora. Em situações de prazo curto, esse histórico costuma funcionar como credencial de “entrada imediata” — alguém que sabe onde estão os gargalos, quem decide, como se constrói uma maioria e quais são os pontos que costumam virar contestação.
A marca de austeridade como argumento de transição
Há, ainda, um elemento de narrativa que se encaixa bem no perfil de um governo-tampão: a promessa de previsibilidade fiscal e administrativa. Na sessão de encerramento de 2022, a Alerj registrou devolução de recursos e divulgou uma economia acumulada relevante ao longo de anos. Na linguagem do bastidor, isso vira um argumento simples: em vez de um governo de ruptura, um tampão exigiria “arrumação”, gestão conservadora do orçamento e menor risco de sobressaltos — sobretudo num estado em que o tema fiscal costuma voltar à mesa em qualquer crise.
Outro fator que ajuda a explicar por que Ceciliano é tratado como nome “operacional” é a existência de um portfólio de medidas concretas associadas à sua passagem pela presidência do Legislativo. No jogo político, números viram munição: repasses para áreas estratégicas (saúde, educação, resposta a emergências climáticas, segurança pública) podem ser defendidos como evidência de capacidade de destravar decisões sob pressão — mesmo quando também geram críticas sobre prioridades, critérios e timing. A disputa, aqui, não é apenas sobre o mérito das doações, mas sobre o que elas sinalizam: capacidade de produzir acordos e entregar resultados dentro da lógica institucional do Rio.
O fator Brasília e a leitura sobre Lula
Nos bastidores, a menção a Lula aparece menos como anúncio formal e mais como cálculo político. Em um mandato-tampão, a prioridade costuma ser reduzir turbulência, evitar isolamento e manter canais abertos com o governo federal. Nesse contexto, Ceciliano é visto por aliados como alguém que poderia oferecer uma ponte funcional com Brasília, pela posição que ocupa e pelo histórico de articulação.
A “preferência” atribuída ao presidente, quando citada, costuma ser entendida como preferência por previsibilidade e governabilidade: alguém capaz de atravessar a transição sem multiplicar conflitos, num período em que o Rio tende a ser vitrine nacional por causa da eleição. Não significa, necessariamente, um endosso público — significa a leitura de que, em crises institucionais, Brasília tende a apostar em interlocutores considerados confiáveis e experientes.
O que vem pela frente: o teste do rito e a conta de votos
Mesmo com nomes circulando, o ponto decisivo continua sendo o mesmo: regra, prazo e maioria. A Alerj precisaria organizar o rito com segurança jurídica, definir critérios e reduzir espaço para contestação. Ao mesmo tempo, cada partido e bloco calcularia o custo político de entregar — ainda que provisoriamente — o comando do Executivo a um grupo rival ou a um nome visto como “terceira via” institucional. Nesse tipo de disputa, o placar raramente se resolve por afinidade ideológica pura. Ele costuma passar por arranjos pragmáticos: compromissos de transição, composição de secretariado, garantias de neutralidade administrativa durante a campanha e, principalmente, o compromisso de que o tampão não se transforme numa máquina eleitoral desequilibrada.
Por que isso importa?
Quando a sucessão sai do voto direto e entra no terreno da eleição indireta, cresce a exigência por transparência e controle público: regras claras, publicidade do processo, prevenção de conflitos de interesse e limites explícitos para o uso da máquina estatal em período eleitoral. Para organizações da sociedade civil que atuam com direitos, integridade pública e políticas de cuidado — como a ComCausa – Defesa da Vida — o ponto central é que a estabilidade institucional não pode significar silêncio sobre prioridades: segurança com cidadania, saúde, educação, resposta a emergências e proteção de direitos precisam continuar no centro, independentemente de quem esteja no comando provisório do Palácio Guanabara.
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