Ouvir sem julgar: a importância do acolhimento e da empatia entre os jovens

Saúde Mental

Estudo aponta que mais de 15 milhões de crianças, adolescentes e jovens brasileiros convivem com transtornos mentais. Diálogo, acolhimento e acesso ao cuidado são fundamentais para enfrentar o sofrimento emocional e fortalecer as redes de apoio.

No Brasil, aproximadamente 15,6 milhões de crianças, adolescentes e jovens entre 5 e 29 anos convivem com pelo menos um transtorno mental, o equivalente a 20,91% da população dessa faixa etária. Os dados fazem parte de um estudo publicado em agosto de 2026 na revista científica The Lancet Regional Health – Americas, com base em estimativas de 2023. A pesquisa evidencia a dimensão dos desafios relacionados à saúde mental das juventudes e reforça a importância de ampliar o diálogo, combater o preconceito e garantir espaços seguros de acolhimento

A ansiedade aparece entre os principais problemas identificados pelo levantamento, destacando-se como importante causa de incapacidade não fatal nas diferentes faixas etárias analisadas. Os resultados demonstram que os cuidados com a saúde mental precisam começar ainda na infância e acompanhar adolescentes e jovens durante suas diferentes etapas de desenvolvimento.

Mais do que apresentar números, essas informações revelam a necessidade de reconhecer que o sofrimento emocional faz parte da realidade de muitas pessoas. Sentimentos como medo, tristeza, insegurança e ansiedade podem surgir em diferentes momentos da vida, mas nem sempre encontram espaços de diálogo e compreensão.

A importância de ouvir sem julgar

Muitos jovens enfrentam situações difíceis sem saber com quem conversar. O receio de serem julgados, desacreditados ou considerados fracos pode fazer com que escondam seus sentimentos, dificultando a busca por apoio.

Por isso, desenvolver uma cultura de escuta, respeito e acolhimento é fundamental. Uma conversa sincera, a presença de alguém de confiança e a oportunidade de expressar sentimentos sem medo podem fazer diferença na vida de quem enfrenta momentos de sofrimento.

Ouvir também significa reconhecer que cada pessoa vivencia seus problemas de maneira diferente. Comparar sofrimentos, minimizar sentimentos ou afirmar que alguém está exagerando pode aumentar o isolamento emocional.

O acolhimento começa quando reconhecemos que a dor do outro merece respeito, independentemente de sua origem ou intensidade.

O silêncio também pode ser um sinal de sofrimento

Nem sempre uma pessoa consegue expressar aquilo que sente. Em alguns casos, o sofrimento aparece por meio de mudanças de comportamento, afastamento dos amigos, dificuldades escolares, alterações no sono, irritabilidade ou perda de interesse por atividades que antes proporcionavam prazer.

Esses comportamentos não significam necessariamente a existência de um transtorno mental, mas podem indicar a necessidade de atenção e diálogo.

É importante compreender que pedir ajuda nem sempre é simples. Para muitos adolescentes e jovens, falar sobre emoções envolve enfrentar o medo da rejeição, a vergonha e a preocupação de não serem compreendidos.

Construir relações baseadas na confiança e no respeito pode ajudar a romper esse silêncio e facilitar o acesso ao cuidado.

Escola, família e amigos fazem parte da rede de apoio

A promoção da saúde mental não depende apenas de decisões individuais. A família, a escola, os amigos e os espaços comunitários desempenham papel importante na construção de ambientes onde crianças, adolescentes e jovens possam se sentir protegidos e respeitados.

Nas escolas, incentivar o diálogo sobre emoções, enfrentar o bullying e desenvolver atividades de convivência pode contribuir para relações mais saudáveis.

No ambiente familiar, atitudes como ouvir com atenção, respeitar os sentimentos e evitar julgamentos ajudam a fortalecer os vínculos de confiança.

Entre amigos, demonstrar preocupação, oferecer companhia e incentivar a busca por ajuda quando necessário são formas importantes de solidariedade.

Também é fundamental reconhecer que o acolhimento não substitui o acompanhamento profissional quando ele se faz necessário. O cuidado com a saúde mental deve envolver tanto as relações de apoio quanto o acesso aos serviços de saúde.

Saúde mental é um direito e precisa de políticas públicas

A saúde mental é parte fundamental do direito à saúde. Por isso, promover o bem-estar emocional dos jovens também significa defender políticas públicas que garantam atendimento acessível, gratuito, humanizado e adequado às necessidades de cada faixa etária.

No Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece atendimento por meio das Unidades Básicas de Saúde (UBS) e de serviços especializados, como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), que integram a rede de atenção psicossocial.

O fortalecimento dessas políticas é especialmente importante em territórios marcados por desigualdades sociais, dificuldades de acesso aos serviços públicos e diferentes formas de violência, situações que podem ampliar as vulnerabilidades vivenciadas por adolescentes e jovens.

Garantir o direito à saúde mental também envolve combater a discriminação, promover espaços de convivência, ampliar o acesso à cultura, à educação e ao lazer e fortalecer redes comunitárias de proteção.

Onde buscar ajuda e acolhimento

Jovens que estejam enfrentando sofrimento emocional podem procurar orientação nas unidades de saúde, conversar com profissionais de confiança ou buscar atendimento nos serviços especializados do SUS.

O Centro de Valorização da Vida (CVV) também oferece apoio emocional gratuito e sigiloso, 24 horas por dia, pelo telefone 188. Em situações de emergência ou risco imediato, é importante procurar uma unidade de urgência ou acionar o SAMU pelo telefone 192.

Buscar ajuda não deve ser motivo de vergonha. Reconhecer a necessidade de cuidado é parte do processo de proteção da saúde e da construção de uma vida com mais dignidade.

Falar sobre saúde mental é valorizar a vida

Promover o diálogo sobre saúde mental significa reconhecer que os sentimentos importam e que ninguém precisa fingir estar bem o tempo todo, juventude precisa encontrar espaços onde possa compartilhar experiências, expressar suas dificuldades e construir relações de confiança, sem medo de julgamentos.

Aprender a ouvir mais e julgar menos é um compromisso coletivo que envolve famílias, escolas, instituições, serviços públicos e toda a sociedade.

Cuidar da saúde mental dos jovens é defender o direito de cada criança, adolescente e jovem de ser ouvido, respeitado, acolhido e de ter acesso ao cuidado quando precisar.

Sobre o Programa Juventude Solidária

O Programa Juventude Solidária é uma iniciativa de participação social, voluntariado e formação de jovens, articulada com a Secretaria Nacional de Juventude, vinculada à Secretaria-Geral da Presidência da República, e desenvolvida pela ComCausa, por meio do Núcleo uventudes.ComCausa, a partir de diferentes projetos protagonizados por jovens.

As ações envolvem comunicação, cultura, direitos humanos, prevenção das violências, inclusão digital, participação comunitária e mobilização nos territórios, buscando fortalecer a autonomia, a formação cidadã e o protagonismo juvenil.

Matéria por: Julha Chaves e Bianca de Sá

Imagem de capa ilustrativa.

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