Passarela do Rock: Quando Mesquita foi o coração do rock na Baixada Fluminense

Passarela do Rock tem data marcada para reencontro histórico em Mesquita

Entre os trilhos da SuperVia e as ruas estreitas do centro de Mesquita, nasceu um movimento cultural que marcou uma geração e redesenhou a ocupação do espaço público na Baixada Fluminense. De 2001 a 2007, a Praça Secretária Elizabeth Paixão, em frente à estação ferroviária, foi palco de um fenômeno que cresceu espontaneamente, à margem das instituições, e que, por isso mesmo, ganhou força: a Passarela do Rock.

Aos domingos, quando o comércio encerrava suas atividades e a cidade parecia mergulhar em sua rotina interiorana, um outro tipo de vida emergia. Coturnos batiam no asfalto, guitarras ecoavam da carroceria de um caminhão estacionado no meio da praça, e milhares de jovens se reuniam para afirmar o direito de existir em seus próprios termos. Estima-se que, em seu auge, o evento reunia de 2 a 3 mil pessoas a cada semana.

Ali, a praça deixava de ser apenas passagem. Tornava-se território. Um território marcado por roupas pretas, cabelos coloridos, piercings, fanzines, panfletagens e afetos. Era, ao mesmo tempo, um espaço de sociabilidade, de manifestação estética e de insurgência simbólica. Quem passava ali não encontrava apenas um show: encontrava um espelho de si mesmo, um palco para dizer que a juventude da Baixada tem voz, história e cultura.

Uma cena que não nasceu do acaso

A Passarela do Rock foi a culminância de um processo. Desde os anos 1980, jovens da Baixada Fluminense vêm construindo uma cena cultural alternativa em resposta ao apagamento histórico que sempre marcou a região. Em São João de Meriti, o lendário Caverna 1 já era ponto de efervescência do rock independente. Nos anos 1990, o movimento se ampliou com o surgimento do Hillos Rock, em Nova Iguaçu, idealizado por pessoas que mais tarde fundariam a ComCausa. Em Mesquita, o Bar da Sônia tornou-se um dos principais catalisadores dessa energia juvenil, abrindo espaço para bandas em uma pepuena “birosca” que terminei muitas madrigadas.

A Passarela do Rock surge, portanto, não como algo isolado, mas como resultado de uma cadeia de mobilizações que se alimentava de luta, solidariedade e criatividade. O que unia essas experiências era a busca pela liberdade — de criação, de ocupação, de identidade que agradeço muito a oportunidade de acompanhar.

Um palco improvisado para um espetáculo real

O palco da Passarela era, literalmente, um caminhão de bebidas. Durante a semana, ele rodava a cidade fazendo entregas; aos domingos, era convertido em plataforma de resistência cultural. O som era precário. Não havia iluminação cênica, nem camarim, nem cachê. Mas havia verdade. E essa verdade era compartilhada por centenas de jovens que chegavam sozinhos, em grupos, de bicicleta ou trem, prontos para viver o que se tornaria, para muitos, uma das experiências mais marcantes de suas vidas.

Era comum ver panfletagens políticas, performances espontâneas, discussões acaloradas sobre música, direitos, violência policial e liberdade sexual. A Passarela não era apenas entretenimento: era formação, articulação e pulsação coletiva.

Conflito de estéticas, disputa de território

Mas nem todos viam o movimento com bons olhos. A forte presença de jovens alternativos colidiu com os valores conservadores que moldam boa parte da vida social de Mesquita. A ocupação da praça coincidindo com os cultos evangélicos dominicais gerou tensões. A estética do rock — caveiras, batons escuros, franjas emo, coturnos, símbolos contraculturais — passou a ser interpretada por muitos como ofensiva, quando não demoníaca.

O que deveria ser entendido como expressão da diversidade passou a ser alvo de criminalização. A situação se agravou em 2003, com o assassinato de dois jovens góticos após uma festa informal no cemitério municipal. O episódio foi amplamente divulgado na imprensa, que, como de costume ao tratar da Baixada Fluminense, reduziu a narrativa ao sensacionalismo policial. A cultura foi esquecida; o estigma, reforçado.

Mesmo assim, a Passarela resistiu. A despeito da ausência de políticas públicas e de qualquer infraestrutura institucional, o evento seguiu mobilizando multidões até 2007, quando foi encerrado.

O golpe simbólico: da guitarra à Bíblia

O reconhecimento oficial veio tarde. Em 2006, a Passarela foi incluída no Plano Diretor de Mesquita como atividade cultural. E em 2014, após mobilizações de ex-frequentadores e coletivos culturais, foi criada a Semana Municipal do Rock, por meio da Lei nº 815/2014. Parecia o início de uma reparação histórica.

No entanto, em 2015, a Prefeitura de Mesquita inaugurou um monumento em forma de Bíblia Sagrada no centro da Praça Elizabeth Paixão — exatamente no espaço onde, anos antes, os jovens montavam seu palco improvisado. A obra de concreto e ferro, com mais de 8 metros de altura, é visível de toda a região central. Sua imponência marca, simbolicamente, uma mudança de paisagem e de narrativa. O território antes marcado por liberdade estética, agora é formalmente ocupado por um símbolo de religiosidade institucionalizada. O rock foi empurrado para a margem.

Como define o geógrafo Rogério Haesbaert, os territórios são sempre “espaços de poder”. A praça foi, e segue sendo, um campo de disputa simbólica — entre o que se quer lembrar e o que se tenta esquecer.

Memória que resiste, cultura que reaparece

A Passarela do Rock pode não existir mais como evento semanal. Mas ela resiste enquanto memória. Nas redes sociais, nos registros fotográficos, nas falas daqueles que viveram a experiência. Está presente nos festivais alternativos que ainda florescem pela Baixada, nos coletivos culturais que seguem lutando por espaço, e nas vozes que se negam a aceitar o esquecimento como destino.

E neste sábado, 12 de julho, em celebração ao Dia Mundial do Rock, a memória se transforma em ação. Um grupo de antigos frequentadores, bandas locais e ativistas culturais se reunirá em Mesquita para promover um reencontro simbólico. Mais do que um evento, será um gesto político de retomada da história e afirmação da cultura como direito.

Reencontrar a Passarela é mais do que lembrar o passado. É enfrentar o presente e projetar o futuro. É declarar que a juventude da Baixada Fluminense tem nome, rosto, voz — e que sua cultura não será apagada.

Porque onde houve música, memória e resistência, sempre haverá território.

Serviço:
Reencontro da Passarela do Rock
Data: Sábado, 12 de julho
Local: Praça Secretária Elizabeth Paixão, Centro de Mesquita
Programação: apresentações musicais, rodas de conversa e intervenções culturais
Entrada gratuita

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