Pier Giorgio Frassat: santo que enfrentou o fascismo e viveu pelos pobres

Pier Giorgio Frassat santo que enfrentou o fascismo e viveu pelos pobres ComCausa

Num momento simbólico para a Igreja e para a juventude católica, o papa Leão XIV canonizou neste domingo (7) os beatos Pier Giorgio Frassati (1901–1925) e Carlo Acutis (1991–2006), em cerimônia solene na Praça de São Pedro, no Vaticano. A celebração, que marcou as primeiras canonizações do atual pontificado, reuniu dezenas de milhares de fiéis e delegações de vários países, como Itália, Reino Unido, Polônia e Ordem de Malta.

Enquanto Carlo Acutis ficou conhecido como o “padroeiro da internet”, Pier Giorgio Frassati foi lembrado como o universitário que escolheu viver radicalmente o Evangelho nas ruas, nas montanhas e entre os pobres — sem jamais se omitir diante da ascensão do fascismo na Itália.

Juventude, família e primeiros passos

Pier Giorgio Frassati nasceu em 6 de abril de 1901, em Turim, no seio de uma família abastada. Seu pai, Alfredo Frassati, foi fundador do jornal La Stampa e embaixador da Itália na Alemanha; sua mãe, Adelaide Ametis, era uma pintora renomada, com obras adquiridas até pelo rei Vittorio Emanuele III. Os Frassati eram uma das famílias mais influentes do Piemonte, mas Pier Giorgio optou por uma vida simples, próxima dos necessitados.

Entre 1918 e 1922, viveu em Berlim, período em que testemunhou o recrudescimento do extremismo na Europa. Retornando ao Piemonte, estabeleceu-se definitivamente em Turim. Ainda adolescente, ingressou em diversos grupos católicos: a Congregação Mariana, a Sociedade de São Vicente de Paulo, a Juventude Mariana Vicentina e, mais tarde, a Ação Católica. Também se tornou membro da Ordem Terceira Dominicana, assumindo o nome Fra Girolamo.

Engajamento político e resistência ao fascismo

Pier Giorgio foi um dos jovens católicos que mais claramente se posicionaram contra o fascismo nascente. Em 1921, inscreveu-se no Partido Popular Italiano, fundado por don Luigi Sturzo e inspirado na Doutrina Social da Igreja. Participou ativamente de debates, manifestações e enfrentamentos públicos. Foi preso em Roma ao defender a bandeira de seu grupo juvenil durante uma manifestação reprimida pela polícia.

No Congresso Popular de Turim de 1923, quando se discutiu a colaboração com os fascistas, Frassati se colocou abertamente contra qualquer aproximação. Envolveu-se inclusive em confrontos físicos com membros do Partido Nacional Fascista, demonstrando sua firme oposição ao regime de Mussolini. Relatos apontam que até em sua própria casa ele frustrou uma tentativa de ataque fascista.

A ascensão de Mussolini levou seu pai a pedir demissão do cargo de embaixador da Itália na Alemanha, um gesto que marcou a postura ética da família diante da situação política.

Vida acadêmica, espiritualidade e caridade

Estudante do Politécnico de Turim, optou pela engenharia de minas para compartilhar a realidade de vida dos trabalhadores das minas, uma das classes mais marginalizadas da época. Apesar das dificuldades com os estudos, mantinha disciplina e senso de missão. Seu desejo era estar próximo dos pobres e lutar por condições mais justas de trabalho e vida.

Frassati era conhecido por sua generosidade extrema: muitas vezes voltava a pé para casa porque doara o dinheiro do bonde a um necessitado. Visitava pobres em bairros periféricos de Turim, carregando pacotes com alimentos e roupas. Sua irmã, Luciana, testemunhou que ele se tornara um verdadeiro “carregador dos pobres”, arrastando carroças com utensílios de famílias despejadas.

No campo espiritual, Pier Giorgio cultivava intensa vida de oração, marcada pela devoção à Eucaristia e à Virgem Maria. Frequentava diariamente a Missa, comungava sempre que possível e rezava o terço em voz alta até nos transportes públicos. Costumava dizer que o terço era seu testamento. Sua espiritualidade era vivida na alegria, no esporte (especialmente o alpinismo) e na amizade. O lema “Verso l’alto” (“Rumo ao alto”), escrito por ele numa foto pouco antes de morrer, tornou-se símbolo de sua vida espiritual.

Doença, morte e impacto popular

No final de junho de 1925, Pier Giorgio começou a apresentar sintomas estranhos: fortes dores, fraqueza e febre. Em poucos dias foi diagnosticado com poliomielite fulminante, provavelmente contraída em visitas a famílias pobres e doentes. Morreu em 4 de julho de 1925, com apenas 24 anos.

O choque foi profundo. Enquanto a elite de Turim pouco compreendia sua vida de entrega, foram os pobres que acorreram em massa ao seu funeral. Milhares acompanharam o cortejo, revelando à família a extensão silenciosa da sua obra caritativa.

Cartas e pensamento

Pier Giorgio deixou um acervo notável de cartas e reflexões, muitas delas verdadeiros manifestos de espiritualidade e ação:

“No mundo que se afastou de Deus falta a Paz, mas também falta a Caridade (…). Não há nada mais belo do que a Caridade.”

“Devemos treinar-nos, a fim de estarmos prontos para travar as lutas que, seguramente, teremos de combater (…), com oração contínua, organização, disciplina e sacrifício.”

“É bobo quem anda atrás das alegrias do mundo, porque são passageiras. A única alegria verdadeira é a que vem da fé.”

“Os tempos que atravessamos são difíceis, mas nós, jovens destemidos, não nos intimidamos.”

Esses fragmentos revelam sua lucidez diante da crise política e espiritual do período e seu chamado à juventude católica para resistir com fé, coragem e disciplina.

Beatificação, culto e canonização

O primeiro milagre atribuído à sua intercessão foi a cura de Domenico Sellan, acometido pela doença de Pott nos anos 1930, que se recuperou repentinamente após receber uma relíquia de Frassati. Este reconhecimento levou ao avanço da sua causa de beatificação.

Em 20 de maio de 1990, o papa João Paulo II o beatificou, chamando-o de “o Homem das Oito Bem-Aventuranças” e apresentando-o como modelo para a juventude. Em 2008, durante a preparação para a Jornada Mundial da Juventude de Sydney, seu corpo foi exumado e encontrado incorrupto, sendo trasladado para a Catedral de Turim.

Em 2024, o papa Francisco autorizou a canonização de Frassati após a comprovação de um novo milagre: a cura de um seminarista da Arquidiocese de Los Angeles. Assim, em 2025, foi solenemente declarado santo.

Legado e atualidade

Pier Giorgio Frassati tornou-se um dos santos sociais mais populares da Igreja. É celebrado como padroeiro da Juventude Vicentina e sua memória litúrgica ocorre em 4 de julho. Seu exemplo inspira conferências vicentinas, grupos de jovens e movimentos de ação católica em todo o mundo.

A santidade de Frassati mostra que é possível unir alegria, fé profunda, engajamento político e compromisso social. Num tempo de polarizações e crises, seu testemunho recorda que a santidade não se separa da justiça social e que a caridade deve caminhar junto da coragem política.

Como disse João Paulo II: “Pier Giorgio Frassati foi um jovem moderno, aberto aos problemas sociais, políticos e culturais do seu tempo, e ao mesmo tempo profundamente crente. Foi um homem das Bem-Aventuranças.”

Linha do tempo

1901 – Nasce em Turim
1918 – Entra na São Vicente de Paulo
1921 – É preso em manifestação contra o fascismo
1922 – Torna-se leigo dominicano
1925 – Morre de pólio, aos 24 anos
1990 – Beatificado por João Paulo II
2025 – Canonizado por Leão XIV

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