Quatro décadas de acordes: a história dos encontros de rock progressivo em nova iguaçu

O Prog Nova 2022 “Encontro de Rock Progressivo”

Nas ruas sem asfalto e longe dos grandes centros culturais, em 1985, na Baixada Fluminense nasceu, há quatro décadas, uma história que resiste ao tempo, às distâncias e às ausências. Uma história que começou de forma simples, mas que se transformou em patrimônio afetivo e cultural para todos que viveram — e ainda vivem — o ritual sagrado do rock progressivo.

Era 1985. Um grupo de jovens, entre eles um adolescente de apenas 15 anos, encontrou no pequeno bar do pai de Miltinho, no bairro da Posse, em Nova Iguaçu, um verdadeiro refúgio sonoro. Ali, cercados de garrafas de cerveja e conversas que atravessavam a tarde, giravam no toca-discos LPs raros — muitos importados, outros poucos lançados no Brasil — tratados com o cuidado e a reverência de quem sabia que cada faixa era uma viagem única, quase um portal para outro mundo.

Pink Floyd, Genesis, Yes, King Crimson, Jethro Tull, Emerson, Lake & Palmer, Camel, Rush, Marillion, Focus, Eloy, Premiata Forneria Marconi, além de O Terço, A Barca do Sol, Som Nosso de Cada Dia, Moto Perpétuo, Bacamarte e tantas outras bandas preenchiam o ar com melodias complexas, solos longos e letras carregadas de imaginação. Não havia pressa. Cada lado do vinil era uma narrativa completa, e o simples ato de trocar o disco já fazia parte do espetáculo. Entre um gole e outro, a conversa misturava música, política, sonhos e as histórias vividas nas esquinas e becos da Baixada.

Na segunda metade dos anos 80, esses encontros tornaram-se periódicos, reunindo praticamente os mesmos rostos. Já na década de 1990, mais precisamente em 1991, a casa do professor Wagner Moura, também na Posse, passou a ser o novo ponto de encontro. Lá estavam Miltinho, Célio, Marquinhos, Geraldo, Vitor, Alexandre, Alex e outros nomes “pontuais e perenes”, como se diz. A dinâmica continuava a mesma — uma ou duas vezes por ano, um reencontro que não era apenas para ouvir música, mas para mergulhar de corpo e alma nas harmonias e viagens sonoras do rock progressivo.

Foi nesse período que o grupo ganhou um nome: “Prog Encontro”. Os eventos passaram a ocorrer também em bares e, às vezes, na casa de Marquinhos — hoje proprietário da Bandit Motos — que, com entusiasmo e visão, passou a organizar apresentações maiores no final da década de 1990 e nos anos 2000. Entre elas, destaque para as realizadas no Sindicato dos Bancários de Nova Iguaçu, onde, sob aplausos calorosos, brilhou a banda Tempus Fugit, grupo do Rio de Janeiro, da Vila da Penha, referência nacional do rock progressivo, cuja entrega e qualidade musical marcaram profundamente todos que assistiram.

Homenagem a quem fez parte da história

Essas quatro décadas não foram apenas de música, mas também de amizade, resistência e histórias compartilhadas. Muitos que estiveram presentes nos primeiros encontros ainda participam; outros seguiram caminhos diferentes e alguns, infelizmente, já se foram. Mas todos, sem exceção, deixaram a sua marca. Outros se agregaram, alguns saíram, outros se assimilaram, pois também traziam histórias próprias e independentes.

Cada um contribuiu para manter viva essa chama — seja trazendo um disco raro que fez a alegria da tarde, organizando um encontro de última hora, indicando uma banda recém-descoberta, ou resgatada, emprestando um espaço para a reunião, promovendo eventos, bandas, temas ou simplesmente compartilhando o silêncio respeitoso durante a audição de um álbum na íntegra.

Aqueles que partiram permanecem vivos nas lembranças, nas histórias contadas entre um acorde e outro, no sorriso de quem lembra de um momento marcante e no sentimento coletivo de que este é mais do que um grupo de amigos: é uma irmandade forjada na música e na vida.

A trilha sonora de uma geração

Entender o peso desses encontros é mergulhar no universo do rock progressivo — gênero que, nos anos 70, ousou romper fronteiras ao unir complexidade técnica, experimentação e poesia.

E como não lembrar de episódios como o do nosso Célio, o eterno Célio Krugger, que entrava na primeira sessão do Cine Verde para assistir The Wall, do Pink Floyd — filme dirigido por Alan Parker, lançado oficialmente em julho de 1982 e exibido no Brasil em 1983 — e só saía na última sessão do dia? Isso se repetia toda semana, como um ritual pessoal e inquebrável, segundo ele mesmo, no Cine Verde, na Praça da Liberdade, em Nova Iguaçu. Era a prova de que, para quem ama música, certas experiências nunca são demais.

PROGNOVA 2025: Nova Iguaçu recebe encontro histórico de rock progressivo no dia 16 de agosto

Do passado ao presente: PROGNOVA 2025

Agora, ao completar 40 anos desde aquele primeiro encontro no bar do pai do Miltinho, o espírito do Prog Encontro se renova no PROGNOVA 2025. No próximo sábado, 16 de agosto, a partir das 14h, o evento reunirá fãs, colecionadores e músicos no Brasero Pablo, em Nova Iguaçu. Mais que um festival, será um reencontro de gerações que respiram rock progressivo como parte de sua identidade.

A realização conta com o apoio de  Rock Designer, Grupo Rockers Fans Forever, Bandit Moto Shop, Arte & Silk (gráfica e estamparia) e Rock ComCausa, fortalecendo a cena alternativa e reafirmando que a Baixada Fluminense também é território de produção cultural relevante.

Com cenografia inspirada nos ícones do gênero, feira de vinis, exposição de capas clássicas, memorabilia e intervenções artísticas, o PROGNOVA será um mergulho sensorial que vai muito além da música.

Imagem de capa ilustrativa

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