Queimados lidera ranking nacional de deslocamentos mais longos ao trabalho

Queimados

No dia 9 de outubro de 2025, o IBGE divulgou o recorte “Deslocamentos para trabalho e estudos” do Censo 2022, revelando um dado alarmante para a Baixada Fluminense. O município de Queimados ocupa a primeira posição no ranking nacional de cidades onde mais trabalhadores gastam tempo excessivo no trajeto entre casa e emprego.

Segundo os dados oficiais, 12,5% dos habitantes declararam levar mais de duas horas apenas para chegar ao trabalho, contra uma média nacional de 1,8%. Isso significa que, proporcionalmente, os queimadenses enfrentam jornadas de deslocamento sete vezes superiores à realidade da maior parte dos brasileiros.

Os números detalhados ajudam a compreender a dimensão do problema

Em Queimados, 5.545 pessoas declararam gastar mais de duas horas só na ida ao trabalho. Outros 27,3% afirmaram precisar entre 1 a 2 horas; 22,5%, de 30 minutos a 1 hora; 32,7%, de 6 a 30 minutos; e apenas 4,4% conseguem chegar em até cinco minutos. Quanto aos meios de transporte, a cidade apresenta uma divisão que evidencia a dependência do sistema público: 31,6% utilizam ônibus, 19,9% trem ou metrô e 16,2% automóvel.

A situação de Queimados não é isolada

A Baixada Fluminense aparece concentrando cinco dos seis piores índices do país. Em Nova Iguaçu, 11,8% dos trabalhadores levam mais de duas horas no trajeto; em Belford Roxo, 10,8%; em Magé, 10,2%; e em Duque de Caxias, 7,8%. A repetição do padrão mostra o descompasso histórico entre os locais onde a população encontra moradia acessível e onde estão as vagas de emprego, geralmente concentradas no município do Rio de Janeiro ou em áreas centrais da região metropolitana.

No panorama nacional, os dados também impressionam: 1,3 milhão de trabalhadores brasileiros gastam mais de duas horas no deslocamento até o trabalho, enquanto 56,8% levam entre 6 e 30 minutos. A pesquisa mostra ainda que 10,7% da população ativa precisa trabalhar em outro município, revelando o peso dos deslocamentos intermunicipais, especialmente nas regiões metropolitanas.

Os impactos na vida cotidiana são profundos

Considerando um trabalhador de Queimados que gasta 4 horas diárias em deslocamentos (ida e volta), o acúmulo anual chega a cerca de 1.000 horas, o equivalente a 41 dias inteiros passados dentro de trens, ônibus ou no trânsito. Esse tempo, que poderia ser dedicado ao convívio familiar, ao lazer ou ao estudo, é consumido pela precariedade estrutural da mobilidade. A consequência é direta na saúde física e mental: aumento do estresse, fadiga crônica, dores no corpo, ansiedade e menor tempo de sono.

Outro dado relevante do levantamento mostra que o problema atinge desigualmente a população. Pessoas negras e pardas estão mais representadas nas faixas de deslocamentos mais longos, reforçando o peso do racismo estrutural na mobilidade urbana e no acesso às oportunidades. Além disso, os longos trajetos representam também custos adicionais: mais passagens, mais refeições fora de casa, maiores gastos com saúde e menos tempo produtivo.

Não por acaso, pesquisas anteriores já apontavam a percepção de queda de produtividade e de qualidade de vida entre trabalhadores de grandes centros urbanos. Quando o deslocamento ultrapassa duas horas, a fadiga chega ao local de trabalho, reduzindo a energia e a eficiência do trabalhador.

A Prefeitura de Queimados chegou a anunciar recentemente uma linha de ônibus até a estação de metrô da Pavuna, afirmando que a medida reduziria “em quase duas horas” o tempo total de viagem ida e volta. Mas, embora iniciativas locais possam atenuar o problema para parte da população, os dados do Censo mostram que a questão é estrutural e exige planejamento metropolitano.

Especialistas defendem que a solução passa por três eixos principais: descentralização dos empregos, para aproximar oportunidades das cidades da Baixada; fortalecimento e modernização do transporte público de massa, com integração eficiente entre trem, metrô e ônibus; e uma gestão metropolitana articulada entre mobilidade, habitação e uso do solo. Sem isso, os moradores de Queimados e de toda a Baixada seguirão reféns de deslocamentos extenuantes, que corroem não apenas o tempo, mas também a saúde e a dignidade.

Assim, o recorte do Censo 2022 divulgado em outubro de 2025 não apenas quantifica uma realidade já conhecida pelos trabalhadores da região, mas fornece uma radiografia oficial de uma desigualdade histórica. Em Queimados, a vida urbana se traduz em horas perdidas diariamente no transporte coletivo — um retrato cruel de como o tempo de viver continua a ser um privilégio de poucos no Brasil.

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