Rio e São Paulo concentram quase um terço dos desaparecimentos registrados no Brasil

SMS crianças desaparecidas

O Brasil registrou 84.760 pessoas desaparecidas em 2025, uma média de 232 casos por dia, em um cenário que expõe a fragilidade das políticas públicas de prevenção, busca, investigação e apoio às famílias. O dado representa alta de 4,1% em relação ao ano anterior e confirma que o desaparecimento de pessoas segue como uma das violações de direitos humanos mais graves e menos visíveis do país.

A concentração territorial dos registros chama atenção. São Paulo contabilizou 20.546 desaparecimentos e o Rio de Janeiro, 6.331. Juntos, os dois estados somaram 26.877 ocorrências, o equivalente a 31,7% de todos os casos registrados no Brasil. Isso significa que quase uma em cada três pessoas desaparecidas no país desapareceu no eixo Rio–São Paulo.

A concentração não permite afirmar que um terço das crianças desaparecidas esteja especificamente nesses dois estados, porque os dados oficiais disponíveis não apresentam, no mesmo recorte, o número de crianças e adolescentes desaparecidos no Rio de Janeiro. A distinção é fundamental para evitar distorções. O que os números mostram com segurança é que Rio e São Paulo concentram quase um terço do total de desaparecimentos registrados no Brasil.

Entre crianças e adolescentes, o quadro também é grave. Em 2025, 23.919 pessoas desaparecidas tinham menos de 18 anos, o que representa 28% de todos os registros nacionais. Na prática, 66 crianças e adolescentes desapareceram por dia no país, ou uma vítima infantojuvenil a cada 22 minutos.

O crescimento nesse grupo foi de 8% em relação a 2024, acima da alta geral dos desaparecimentos. O dado reforça a necessidade de ações específicas de proteção, com participação das áreas de segurança pública, assistência social, educação, saúde, conselhos tutelares e sistema de justiça.

O recorte de gênero amplia o alerta. Meninas representaram 61% dos desaparecimentos de crianças e adolescentes, enquanto meninos corresponderam a 38%. Esse perfil pode estar associado a diferentes vulnerabilidades, como violência doméstica, exploração sexual, aliciamento, conflitos familiares, evasão de instituições de acolhimento, violência urbana e outras situações que exigem investigação cuidadosa caso a caso.

São Paulo aparece como o estado com maior número absoluto de desaparecimentos infantojuvenis, com 5.015 registros em 2025. O total corresponde a aproximadamente 21% dos casos envolvendo crianças e adolescentes no país. O Rio de Janeiro, embora figure entre os estados com maior volume geral de desaparecimentos, não possui, nesse levantamento, dado público específico que permita calcular sua participação no recorte infantojuvenil nacional.

Apesar do avanço dos registros, houve também aumento no número de pessoas localizadas. Em 2025, 56.688 pessoas foram encontradas. O resultado indica melhora em mecanismos de busca e integração de informações, mas ainda deixa milhares de famílias sem respostas. Para quem espera, cada dia sem notícia representa sofrimento, insegurança e a sensação de abandono pelo poder público.

A Lei nº 13.812/2019 criou a Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas e determinou que a busca deve começar imediatamente após a comunicação do desaparecimento, especialmente quando envolver crianças, adolescentes, idosos, pessoas com deficiência ou outras situações de vulnerabilidade. A norma também prevê integração entre órgãos públicos, produção de informações qualificadas e cooperação entre União, estados e municípios.

Na prática, porém, familiares ainda enfrentam obstáculos recorrentes: demora no atendimento, falta de acolhimento, ausência de comunicação entre delegacias, bancos de dados incompletos, pouca divulgação dos casos e dificuldade de acesso a apoio psicológico e social. Esses problemas tornam a busca mais lenta e aumentam o sofrimento das famílias.

Organizações que atuam na defesa dos direitos humanos defendem que o enfrentamento ao desaparecimento de pessoas não pode ficar restrito ao registro policial. É preciso investir em prevenção, campanhas permanentes, protocolos nacionais, alertas rápidos, formação de agentes públicos, integração de sistemas, atendimento humanizado e políticas de proteção para crianças e adolescentes.

O desaparecimento também precisa ser tratado como fenômeno social complexo. Em muitos casos, ele se cruza com pobreza, violência urbana, racismo, conflitos familiares, exploração, tráfico de pessoas, atuação de grupos criminosos, falhas institucionais e ausência de políticas públicas nos territórios mais vulneráveis.

Os números de 2025 mostram que o país ainda está distante de uma resposta adequada. Quando quase um terço dos desaparecimentos se concentra em apenas dois estados e quase três em cada dez vítimas são crianças e adolescentes, o problema exige prioridade nacional.

Cada desaparecimento representa uma história interrompida e uma família submetida à incerteza. Para milhares de brasileiros, a busca não termina no boletim de ocorrência. Ela continua todos os dias, nas ruas, nas redes, nas delegacias, nos hospitais, nos abrigos e na esperança de encontrar uma resposta.

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