Memória: Padre Ezequiel Ramin mártir da caridade

Padre Ezequiel Ramin #ComCausa

Assassinado aos 32 anos durante uma missão de paz, o sacerdote comboniano tornou-se símbolo da luta pelos povos indígenas, pelos trabalhadores rurais e pelo direito à terra

Nascido em 9 de fevereiro de 1953, em Pádua, na Itália, Padre Ezequiel Ramin dedicou sua curta trajetória religiosa à defesa das populações pobres, dos povos indígenas e dos pequenos trabalhadores rurais. Missionário da Congregação dos Missionários Combonianos do Coração de Jesus, ele foi brutalmente assassinado em 24 de julho de 1985, quando retornava de uma missão de paz realizada em uma área de grave conflito fundiário na região de Cacoal, em Rondônia.

Conhecido como Padre Lele, Ezequiel tinha apenas 32 anos quando foi atingido por dezenas de disparos feitos por pistoleiros. Naquele dia, ele havia acompanhado o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Cacoal, Adílio de Souza, até uma área ocupada por famílias de agricultores ameaçadas de despejo. O objetivo era convencer os trabalhadores a não reagirem pelas armas e evitar um confronto que poderia terminar em massacre.

Durante o retorno, os criminosos bloquearam o caminho da caminhonete conduzida pelo missionário e abriram fogo. Fontes dos Missionários Combonianos afirmam que ele foi atingido por mais de 50 tiros. O assassinato foi relacionado diretamente ao seu compromisso com os posseiros, os trabalhadores sem-terra e os povos indígenas da Amazônia. Décadas depois, o crime continua marcado pela impunidade, especialmente quanto à responsabilização dos mandantes.

Infância e vocação missionária

Ezequiel Ramin nasceu em uma família católica de Pádua e era o quarto de seis filhos. Desde a juventude, demonstrou interesse pelas questões sociais e pelas situações de pobreza e injustiça existentes em diferentes partes do mundo.

Antes de seguir definitivamente a vida religiosa, chegou a considerar a possibilidade de estudar medicina. Sua vocação, no entanto, foi sendo construída por meio do envolvimento com ações de solidariedade, grupos missionários e iniciativas voltadas às populações empobrecidas.

Em 1972, ingressou no postulantado dos Missionários Combonianos, em Florença. Posteriormente, realizou o noviciado em Venegono Superiore, também na Itália. A formação comboniana estava profundamente ligada ao legado de São Daniel Comboni, que defendia uma evangelização comprometida com a promoção humana, a dignidade dos povos e a transformação das situações de injustiça.

Depois do noviciado, Ezequiel foi enviado à Inglaterra para estudar inglês. Em seguida, passou um período de formação em Chicago, nos Estados Unidos, onde estudou teologia e permaneceu até 1979. Durante essa etapa, aprofundou sua compreensão da missão cristã e teve contato com diferentes realidades sociais, culturais e pastorais.

Foi ordenado sacerdote em 28 de setembro de 1980, em Pádua. Nos primeiros anos do sacerdócio, permaneceu na Itália, desenvolvendo atividades pastorais, vocacionais e missionárias.

Compromisso social antes da chegada ao Brasil

Mesmo antes de ser enviado à Amazônia, Ezequiel já demonstrava uma espiritualidade profundamente ligada às situações concretas de sofrimento humano.

Após o terremoto que atingiu a região de Irpinia, no sul da Itália, em novembro de 1980, participou de atividades de apoio às populações afetadas. Também se envolveu em mobilizações contra a violência da Camorra, organização criminosa com forte presença na região de Nápoles.

Essa experiência consolidou uma característica que marcaria toda a sua vida: Ezequiel compreendia que a missão religiosa não poderia se limitar à pregação ou à celebração dos sacramentos. Para ele, anunciar o Evangelho significava permanecer ao lado das pessoas ameaçadas, denunciar as injustiças e defender concretamente a vida.

Quando recebeu a notícia de que seria enviado para uma missão fora da Itália, escreveu que ainda não sabia para onde iria, mas estava contente com a partida, pois se tratava de uma força maior do que ele. A frase revela a intensidade com que compreendia sua vocação missionária.

Chegada ao Brasil

Ezequiel chegou ao Brasil no final de 1983 e iniciou sua preparação em Brasília. Durante alguns meses, estudou a língua portuguesa e buscou compreender a realidade social, política e religiosa brasileira.

O país ainda vivia os últimos anos da ditadura militar, período marcado pela concentração de terras, pela expansão de grandes projetos agropecuários e pela intensa migração de famílias pobres para a Amazônia. Na região Norte, conflitos entre fazendeiros, posseiros, povos indígenas, empresas e agentes públicos eram frequentes.

Depois dessa etapa de preparação, Ezequiel foi enviado, em janeiro de 1984, para a comunidade dos Missionários Combonianos em Cacoal, pertencente à Diocese de Ji-Paraná, em Rondônia. Permaneceu na região por pouco mais de um ano e meio, até ser assassinado em julho de 1985.

Conflitos fundiários em Rondônia

A chegada de Ezequiel a Rondônia ocorreu em um momento de intensa transformação territorial. A abertura de estradas, os projetos de colonização e o avanço da agropecuária atraíam milhares de migrantes, mas a distribuição das terras era profundamente desigual.

Grandes proprietários e empresas se apropriavam de extensas áreas, muitas vezes por meio da grilagem, da falsificação de documentos, da expulsão de famílias e da contratação de pistoleiros. Pequenos agricultores e posseiros ocupavam áreas consideradas improdutivas, mas frequentemente enfrentavam ordens de despejo, ameaças e ataques armados.

Os povos indígenas também sofriam com a invasão de seus territórios, o desmatamento, as doenças e a violência associada à expansão da fronteira agrícola. Entre as comunidades acompanhadas pelo missionário estavam integrantes do povo Paiter Suruí, cujo território foi profundamente atingido pela entrada de colonos, madeireiros e fazendeiros.

Diante dessa realidade, Ezequiel passou a acompanhar trabalhadores rurais, famílias ameaçadas de expulsão e comunidades indígenas. Participava de reuniões, visitava áreas de conflito, celebrava missas nas comunidades e denunciava publicamente a violência praticada pelos grandes proprietários.

Sua atuação não era partidária nem orientada pela defesa do confronto armado. O missionário defendia uma luta não violenta pelo direito à terra, ao trabalho, à moradia e à vida digna. Para ele, a paz somente poderia existir acompanhada da justiça.

Um missionário ao lado dos indígenas e dos agricultores

Ezequiel não se limitava a observar os conflitos de longe. Percorria longas distâncias para visitar comunidades, conhecer as famílias e ouvir seus problemas. Em suas cartas, homilias e desenhos, registrava a realidade das pessoas que encontrava.

Sua espiritualidade estava ligada à compreensão de que Cristo permanecia presente nos povos oprimidos. Os rostos dos indígenas, agricultores e famílias expulsas de suas terras apareciam frequentemente em suas reflexões e representações artísticas.

O missionário também produziu desenhos que relacionavam o sofrimento das populações amazônicas à Paixão de Cristo. Essas obras retratavam indígenas, camponeses, trabalhadores rurais e pessoas crucificadas pelas injustiças sociais. Em abril de 2026, parte dessa produção foi apresentada em Roma na exposição “Paixão pela Amazônia”, organizada na Pontifícia Universidade da Santa Cruz.

Em suas missas, Ezequiel falava sobre desigualdade, violência, exploração e direito à terra. Também relatava as ameaças que vinha recebendo. Sua atuação incomodava fazendeiros e grupos econômicos porque fortalecia a organização das comunidades e denunciava práticas de expulsão e violência.

Mesmo consciente dos riscos, recusou-se a abandonar as populações que acompanhava. Em uma de suas cartas, escreveu que a vida era bela e que estava feliz em oferecê-la. A frase passou a ser lembrada como uma síntese de seu compromisso missionário.

A Fazenda Catuva e a missão de paz

Em julho de 1985, a tensão aumentou em uma área conhecida como Fazenda Catuva. Famílias de agricultores haviam ocupado partes de terras consideradas improdutivas e estavam ameaçadas de expulsão por homens armados ligados aos grandes proprietários.

No dia 24 de julho, Padre Ezequiel viajou até a área de conflito acompanhado de Adílio de Souza, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Cacoal. Ao chegarem ao local, encontraram agricultores diante de um grupo de pistoleiros.

O missionário procurou dialogar com as famílias e convencê-las a não iniciar um confronto armado. Pediu que deixassem temporariamente o local porque o risco de um massacre era elevado. Sua presença contribuiu para reduzir a tensão imediata e os homens armados se retiraram.

A orientação dada pelo sacerdote era dolorosa para as famílias, que poderiam perder tudo o que haviam construído. Mesmo assim, Ezequiel insistiu que nenhuma terra justificaria a perda de vidas e que a luta pelos direitos deveria prosseguir sem o uso das armas.

A emboscada

Após a reunião, Ezequiel e Adílio iniciaram a viagem de volta. Em determinado momento, o dirigente sindical deixou o veículo. O padre continuou sozinho em direção a Cacoal. Os pistoleiros, entretanto, aguardavam o missionário alguns quilômetros adiante. Eles bloquearam a estrada e dispararam repetidamente contra a caminhonete.

Ezequiel foi atingido por mais de 50 tiros. Segundo registros preservados pelos Missionários Combonianos, antes de morrer teria pronunciado palavras de perdão aos assassinos. Seu corpo permaneceu no local até ser encontrado. A violência dos disparos demonstrava que não se tratava apenas de eliminar uma testemunha, mas de enviar uma mensagem de intimidação às comunidades, às organizações rurais e aos religiosos que denunciavam os conflitos fundiários.

O assassinato ocorreu em uma área que atualmente pertence ao município de Rondolândia, em Mato Grosso, próximo à divisa com Rondônia. Como sua atuação pastoral estava concentrada em Cacoal, o crime é frequentemente apresentado como tendo ocorrido na região de Cacoal.

O sentido de seu martírio

Ezequiel foi assassinado quando tentava evitar a violência. Sua última ação não foi estimular uma ocupação ou convocar trabalhadores para o confronto. Ao contrário, ele procurava proteger as famílias e impedir um derramamento de sangue.

Essa circunstância tornou-se central para a compreensão de seu martírio. O sacerdote morreu por permanecer ao lado das pessoas ameaçadas e por assumir uma atuação pacífica em defesa da justiça.

Poucos dias após o crime, o Papa João Paulo II o definiu como um “mártir da caridade”. A expressão passou a ser utilizada para destacar que Ezequiel entregou sua vida por amor às comunidades pobres, aos trabalhadores rurais e aos povos indígenas.

Sua morte também revelou ao Brasil e ao mundo a gravidade da violência no campo amazônico. Naquela década, religiosos, sindicalistas, lideranças comunitárias e agricultores eram ameaçados e assassinados por denunciarem a concentração fundiária e a expulsão das populações tradicionais.

Impunidade e ausência de responsabilização

Apesar da repercussão nacional e internacional do assassinato, o caso permaneceu marcado pela impunidade. Pistoleiros foram apontados como responsáveis pela execução, mas não houve uma responsabilização efetiva de todos os envolvidos, especialmente dos possíveis mandantes.

A ausência de punição reforçou uma realidade comum nos conflitos agrários brasileiros: os executores diretos muitas vezes são identificados, enquanto os financiadores, intermediários e beneficiários dos crimes permanecem protegidos.

A impunidade do caso Ezequiel Ramin tornou-se parte da denúncia feita pelas comunidades, pelos Missionários Combonianos e pelas organizações de direitos humanos. Mais do que buscar vingança, essas instituições defendem o esclarecimento do crime como uma forma de garantir memória, verdade, justiça e proteção para os defensores da vida.

A memória de Padre Ezequiel

Após sua morte, Ezequiel passou a ser reconhecido como um dos mártires da caminhada das comunidades cristãs da América Latina. Sua trajetória foi incorporada às celebrações das comunidades eclesiais de base, às pastorais sociais e às mobilizações em defesa da Amazônia. Na região de Cacoal e Rondolândia, sua memória permanece especialmente presente. Igrejas, comunidades, centros pastorais, grupos missionários e iniciativas populares receberam seu nome.

O dia 24 de julho tornou-se uma data de peregrinação e compromisso. O município onde ocorreu o assassinato chegou a reconhecer a data como feriado municipal em homenagem ao missionário.

Romarias percorrem os caminhos relacionados à sua missão e reúnem indígenas, agricultores, religiosos, jovens, defensores dos direitos humanos e representantes de movimentos sociais. Esses encontros combinam espiritualidade, memória e denúncia das situações atuais de violência contra os povos e os territórios amazônicos.

Em 2025, quando foram lembrados os 40 anos do assassinato, a décima romaria em sua memória reuniu milhares de participantes. O encontro reafirmou Ezequiel como mártir da esperança e referência para as pessoas que continuam lutando por justiça e dignidade.

O “Pai Nosso dos Mártires”

A morte de Ezequiel também está ligada à origem de uma das mais conhecidas canções das comunidades e pastorais populares brasileiras: o “Pai Nosso dos Mártires”.

A composição foi criada pelo missionário verbita Padre Cireneu Kuhn após o assassinato. Impactado pela imagem do corpo do jovem comboniano e pela violência do crime, Cireneu transformou a dor e a indignação em uma oração cantada.

A música apresenta uma releitura do Pai-Nosso a partir da realidade dos pobres, dos perseguidos e das pessoas que entregaram suas vidas na luta por justiça. Sua letra relaciona fé, libertação, partilha do pão, perdão e compromisso com a construção de uma sociedade sem exploração.

O “Pai Nosso dos Mártires” passou a ser cantado em celebrações, romarias, encontros das comunidades eclesiais de base e atividades dos movimentos populares. Embora tenha sido inspirado diretamente pela morte de Ezequiel, tornou-se uma homenagem coletiva aos inúmeros mártires da caminhada latino-americana.

A história da composição também foi apresentada no documentário “Pe. Ezequiel Ramin, mártir da opção pelos pobres”, no qual Padre Cireneu relembra o impacto provocado pelo assassinato e o processo de criação da música.

Processo de beatificação

A Igreja Católica iniciou oficialmente a causa de beatificação de Ezequiel Ramin em 9 de abril de 2016, na Diocese de Pádua. A investigação reuniu documentos, cartas, testemunhos e informações sobre sua vida, sua atuação missionária e as circunstâncias de sua morte.

A fase diocesana foi concluída em 25 de março de 2017. A documentação foi então encaminhada a Roma, onde a causa passou à análise do organismo do Vaticano responsável pelos processos de beatificação e canonização.

Desde a abertura do processo, Ezequiel possui oficialmente o título de Servo de Deus. Para que seja beatificado como mártir, a Igreja precisa reconhecer que sua morte ocorreu em consequência de seu compromisso com a fé e com os valores evangélicos que orientavam sua missão.

Em 2019, mais de 200 bispos brasileiros manifestaram apoio ao reconhecimento de seu martírio. O pedido destacou que seu testemunho continuava atual diante da violência sofrida pelos povos indígenas, pelas comunidades rurais e pelos defensores da Amazônia.

Referência para o Sínodo da Amazônia

Durante a preparação para o Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazônica, realizado em 2019, Ezequiel Ramin foi apresentado como um dos principais símbolos da Igreja comprometida com a defesa dos povos amazônicos.

O missionário comboniano Padre Dário Bossi defendeu que Ezequiel fosse reconhecido como patrono ou referência espiritual do Sínodo. Segundo Bossi, o sacerdote representava uma Igreja capaz de permanecer ao lado das comunidades, ouvir os povos e enfrentar as estruturas responsáveis pela violência e pela destruição dos territórios.

A proposta não correspondia a uma canonização formal como padroeiro, mas a um reconhecimento pastoral e simbólico de sua presença no caminho da Igreja da Amazônia.

Sua trajetória também foi associada ao conceito de ecologia integral, que compreende que a defesa do ambiente não pode ser separada da defesa das populações que vivem nos territórios. A exploração da floresta, a invasão das terras indígenas e a violência contra os agricultores fazem parte de uma mesma realidade de injustiça.

Um profeta para a Amazônia

Ezequiel Ramin é frequentemente chamado de profeta da Amazônia porque denunciou, ainda na década de 1980, problemas que continuam presentes: a concentração de terras, a grilagem, o desmatamento, o avanço predatório sobre os territórios indígenas, a violência contra os trabalhadores rurais e a criminalização das lideranças populares.

Sua presença em Rondônia foi breve, mas intensa. Viveu pouco mais de um ano e meio na região e construiu uma relação profunda com as comunidades.

Ele não chegou à Amazônia como alguém que possuía todas as respostas. Procurou aprender, ouvir e caminhar com os povos. Sua missão nasceu do contato diário com as famílias, das viagens pelas estradas de terra, das celebrações comunitárias e da convivência com as pessoas ameaçadas.

Seu testemunho continua inspirando indígenas, ribeirinhos, quilombolas, migrantes, agricultores, religiosos e defensores dos direitos humanos.

Um mártir da Defesa da Vida

Padre Ezequiel Ramin não morreu porque escolheu a violência. Morreu justamente quando tentava impedi-la. Ao orientar as famílias ameaçadas a não enfrentarem os pistoleiros, assumiu uma missão de paz, ainda que soubesse dos riscos. Sua morte demonstra que a neutralidade não é possível diante de situações de extrema injustiça: defender a paz também exige enfrentar as estruturas que produzem a violência.

Seu legado ultrapassa os limites da Igreja Católica. Ezequiel tornou-se uma referência para todas as pessoas que defendem a dignidade humana, a democratização da terra, os direitos dos povos indígenas e a preservação da Amazônia. Mais de quatro décadas depois de seu assassinato, as causas pelas quais lutou continuam urgentes. Comunidades indígenas ainda enfrentam invasões, agricultores são expulsos de suas terras, lideranças são ameaçadas e defensores do meio ambiente continuam sendo assassinados.

Recordar Padre Ezequiel significa, portanto, manter viva a memória de uma pessoa que escolheu permanecer ao lado dos mais vulneráveis. Significa também reafirmar que a paz somente é possível quando existem justiça, terra, trabalho, dignidade e respeito à vida. Sua história permanece como uma denúncia contra a impunidade e como um chamado ao compromisso. O jovem missionário assassinado aos 32 anos continua presente nas romarias, nas canções, nas comunidades, nos desenhos e nas lutas dos povos da Amazônia.

Emoção e Devoção: A História por Trás do ‘Pai Nosso dos Mártires’, uma Ode à Coragem”

Em uma comovente celebração realizada dias após a trágica morte do Padre Ezequiel Ramin, uma bela e tocante melodia ecoou pelos corações dos fiéis presentes. Essa canção especial é conhecida como o “Pai Nosso dos Mártires” e foi composta pelo Padre Cireneu Kuhn, em homenagem ao seu colega caído.

Padre Ezequiel Ramin, que ganhou reconhecimento por sua luta em defesa dos mais desfavorecidos, foi brutalmente assassinado, deixando a comunidade católica em luto profundo. Foi durante esse período de dor e perda que Padre Cireneu Kuhn encontrou inspiração para criar uma música que capturasse a essência do espírito corajoso e abnegado do colega falecido.

A história por trás do “Pai Nosso dos Mártires” foi compartilhada pelo próprio Padre Cireneu em um documentário dedicado à memória do Pe. Ezequiel Ramin, intitulado “Pe. Ezequiel Ramin, mártir da opção pelos pobres”. Esse emocionante documentário revela detalhes sobre a vida e o legado do corajoso padre que se colocou ao lado dos mais necessitados, enfrentando adversidades e perigos em sua missão humanitária.

Na gravação, Pe. Cireneu conta como a composição ganhou vida. Inspirado pela dedicação incansável de Pe. Ezequiel e com o intuito de perpetuar sua memória, o músico padre colocou seus sentimentos em acordes e versos, criando o “Pai Nosso dos Mártires”. A melodia transmite a sensação de esperança e coragem diante das adversidades, e as letras reverberam a devoção à causa dos pobres e marginalizados.

A comoção causada pelo canto foi palpável na celebração em que foi entoado pela primeira vez. Fiéis choraram e rezaram, honrando a memória de Pe. Ezequiel e encontrando consolo nas palavras e notas musicais que expressavam a importância de sua missão na busca por justiça social.

Hoje, o “Pai Nosso dos Mártires” continua a ressoar nos corações daqueles que conhecem a história inspiradora de Pe. Ezequiel Ramin. Essa comovente ode à coragem e à solidariedade permanece como um testemunho vivo do impacto que um indivíduo dedicado pode ter na luta pelos direitos humanos e na defesa dos mais vulneráveis em nossa sociedade.

Pai nosso, dos pobres marginalizados
Pai nosso, dos mártires, dos torturados.
Teu nome é santificado naqueles que morrem defendendo a vida,
Teu nome é glorificado, quando a justiça é nossa medida
Teu reino é de liberdade, de fraternidade, paz e comunhão
Maldita toda a violência que devora a vida pela repressão.

Queremos fazer Tua vontade, és o verdadeiro Deus libertador,
Não vamos seguir as doutrinas corrompidas pelo poder opressor.

Pedimos-Te o pão da vida,
O pão da segurança,
O pão das multidões.
O pão que traz humanidade,
Que constrói o homem em vez de canhões

Perdoa-nos quando por medo ficamos calados diante da morte,
Perdoa e destrói os reinos em que a corrupção é a lei mais forte.
Protege-nos da crueldade,
Do esquadrão da morte,
Dos prevalecidos
Pai nosso revolucionário,
Parceiro dos pobres,
Deus dos oprimidos
Pai nosso, revolucionário,
Parceiro dos pobres,
Deus dos oprimidos

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