Memorial vítimas da ditadura: assassinato de Vladimir Herzog

Memória e Verdade: Vladimir Herzog

No dia 25 de outubro de 1975, o jornalista Vladimir Herzog, conhecido como Vlado, foi torturado e assassinado nas dependências do DOI-CODI, órgão de repressão da ditadura militar, no quartel-general do II Exército, em São Paulo. Herzog havia se apresentado voluntariamente para “prestar esclarecimentos” sobre supostas ligações com o Partido Comunista Brasileiro (PCB).

Figura respeitada no jornalismo e na defesa da democracia, Herzog tornou-se símbolo da resistência contra a censura e a violência do regime militar. Sua morte provocou comoção nacional e marcou o início de uma mobilização social e política que pavimentou o caminho para o processo de redemocratização do país, culminando na promulgação da Constituição Federal de 1988.

Trajetória e legado

Nascido em 27 de junho de 1937, em Osijsk, na então Iugoslávia (atual Croácia), Vladimir Herzog emigrou com os pais para o Brasil em 1942, fugindo da perseguição nazista. Naturalizado brasileiro, formou-se em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP) e iniciou sua carreira no jornal O Estado de S. Paulo em 1959. Com o tempo, passou a assinar “Vladimir” em vez de “Vlado”, buscando uma identidade mais próxima do idioma português.

Casado com Clarice Herzog, o jornalista atuou em diversas frentes: trabalhou na televisão, lecionou na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) e na Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), e dirigiu o departamento de jornalismo da TV Cultura de São Paulo. Também viveu em Londres, entre 1965 e 1968, onde trabalhou na BBC e teve seus dois filhos, Ivo e André.

O crime e a farsa do “suicídio”

Preso no dia 24 de outubro de 1975, Vladimir Herzog foi submetido a sessões de tortura nas dependências do DOI-CODI. No dia seguinte, foi encontrado morto. O regime militar divulgou uma versão oficial de suicídio por enforcamento, acompanhada de uma fotografia forjada.

Entretanto, testemunhos de outros presos políticos desmentiram a versão oficial, revelando que Herzog foi assassinado sob tortura. Anos depois, o legista Harry Shibata admitiu ter assinado o laudo necroscópico sem examinar o corpo, confirmando a fraude.

Justiça e reconhecimento

A busca por verdade e justiça se estendeu por décadas. Em 1978, a Justiça condenou a União por prisão ilegal, tortura e morte do jornalista. Em 1996, a Comissão Especial dos Desaparecidos Políticos reconheceu oficialmente o assassinato, concedendo indenização à família — que recusou o valor, insistindo no dever do Estado de seguir investigando o caso.

Somente em março de 2013, após quase 40 anos, o atestado de óbito de Vladimir Herzog foi retificado, substituindo a falsa causa de morte por suicídio pela verdade histórica:“Morte decorrente de lesões e maus-tratos sofridos durante o interrogatório em dependência do II Exército – SP (DOI-CODI).”

Símbolo da democracia

O nome de Vladimir Herzog segue como um símbolo da liberdade de imprensa e dos direitos humanos no Brasil. Sua memória é lembrada em prêmios, instituições e espaços públicos, reafirmando a importância de não esquecer os horrores da repressão e de defender, permanentemente, a democracia, a verdade e a justiça.

 

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