Governo reconhece que Zuzu Angel foi assassinada pela ditadura militar

Quase meio século após sua morte, a estilista Zuzu Angel teve oficialmente reconhecido pelo governo federal que foi vítima da violência de Estado durante a ditadura militar (1964–1985). Sua certidão de óbito foi retificada nesta quinta-feira (28) pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, em cerimônia realizada na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG).

Zuzu morreu em abril de 1976, aos 54 anos, quando seu carro despencou da Estrada da Gávea, na saída do Túnel Dois Irmãos, no Rio de Janeiro. À época, as autoridades divulgaram o caso como acidente automobilístico, mas familiares e ativistas denunciaram, desde então, que o episódio foi forjado por agentes da repressão política.

A nova versão da certidão reconhece morte não natural, violenta e causada pelo Estado brasileiro, conforme estabelece a Resolução nº 601/2024 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que determina a correção dos registros de óbito de pessoas perseguidas pela ditadura.

Durante a cerimônia, além do documento de Zuzu Angel, outras 20 famílias receberam certidões atualizadas de parentes mortos ou desaparecidos por ação do regime. O governo federal prevê retificar 400 documentos até o fim de 2025.

Um bilhete como prova e um legado de resistência

Antes de sua morte, Zuzu já temia ser vítima de atentado. Em 1975, ela escreveu um bilhete ao jornalista Zuenir Ventura, onde alertava:
“Se eu aparecer morta por acidente, assalto ou qualquer outro meio, terá sido obra dos mesmos assassinos do meu amado filho.”

O filho mencionado era Stuart Angel Jones, militante político preso, torturado e assassinado em 1971, aos 25 anos. Após o desaparecimento dele, Zuzu iniciou uma incansável campanha internacional por justiça, que incluiu denúncias em jornais estrangeiros, encontros com figuras políticas dos Estados Unidos e um desfile icônico com roupas que denunciavam a violência da ditadura.

Zuzu ficou conhecida internacionalmente por vestir celebridades como Liza Minnelli e Joan Crawford, mas seu nome entrou definitivamente para a história como símbolo de coragem e resistência contra a repressão.

Em 1988, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos reconheceu oficialmente a responsabilidade do regime pela morte da estilista. Agora, a certidão retificada ratifica o que familiares, historiadores e defensores dos direitos humanos denunciaram por décadas.

“Nomear o óbvio para que não se repita”

A ministra dos Direitos Humanos, Macaé Evaristo, participou da cerimônia de forma remota e ressaltou que o Brasil ainda convive com os efeitos do autoritarismo.
“É importante nomear o óbvio e o vivido para que não se repita”, afirmou. Já a secretária-executiva da pasta, Janine Mello, destacou que a retificação das certidões é um passo necessário para a reparação histórica e a preservação da memória.

Com a atualização da certidão, o Estado brasileiro assume formalmente que Zuzu Angel foi assassinada como parte da repressão política. O gesto representa não só um ato de justiça à sua história, mas também um marco simbólico na luta contra o esquecimento.

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