Memória: assassinato de Rosa Luxemburgo e a lição que ainda cobra trabalho digno

rosa luxemburgo

Há datas que não pertencem apenas aos livros: elas atravessam o século como um alerta. Em 15 de janeiro de 1919, a revolucionária Rosa Luxemburgo foi presa e assassinada em Berlim, ao lado de Karl Liebknecht, num contexto de repressão política que marcou a Alemanha do pós-Primeira Guerra. A violência não foi “um detalhe” daquele tempo: foi a mensagem de que, quando a disputa social sobe de temperatura, a democracia e os direitos do trabalho podem ser empurrados para a beira do abismo.  

Hoje, relembrar esse crime político é mais do que um gesto de memória. É uma forma de encarar, com fatos e números, o que continua pressionando a vida real: desigualdade, precarização, discriminação salarial, informalidade e violências que atingem com mais força mulheres e periferias. É nesse horizonte que a ComCausa – Defesa da Vida recoloca a pergunta essencial: o que uma sociedade aceita como “normal” quando o assunto é trabalho? 

O que aconteceu em 15 de janeiro: prisão, execução e apagamento do corpo 

Rosa Luxemburgo era uma das principais vozes socialistas da época, intelectual, dirigente política e crítica feroz do militarismo e do autoritarismo. Em janeiro de 1919, após a derrota de uma insurreição em Berlim associada ao ciclo de conflitos conhecido como Levante Espartaquista, Rosa e Liebknecht foram capturados por integrantes dos Freikorps (grupos paramilitares de direita), presos e assassinados. Registros históricos descrevem que Rosa foi agredida e, depois, morta; seu corpo foi jogado no Canal Landwehr, em Berlim, uma tentativa de reduzir o fato a “desaparecimento” e quebrar simbolicamente a resistência.  

A história não é lembrada apenas pelo desfecho trágico, mas pelo que ele representa: a política decidindo, à bala, os limites do conflito social e cobrando a conta nas costas de trabalhadores, movimentos e lideranças. 

Por que Rosa Luxemburgo segue atual: trabalho, democracia e direitos sociais 

A obra e a trajetória de Rosa Luxemburgo giram em torno de um ponto que continua incômodo: não existe justiça social sustentável sem participação popular, organização coletiva e direitos. Ela criticou tanto o reformismo que promete “consertos” sem mexer na estrutura, quanto o autoritarismo que troca liberdade por obediência. Seu legado, portanto, não é um slogan: é um lembrete de que direitos sociais e democracia caminham juntos, e que o mundo do trabalho é um termômetro disso. Em outras palavras: quando o trabalho vira sobrevivência sem proteção, a democracia perde chão. 

Mulheres: o trabalho existe, o reconhecimento não vem na mesma medida 

Se existe um eixo em que desigualdade e mundo do trabalho se cruzam de forma gritante, ele aparece na renda. Em empresas com 100 ou mais empregados, levantamentos oficiais apontaram que mulheres recebem cerca de 20% a 21% menos do que homens, diferença observada em relatórios de transparência salarial divulgados pelo governo.  

Outra forma de ver: com base em dados de 2023, foi noticiado que os homens recebiam, em média, 15,8% a mais, com valores aproximados de R$ 3.993,26 (homens) contra R$ 3.449,00 (mulheres), uma diferença mensal de R$ 544,26. E o dado que deveria constranger qualquer “normalização” disso: se a massa de rendimentos acompanhasse a participação feminina no mercado formal analisado, estimou-se um potencial adicional de R$ 92,7 bilhões na economia.  

A lei existe e obriga visibilidade 

Desde 2023, a Lei nº 14.611 reforça a igualdade salarial e de critérios remuneratórios e estabelece mecanismos de transparência, exigindo divulgação de informações por empresas com pelo menos 100 empregados, entre outras medidas. Em 2025, a própria cobertura pública registrou prazos e obrigações de divulgação do Relatório de Transparência Salarial, com dezenas de milhares de empresas envolvidas.  

A pergunta, portanto, não é “se há regra”. É: como garantir execução, fiscalização e mudança real, inclusive nos setores e ocupações em que as mulheres estão mais concentradas e mais vulneráveis. 

Raça e classe: quando a desigualdade tem CEP, cor e ocupação 

No Brasil, as desigualdades não se distribuem de forma neutra, elas se acumulam. Um boletim do DIEESE apontou que, no 2º trimestre de 2024, o rendimento médio de trabalhadores negros foi de R$ 2.392, cerca de 40% inferior ao de outros trabalhadores (R$ 4.008). No mesmo material, aparece um recorte brutal: trabalhadoras negras no trabalho doméstico sem carteira recebiam, em média, R$ 950.  

Em painel de indicadores, o Ipea registrou que, em 2022, a renda de pessoas brancas era, em média, 87% maior que a de pessoas negras, destacando que a maior distância aparece entre mulheres negras e homens brancos.  

Esses números explicam por que o “mundo do trabalho” precisa ser lido também como mundo da desigualdade racial e territorial: não é apenas salário; é quem consegue emprego protegido, quem fica na informalidade, quem sustenta jornadas duplas, quem vive o risco cotidiano da falta de renda. 

É nesse espírito que a ComCausa – Defesa da Vida pode tratar 15 de janeiro como uma data de educação em direitos humanos, conectando história, desigualdade e mundo do trabalho — sem romantizar conflito, e sem aceitar a precariedade como destino. 

Leia também

Dia do Compositor: quando a música vira identidade, memória e crítica social 

Fale conosco! | Nos conheça

Projeto Comunicando ComCausa

Portal C3 | Instagram C3 Oficial

______________________

Comunicando ComCausa Pêmio Periferia Viva Ministério Cidades 2025

______________________

Colabore com nosso projeto pix.comcausa@gmail.com

Pix ComCausa

______________________

Compartilhe: