Dia do Compositor: quando a música vira identidade, memória e crítica social 

O calendário marca 15 de janeiro como Dia do Compositor e, por trás da data, há mais do que uma “homenagem”. É um lembrete público sobre um trabalho que costuma ser invisível: o de quem transforma experiência em linguagem, e linguagem em memória. A efeméride tem origem ligada ao México (associada à criação de entidade de autores e compositores) e ganhou projeção internacional a partir dos anos 1980, chegando ao Brasil como referência simbólica para falar de criação, autoria e reconhecimento.  

Na prática, o compositor é um tipo de repórter do sensível, registra o que o noticiário às vezes não enxerga: luto, precariedade, racismo, deslocamentos, fé, amizade, medo, festa, revolta, e devolve isso em forma de canção. Em territórios populares, esse papel fica ainda mais evidente: antes do edital, antes do estúdio, antes do acesso formal, já existe alguém compondo sobre o que vive. 

Para a ComCausa – Defesa da Vida, essa pauta é direta: cultura é direito, e autoria é parte do debate de direitos humanos quando a música vira ferramenta de existência, denúncia, educação e cuidado. 

Cultura é direito: compositor não é “entretenimento”, é cidadania 

A Constituição determina que o Estado garanta o pleno exercício dos direitos culturais e o acesso às fontes da cultura (art. 215). E, no campo da autoria, o Brasil tem uma base jurídica clara para proteger e organizar o direito de criação: a Lei nº 9.610/1998 (Lei de Direitos Autorais), que regula direitos de autor e conexos.  

Esse enquadramento muda a conversa: compositor não é “quem tem dom”. É trabalho, cadeia produtiva, economia criativa, política pública e memória coletiva. E é, também, conflito: porque a música pode crescer por cima, mas nem sempre a renda chega, com justiça, a quem cria. 

Os dados do setor: o Brasil ouviu mais, pagou mais, mas o desafio segue sendo a base 

O retrato mais recente do mercado fonográfico brasileiro traz um número que impressiona: R$ 3,486 bilhões em faturamento em 2024, com crescimento de 21,7% e o Brasil mantendo a 9ª posição no ranking global da IFPI, segundo a Pro-Música Brasil.  

Na outra ponta, a da execução pública e remuneração autoral, o Ecad informa que, em 2024, distribuiu R$ 1,5 bilhão em direitos autorais para mais de 345 mil titulares (compositores, intérpretes, músicos, editores e produtores fonográficos, entre outros).  

São números grandes. Mas a pergunta que interessa ao território é simples: como transformar crescimento em sustentação real para quem compõe, especialmente no underground, onde a margem é curta, o custo de produção é alto e a informalidade do circuito ainda é regra. 

O que é “execução pública” e por que isso importa para show, bar, evento, baile e festival 

A Lei de Direitos Autorais prevê regras para usos públicos da música e, na prática, a execução pública é o campo onde a disputa aparece com mais frequência: música tocada em eventos, shows, bares, rádios, TV, sonorização ambiental, festas. O próprio Ecad trata a execução pública como eixo do sistema de arrecadação e distribuição e relaciona o tema a dispositivos da Lei nº 9.610/1998.  

Em linguagem direta: se a música move público e receita, a autoria não pode ser “cortesia”. Quando isso vira inadimplência, vira também violência econômica contra o trabalho criativo e o impacto recai primeiro sobre quem está fora do circuito “premium”: periferias, bandas independentes, coletivos, cenas locais. 

O subterrâneo como arquivo do país: metal e punk também são composição social 

Falar de compositor no Brasil sem olhar para o underground é perder um pedaço do que a música faz como crítica social. No metal e no punk, a autoria frequentemente nasce do atrito: crise, censura, violência de Estado, desigualdade, moralismo, colapso urbano. 

A cena metal extrema brasileira dos anos 1980, por exemplo, foi descrita como um movimento que cresceu no pós-ditadura, em meio a precariedade, repressão policial e estigma cultural, com bandas que criaram infraestrutura própria (fanzines, selos, circuitos) para existir. Nesse mapa, Sepultura vira um caso emblemático: uma banda formada em Belo Horizonte, em 1984, que saiu do circuito local para impactar o metal mundial.  

No campo do metal melódico/progressivo, a história de Angra também é um capítulo de composição brasileira com assinatura reconhecível: banda formada em São Paulo, em 1991, e associada a uma síntese de técnica, arranjo e ambição estética que abriu portas internacionais. 
E há um nome que concentra essa discussão sobre compositor no rock: André Matos, músico lembrado como cantor, compositor e fundador do Angra, e cuja morte, aos 47 anos, em 8 de junho de 2019, mobilizou a cena como marco de geração.  

No punk brasileiro, a composição é, muitas vezes, urgência: música curta, direta, de confronto. A memória do movimento em São Paulo tem pontos documentados, como o show/festival “O Começo do Fim do Mundo” (Sesc Pompeia, 1982), frequentemente citado como marco do punk brasileiro. 

Bandas como Cólera (formada em 1979), Ratos de Porão (formada em 1981) e Inocentes (formada em 1981) aparecem como referências históricas dessa linhagem.  

O ponto aqui não é “gosto musical”. É papel social: metal e punk são arquivos de época e seus compositores, autores de uma crônica dura do Brasil. 

Playlist cidadã: 18 faixas para ouvir como quem lê o país (com underground incluído) 

A proposta não é “top hits”. É repertório para pensar autoria, memória, crítica social e Defesa da Vida: 

  1. Construção — Chico Buarque 
  2. Cálice — Chico Buarque / Milton Nascimento 
  3. Apesar de Você — Chico Buarque 
  4. Que País É Este — Legião Urbana 
  5. Ideologia — Cazuza 
  6. O Bêbado e a Equilibrista — João Bosco / Aldir Blanc 
  7. Asa Branca — Luiz Gonzaga / Humberto Teixeira 
  8. Diário de um Detento — Racionais MC’s 
  9. Negro Drama — Racionais MC’s 
  10. A Carne — Seu Jorge / Marcelo Yuka / Ulisses Cappelletti 
  11. Alagados — Paralamas do Sucesso 
  12. Comida — Titãs 
  13. Refuse/Resist — Sepultura (composição como choque político)  
  14. Roots Bloody Roots — Sepultura (território, identidade e fricção cultural)  
  15. Carry On — Angra (assinatura melódica e ambição autoral do metal BR)  
  16. Lisbon (ou “Make Believe”) / referências do repertório de André Matos (legado do compositor-intérprete no metal nacional)  
  17. Crucificados pelo Sistema — Ratos de Porão (punk como denúncia social)  
  18. Pela Paz em Todo Mundo — Cólera (punk como ética pública)  

Cultura como Defesa da Vida: por que essa pauta importa agora 

Quando a música vira só algoritmo, o território vira só “tendência”. O Dia do Compositor lembra o contrário: criação é direito, é trabalho, é memória comunitária, e é também crítica social capaz de formar consciência, sustentar identidade e ampliar a linguagem do cuidado. 

E, para a ComCausa – Defesa da Vida, o recado é objetivo: valorizar compositores é defender o direito de um povo contar a própria história — inclusive quando essa história nasce no subterrâneo, no metal, no punk, no rap, no baile, no culto, na roda e no estúdio improvisado do bairro. 

Nesse sentido, a relação com a RedeDH.org.br se torna parte do método: registrar, contextualizar e dar lastro público ao que o território cria e vive. A RedeDH funciona como memória organizada e plataforma de circulação, ajudando a transformar repertórios e narrativas em reconhecimento, documentação, direitos e presença pública, sem reduzir a cultura a “tendência” passageira. É cultura com densidade: cultura como Defesa da Vida. 

Leia também

MAM Rio Memória: quando a arte deixa de ser “programa” e vira direito de cidade 

| Fale conosco! | Nos conheça

| Projeto Comunicando ComCausa

| Portal C3 | Instagram C3 Oficial

______________________

Comunicando ComCausa Pêmio Periferia Viva Ministério Cidades 2025

______________________

Colabore com nosso projeto pix.comcausa@gmail.com

Pix ComCausa

______________________

Compartilhe: