No alto de uma laje simples, no bairro Antonina, em São Gonçalo (RJ), funciona um dos mais inspiradores exemplos de resistência e transformação social por meio da educação: o Pré-Vestibular Social Pré da Laje. Criado pela educadora Simone Silva, o projeto nasceu da ausência de oportunidades e do excesso de sonhos interrompidos — e se tornou, ao longo dos anos, uma referência comunitária de ensino, afeto e cidadania.
Sem recursos públicos, sem sede formal, mas com abundância de solidariedade, o cursinho funciona literalmente no terraço da casa de sua idealizadora. É ali que, há uma década, jovens e adultos de regiões periféricas estudam, trocam experiências, aprendem conteúdos do Enem e dos vestibulares e, sobretudo, redescobrem o direito de sonhar com a universidade.
O Pré da Laje atende anualmente cerca de 40 estudantes, todos oriundos da rede pública e em situação de vulnerabilidade social. O espaço, organizado com apoio da própria comunidade, é simples, mas carrega consigo uma força simbólica incomparável: a de que a educação pode brotar de qualquer lugar — inclusive de uma laje — quando cultivada com dignidade, compromisso e amor.
Educação popular como princípio e prática
A metodologia do projeto é fortemente baseada nos princípios da educação popular freiriana: construção coletiva do saber, valorização das experiências dos alunos, práticas pedagógicas horizontalizadas e envolvimento direto com o território. Aulas presenciais, rodas de conversa, oficinas temáticas, glossários coletivos e atividades digitais formam um mosaico formativo que vai muito além do preparo para provas — é uma formação para a vida.
Com um corpo docente composto majoritariamente por ex-alunos voluntários, o cursinho fortalece uma cadeia virtuosa de retorno e pertencimento. Quem passou pelo projeto e hoje estuda em universidades públicas volta para colaborar, seja lecionando, seja contribuindo com doações para manter minimamente o funcionamento do espaço.
Território, acolhimento e transformação
O Pré da Laje está inserido em um dos territórios mais desiguais da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. São Gonçalo é um município com profundas carências estruturais, alta concentração de trabalhadores informais e uma juventude que, muitas vezes, encontra nas ruas mais perigos do que oportunidades. Nesse cenário, o cursinho atua também como um espaço de defesa da vida, oferecendo segurança simbólica e real para jovens que buscam alternativas ao abandono social.
Além das aulas, o projeto promove iniciativas como a criação de uma pequena estufa para armazenar alimentos durante os encontros, o apoio eventual ao transporte de estudantes e o acolhimento de mães que frequentam o curso com seus filhos. Tudo com base na confiança mútua e na força do coletivo.
Reconhecimento e parcerias que somam
Nos últimos anos, a história do Pré da Laje tem ganhado cada vez mais reconhecimento — não apenas por seus resultados, mas pela forma ética, solidária e inspiradora com que conduz seu trabalho. É nesse espírito que o cursinho passou a integrar redes de articulação com outras organizações da sociedade civil.
Uma das parceiras que se somaram a essa caminhada é a ComCausa, iniciativa que tem como missão contribuir, de forma complementar, com ações de promoção dos direitos humanos, da educação comunitária e da cultura de paz em territórios populares. Ao lado de projetos como o Pré da Laje, a ComCausa busca apoiar, divulgar e potencializar experiências que já fazem a diferença, sem ocupar protagonismos — apenas oferecendo o que estiver ao seu alcance.
“Nosso papel é servir de ponte, amplificar vozes que já transformam vidas, como a do Pré da Laje. A gente aprende muito mais do que ensina quando caminha com iniciativas assim”, afirmou Adriano Dias, um dos articuladores da ComCausa.
Recentemente, o projeto foi inscrito no Edital de Chamamento Público nº 01/2025 da Rede Nacional de Cursinhos Populares (CPOP), promovido pelo Ministério da Educação e pela Fiocruz. Caso selecionado, poderá receber apoio financeiro e técnico para garantir bolsas estudantis e melhores condições de funcionamento — um reconhecimento mais do que justo para uma iniciativa que já provou, na prática, que a universidade também começa na laje.
Imagem de capa ilustrativa
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