Gaza à beira da fome: 14 mil bebês correm risco de vida

Crianças em Gaza

A Faixa de Gaza enfrenta uma catástrofe humanitária sem precedentes. Após 11 semanas de bloqueio total imposto por Israel à entrada de ajuda, a ONU alertou que cerca de 14 mil bebês podem morrer de fome nas próximas 48 horas caso não recebam suprimentos urgentes. Desde 2 de março nenhum alimento, combustível ou remédio pôde entrar em Gaza. “A única coisa a entrar agora em Gaza são as bombas”, denunciou a agência da ONU, UNRWA. No último fim de semana, sob intensa pressão internacional, Israel autorizou a entrada dos primeiros caminhões de ajuda humanitária desde o início do cerco, mas em quantidade mínima e insuficiente.

Segundo as Nações Unidas, esses carregamentos “são uma gota no oceano” frente à necessidade e ainda não chegaram à população que mais precisa. Entidades humanitárias alertam que Gaza está à beira da fome generalizada. Dados do IPC (Classificação Integrada de Segurança Alimentar) indicam que 22% da população — cerca de 470 mil pessoas — já enfrenta níveis catastróficos de falta de alimentos (Fase 5, equivalente à fome), enquanto todo o restante se encontra em situação de crise ou emergência alimentar.

As crianças são as mais vulneráveis: mais de 93% dos menores de Gaza aproximadamente 930 mil — estão sob risco crítico de inanição. De acordo com a UNRWA, ao menos 57 bebês já morreram de fome desde o início do bloqueio por falta de leite e suplementos alimentícios. A própria UNRWA ressalta que “a Faixa de Gaza está provavelmente vivendo sua pior crise humanitária” desde o início da guerra em outubro de 2023. O bloqueio deliberado de suprimentos básicos — comida, água, medicamentos — transformou a fome em arma de guerra, configurando um crime de guerra, conforme denunciou a Human Rights Watch.

Os impactos diretos da fome já são visíveis e devastadores. Hospitais relatam bebês desnutridos chegando à beira da morte. Famílias, sem ter o que comer, recorrem a medidas desesperadas para sobreviver: há relatos de pessoas consumindo ração animal, farinha estragada e até farinha misturada com areia para enganar a fome. “Minha filha está fraca, doente, mal consegue se levantar. Ela chora de fome”, descreveu um pai de Gaza à equipe da ONG Save the Children. Organizações alertam também para o risco de surto de doenças, pois organismos debilitados pela desnutrição ficam mais vulneráveis e não há medicamentos suficientes. “Sabemos o que é a fome — nós provamos o gosto da morte”, desabafou uma mãe atendida em uma clínica, ilustrando o desespero que tomou conta da população.

Diante desse cenário, agências internacionais clamam por uma mobilização massiva de ajuda para evitar milhares de mortes nos próximos dias. “Precisamos inundar a Faixa de Gaza com ajuda humanitária”, urge Tom Fletcher, subsecretário-geral da ONU para assuntos humanitários. Especialistas calculam que seriam necessários 500 caminhões de suprimentos por dia para suprir minimamente a necessidade de 2,3 milhões de habitantes. Porém, até agora Israel permitiu a entrada de apenas 100 caminhões no total — carregamentos que permaneciam retidos em inspeções e não haviam sido distribuídos à população até esta terça-feira. Organizações humanitárias (761 ONGs de vários países) lançaram uma petição conjunta pedindo o fim do “cerco israelense” e da “fome provocada” em Gaza, instando governos a intervirem para garantir a passagem segura de comboios de socorro.

A pressão internacional começa a crescer: França, Reino Unido e Canadá emitiram comunicado classificando o nível de sofrimento em Gaza como “intolerável” e exigindo o fim imediato das operações militares e a retomada da distribuição de ajuda humanitária, alertando que não ficarão de braços cruzados diante desta tragédia. Apesar disso, a catástrofe humanitária continua se agravando a cada dia de bloqueio, e cada hora conta para salvar vidas inocentes.

 A retórica do ódio e a culpa das vítimas

Em meio a essa calamidade, declarações de autoridades israelenses culpando as próprias vítimas chocam pela insensibilidade e pelo absurdo. Como por exemplo a deputada israelense Merav Ben-Ari provocou indignação internacional ao insinuar que “as crianças de Gaza trouxeram isso para si mesmas”. A frase, proferida durante um debate no Knesset sobre a proteção de civis palestinos, sugeriu que meninos e meninas palestinos seriam responsáveis pela violência que sofrem — uma afirmação estarrecedora, que ignora completamente o fato de que crianças não têm qualquer controle sobre conflitos ou decisões de guerra.

Na ocasião, Ben-Ari reagia aos apelos de uma colega, a parlamentar Aida Touma-Sliman, de origem árabe, que lembrava ao plenário que “uma criança é uma criança” e implorava pela proteção de todas as vidas inocentes, fossem elas israelenses ou palestinas. Ben-Ari, exaltada, interrompeu o discurso para bradar que “não há simetria” entre os lados e então soltou a frase chocante de que “as crianças em Gaza trouxeram isso sobre si mesmas”. Tal postura equivale a culpar bebês e crianças pelos bombardeios e pelo cerco que as vitimam, uma distorção moral gravíssima.

Declarações como essa não apenas desafiam a lógica, mas ferem os princípios humanitários básicos. Crianças são, por definição, inocentes nos conflitos, protegê-las é uma obrigação reconhecida pelo direito internacional humanitário. Ao insinuar que crianças “merecem” ou “atraíram” sobre si a morte e o sofrimento, essa retórica desumaniza as vítimas e tenta justificar o injustificável: a punição coletiva de uma população civil. Observadores apontam que, “quando crianças passam a ser retratadas como ‘não inocentes’, viabiliza-se uma lógica de guerra genocida”, em que todo e qualquer ato de violência passa a ser permitido.

No caso de Gaza, isso significa normalizar ataques e privação contra 1 milhão de menores de idade, sob a falsa premissa de que até mesmo os bebês fariam parte do “inimigo”. Não por acaso, analistas caracterizaram a fala de Ben-Ari como “discurso genocida”, uma retórica de ódio que pavimenta o caminho para atrocidades, ao remover a empatia e a proteção que naturalmente se concederia a crianças indefesas.

É importante notar que não se trata de um caso isolado ou um “deslize” verbal. A fala de Merav Ben-Ari ecoa um padrão já visto em outros representantes do alto escalão israelense. Poucos dias antes, o presidente de Israel, Isaac Herzog, declarou em entrevista que “não é verdade essa retórica de que em Gaza os civis não sabem de nada, não estão envolvidos”, sugerindo que “uma nação inteira” de Gaza carrega responsabilidade pelo Hamas e, portanto, não haveria realmente civis inocentes no território. Em 2018, o então ministro da Defesa Avigdor Lieberman afirmou abertamente que “não há pessoas inocentes na Faixa de Gaza”, pois “todos têm uma conexão com o Hamas”.

Essas declarações revelam uma mentalidade de punição coletiva, na qual todos os habitantes de Gaza, homens, mulheres, idosos e até crianças — são tratados como culpados por associação. Tal mentalidade contraria frontalmente o direito internacional, que proíbe castigar uma população inteira pelos atos de um grupo armado. Ainda assim, ela parece ter se entranhado em setores do governo israelense, atravessando inclusive linhas ideológicas: Ben-Ari, por exemplo, não é membro da extrema-direita, mas sim de um partido de centro (Yesh Atid). O fato de mesmo vozes tidas como moderadas propagarem esse discurso evidencia quão normalizada se tornou a desumanização dos palestinos, inclusive das crianças, no discurso político de Israel.

Do ponto de vista ético e humanitário, tais falas são absolutamente condenáveis. Elas invertem a culpa numa crise em que, claramente, as vítimas civis — em especial as crianças — não têm qualquer poder de decisão. Culpar quem está morrendo de fome por estar faminto equivale a legitimar o sofrimento imposto. Organizações como a ONU e a Human Rights Watch têm alertado que usar a fome contra civis é um crime de guerra abominável, e que privar deliberadamente crianças de comida, água e cuidados médicos jamais pode ser justificado por necessidade militar alguma.

Ao invés de reconhecer a gravidade da tragédia em Gaza, onde bebês agonizam de desnutrição e hospitais entram em colapso — e trabalhar para aliviá-la, líderes que adotam essa retórica negam a compaixão e sinalizam que vão prosseguir na linha dura a qualquer custo. Essa postura agrava o desespero da população cercada: para mães e pais que lutam para manter seus filhos vivos, ouvir de uma autoridade que “foi culpa das crianças” adiciona insulto à injúria, intensificando o sentimento de abandono e injustiça.

No âmbito político, o impacto de declarações como a de Merav Ben-Ari também é significativo. Elas mancham a imagem internacional de Israel e fornecem munição para críticas cada vez mais contundentes de aliados e organismos globais. Nos últimos dias, ficou evidente o mal-estar de nações tradicionalmente alinhadas a Israel: Reino Unido, França e Canadá adotaram um tom duro ao condenar a catástrofe humanitária em Gaza e alertaram que não vão tolerar ações “escandalosas” que provoquem tamanho sofrimento.

Esses países chegaram a mencionar explicitamente que qualquer tentativa de expulsar em massa os palestinos de Gaza — ideia aventada por alguns membros do governo israelense, seria “uma violação do direito internacional”. Ou seja, mesmo para parceiros históricos, tornou-se insustentável ficar em silêncio diante de certas posturas. Ao persistir em uma retórica que culpabiliza as vítimas e ao manter ações militares impiedosas apesar dos apelos globais, o governo Netanyahu arrisca ampliar seu isolamento diplomático. Já se fala em sanções e revisões de acordos: o Reino Unido, por exemplo, suspendeu negociações comerciais e convocou a embaixadora israelense para dar explicações sobre a ofensiva em Gaza. A tendência é que declarações desumanizantes só aprofundem esse racha político, dificultando ainda mais qualquer saída negociada ou apoio internacional.

Em resumo, imputar às crianças de Gaza a culpa por sua própria miséria é não apenas absurdo, é perverso. Num momento em que o mundo assiste, estarrecido, a possibilidade real de uma geração inteira morrer de fome diante de nossos olhos, é crucial reafirmar o óbvio: nenhuma criança escolheu essa guerra, nenhuma delas “trouxe isso sobre si”. Elas são vítimas que merecem proteção e solidariedade. A tragédia humanitária em Gaza exige respostas urgentes em termos de cessar-fogo, auxílio e respeito ao direito humanitário — e não a normalização de discursos de ódio.

Culpar os inocentes apenas serve para desviar a responsabilidade de quem de fato detém o poder de parar a carnificina e o bloqueio. Frente à iminência de milhares de mortes evitáveis, o mínimo esperado de líderes e autoridades é humanidade e empatia. As palavras importam: narrativas que desumanizam e culpam as vítimas abrem caminho para mais violência, enquanto um discurso centrado na compaixão e na dignidade humana poderia ajudar a salvar vidas. Em Gaza, a vida de cada criança faminta depende das ações — e também das palavras — daqueles em posições de poder. Hoje, mais do que nunca, é preciso que prevaleça a humanidade sobre a retórica do ódio.

 

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