Lavagem do Cais do Valongo reafirma memória e luta antirracista no coração da Pequena África

ComCausa participa da 13ª Lavagem do Cais do Valongo Jovem Fica Vivo

Realizada desde 2010, a Lavagem do Cais do Valongo é um ato público de valorização da ancestralidade africana, promovido por organizações do movimento negro, terreiros e coletivos culturais. A 14ª edição aconteceu neste sábado (27), reunindo centenas de pessoas entre lideranças religiosas, artistas, pesquisadores, militantes e público em geral.

A cerimônia foi conduzida pela Iyalorixá Edelzuita de Oxaguian, que liderou a tradicional lavagem simbólica do cais com água de cheiro, flores e folhas sagradas em homenagem aos ancestrais. O cortejo teve início às 9h, encabeçado pelo Bloco Filhos de Gandhi, com participação de grupos tradicionais como Afoxé Filhos de Angola, Bloco Ziriguidum, Mariamas e Filhas de Gandhi, todos trajando branco e entoando cânticos de orixás ao som dos atabaques.

O evento celebrou a ancestralidade africana e reforçou a luta por memória e reparação no sítio arqueológico reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Mundial da Humanidade.

Cais do Valongo: o maior porto escravagista das Américas

Localizado na região portuária do Rio de Janeiro, o Cais do Valongo foi construído em 1811 para receber africanos escravizados trazidos ao Brasil, à época o principal destino do tráfico negreiro nas Américas. Estima-se que mais de um milhão de pessoas tenham desembarcado ali — número que torna o Valongo o maior ponto de entrada de escravizados da história da humanidade, segundo a própria UNESCO.

O local abrigava o chamado “complexo do tráfico negreiro”, com armazéns, áreas de triagem, comercialização e a chamada “fábrica de negros”, onde os recém-chegados eram higienizados, alimentados e tratados antes da venda. Muitos morriam no trajeto e eram enterrados no Cemitério dos Pretos Novos, nas redondezas.

Do apagamento à memória: redescoberta e tombamentos

Durante décadas, o Cais permaneceu soterrado sob o asfalto e o concreto da cidade. Em 1843, foi coberto para receber a princesa Teresa Cristina, e permaneceu oculto por sucessivas reformas urbanas. Sua redescoberta ocorreu em 2011, durante as obras de reurbanização do Porto Maravilha, revelando camadas históricas fundamentais da diáspora africana.

Em 2012, foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), e em 2017 recebeu o título de Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO, como o primeiro sítio no mundo associado diretamente à história do tráfico transatlântico de africanos.

Espiritualidade como afirmação política

Mais do que uma celebração religiosa ou cultural, a Lavagem do Valongo é um ato político de reocupação simbólica de um território marcado pela dor da escravidão. O ritual articula espiritualidade, memória e mobilização social, reforçando a urgência da reparação histórica e do combate ao racismo estrutural.

Ao lavar o chão do cais com gestos sagrados, os participantes reverenciam os ancestrais, denunciam os apagamentos históricos e reafirmam o direito à memória. Como expressa a Iyalorixá Edelzuita: “Cada flor que colocamos aqui é também uma palavra de justiça, de respeito, de afirmação do nosso lugar no mundo.”

Reconhecimento institucional e desafios futuros

A edição de 2025 contou com patrocínio da Prefeitura do Rio de Janeiro e apoio da Secretaria Municipal de Cultura, refletindo um avanço no reconhecimento público da importância do evento. Ainda assim, lideranças comunitárias reivindicam políticas permanentes de valorização do Cais do Valongo, como a criação de um centro de memória, ações educativas nas escolas e investimentos contínuos em infraestrutura e segurança.

Instituições como o Instituto Pretos Novos, o Observatório do Valongo e o Fórum de Comunidades Tradicionais da Pequena África seguem atuando pela preservação ativa do sítio, unindo história, ciência, arte e espiritualidade.

Conclusão: lavar a dor, sem apagar a história

A 14ª Lavagem do Cais do Valongo reafirma o compromisso com a preservação da memória da ancestralidade africana no Brasil. Em um país ainda marcado por profundas desigualdades raciais, rituais como esse são formas de resistência e construção de futuro. Gestos de afeto e denúncia transformam a dor histórica em força coletiva e consciência social.

No chão banhado por água de cheiro e pétalas brancas, caminha a esperança de um país mais justo, que reconheça sua história e se comprometa com a dignidade de todos os seus filhos.

Foto de capa da 13 Lavagem do Valongo ComCausa

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