Memória: Cais do Valongo é inscrito na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO

Tombamento Cais do Valongo #ComCausa

No coração da zona portuária do Rio de Janeiro, entre os vestígios de uma cidade em constante transformação e as cicatrizes de um passado marcado pela dor e pela resistência, emerge o Cais do Valongo. Mais do que um sítio arqueológico, o Valongo é uma ferida aberta no solo urbano — uma ferida que, ao ser redescoberta, reacende debates urgentes sobre memória histórica, justiça reparatória e o reconhecimento das contribuições e sofrimentos da população negra no Brasil.

Soterrado por décadas sob sucessivas camadas de obras e esquecimento, o cais veio à tona em 2011, durante as intervenções do projeto Porto Maravilha. Sua redescoberta não apenas revelou estruturas físicas construídas no início do século XIX, mas também expôs as bases de um sistema escravocrata que transformou o Rio de Janeiro no principal porto de entrada de africanos escravizados nas Américas. Estima-se que, entre 1811 e 1831, algo entre 500 mil e 1 milhão de pessoas tenham sido desembarcadas à força no local — transformando o Cais do Valongo no maior porto receptor de africanos escravizados do mundo.

Construído em 1811 por determinação do vice-rei Dom Marcos de Noronha e Brito, o Valongo substituiu a antiga Praia do Peixe como ponto de desembarque exclusivo de africanos escravizados. Sua localização estratégica na Gamboa, adjacente ao então centro econômico da cidade, foi planejada para evitar o incômodo que os corpos doentes, famélicos e violentamente retirados do continente africano provocavam à elite branca da Corte.

Com o passar dos anos, o Cais foi sendo remodelado: em 1843, para receber a princesa Teresa Cristina, noiva do imperador Dom Pedro II, o local foi embelezado e rebatizado como Cais da Imperatriz — numa tentativa deliberada de apagar a memória do tráfico e conferir nobreza à paisagem. A partir daí, reformas urbanas sucessivas acabaram por enterrar completamente o sítio original, engolido pela cidade que se modernizava à custa do esquecimento.

O reconhecimento formal do valor histórico do Cais do Valongo só viria em 2012, com seu tombamento pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Mas foi em 2017 que o local ganhou projeção global: após intensa mobilização de acadêmicos, lideranças negras e instituições de defesa do patrimônio, a UNESCO o inscreveu na Lista do Patrimônio Mundial como Valongo Wharf Archaeological Site. O título — inédito para um sítio diretamente vinculado à escravidão africana nas Américas — simbolizou um marco no processo de internacionalização da luta por memória, verdade e justiça.

Segundo o dossiê apresentado à UNESCO, o valor excepcional do Cais do Valongo está ancorado em três pilares principais: o registro material do sistema escravista e suas marcas sobre o território; o papel do local como espaço de memória e ressignificação identitária das comunidades afrodescendentes; e seu potencial como ferramenta educativa e símbolo de resistência cultural frente ao racismo estrutural.

 

No entanto, o status internacional não se traduziu em ações práticas imediatas. Apesar da visibilidade e dos compromissos assumidos junto à comunidade internacional, o Cais segue enfrentando desafios estruturais e institucionais. Enquanto isso, o entorno do sítio arqueológico segue sendo alvo de pressões urbanísticas. A especulação imobiliária, impulsionada pela requalificação da zona portuária, levanta temores sobre a gentrificação da área e o apagamento de sua dimensão histórica e social. A ausência de sinalização adequada, a precariedade da mediação educativa e o distanciamento entre as políticas públicas e as comunidades afrodescendentes agravam um quadro de abandono simbólico.

Em resposta, diversas iniciativas vêm sendo articuladas por organizações negras, universidades, movimentos sociais e setores do poder público. Uma das mais relevantes é a Iniciativa Valongo, lançada em 2024 pelo BNDES em parceria com a Prefeitura do Rio e entidades da sociedade civil. O projeto prevê a criação de um centro cultural no próprio sítio arqueológico, com ênfase na história da escravidão, da diáspora africana e da resistência negra no Brasil. O protagonismo das comunidades diretamente impactadas é central na proposta, que pretende aliar valorização da memória, turismo educativo e justiça social.

Além disso, têm sido promovidas visitas guiadas com estudantes da rede pública, ações de educação patrimonial, instalação de QR codes para roteiros autoguiados e a formação de um Conselho Gestor plural, com representantes do poder público e da sociedade civil. Ainda que importantes, essas medidas seguem carecendo de maior articulação institucional e de recursos permanentes.

Cais do Valongo

O Cais do Valongo está localizado na Avenida Barão de Tefé, no bairro da Gamboa, e é acessível pela Parada dos Museus do VLT ou via metrô, com conexão a partir da estação Uruguaiana. A visita ao sítio é gratuita e o espaço está aberto ao público, mas para visitas interpretativas é recomendável o agendamento prévio junto ao IPHAN ou ao Instituto Pretos Novos, referência histórica e cultural no entorno.

A poucos metros dali, outros marcos da herança africana e da cultura carioca se destacam, como a Pedra do Sal — berço do samba e espaço de resistência —, o Museu de Arte do Rio (MAR), o Museu do Amanhã e o Cemitério dos Pretos Novos. Juntos, formam um circuito que articula memória, denúncia e valorização das raízes negras do Brasil.

Preservar o Cais do Valongo é reconhecer que a história do Brasil não começa com a monarquia nem termina na República — mas é atravessada por trajetórias de violência e resistência que moldaram o país. Sua conservação não deve ser vista apenas como uma obrigação legal decorrente de tombamentos, mas como uma dívida histórica do Estado brasileiro com a população negra, cujos ancestrais ali foram desembarcados em condições desumanas e que, ainda hoje, seguem lutando por reconhecimento e reparação.

O futuro do Valongo — e o que ele representa — dependerá da nossa capacidade coletiva de enfrentar o racismo estrutural, disputar o espaço urbano e fazer do passado uma ferramenta de transformação. O chão da cidade guarda vozes que não foram silenciadas: elas agora pedem escuta, justiça e permanência.

“O que emerge do Valongo não são apenas pedras — são os ossos, os nomes e a dignidade dos nossos ancestrais. Preservar esse chão é preservar a nossa história de luta e sobrevivência.” — Adriano Dias da ComCausa, que acompanhou os milimento pelo tombamento.

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